Da série “Blogando” : Sobre computadores, reformas e texturas

Trabalho de verdade há 9 anos. Neste tempo, só tive uma grande ferramenta de trabalho: o computador (além do meu cérebro, que veio de fábrica então não conta).
Se contarmos os anos de faculdade onde eu já “computava” bem, tenho uma grande intimidade com essa ferramenta.

Entenderam ? Legal. Agora vou parar este raciocínio, uma hora ele volta. Prometo.

Estou em processo de mudança de casa, desde Agosto. Visita o apartamento, pensa como vai ficar, planeja decoração, faz contas, bate-perna, dá preguiça, faz compras, melhor tomar vergonha e mudar logo, enfim, tudo aquilo que mesmo quem nunca fez, pode imaginar como funciona.
No último mês entrei na fase onde você encara definitivamente o fato de que vai mudar. O ponto sem volta.
Como não estou mudando no módulo “rico”, cuidei pessoalmente de praticamente todo o acabamento que tornou um apartamento antigo, na minha nova casa.
Por 2 semanas, fui pintor, eletricista, instalador, técnico eletrônico, faxineiro e decorador.
A cada mudança radical que eu provocava na casa (Ex.: arrancar uma cortina velha e os varões que a sustentavam na parede. Acreditem, isso é radical para um amador como eu), eu percebia que algo em mim mudava também. E não estou fazendo uma metáfora emocional do Homem que se integra com o todo, blá-blá-blá …
O que eu quero dizer, é que 2 semanas de intensivo trabalho braçal alteraram meu corpo. Depois da primeira semana, minhas mãos ficaram ásperas e calejadas (Sabe mão de pedreiro? Então…). Na segunda semana, eu conseguia trabalhar por mais tempo e rendendo muito mais do que no começo. E o fato de perceber que o trabalho surtia um efeito concreto (agradável!) e real na casa, me fazia trabalhar mais. “Finalmente tou fazendo algo que serve pra alguma coisa!”

Ok, acho que chegou a hora de juntar tudo  :

Lembro que num dos meu picos workaholics de trabalho-faculdade-carro-computador-microondas-controle-remoto-e-por-aí-vai, tive um choque no carro, num congestionamento, ao encostar minha mão em uma planta do canteiro central da 23 de Maio. Eu arranquei uma folha e o cheiro que senti, foi o mesmo cheiro de “planta”, quando eu brincava no térreo do meu prédio, com meus amigos de infância.
Quando você é pequeno, você vive tocando texturas diferentes, sentindo cheiros esquisitos, caindo, se machucando e saindo do normal.
Quando você “adultece” as texturas vão sumindo, os cheiros vão se tornando previsíveis, tudo entra “nos eixos” e seu corpo não precisa mais se adaptar à nada.
Naquele momento percebi que faziam meses, talvez anos, que eu não me deparava com algo fora do script.
Nestas duas semanas pré-mudança, por um motivo bem adulto me coloquei à prova como fazia quando criança. Me machuquei, cortei, calejei, cansei meus músculos e senti cheiros horríveis.
No meu trabalho como “gente grande”, já produzi algumas coisas que me orgulham muito, bem mais complexas, que envolviam muito mais dinheiro e pessoas. Porém, olhando e curtindo a sala que “reformei sozinho”, sinto uma sensação de realização que talvez nunca tenha sentido. Isso porque praticamente tudo que está aqui, do jeito que está, é culpa minha.
Quer dizer então, que vou abandonar minha vida urbana, vender tudo e ir morar numa comunidade de permacultura no meio Goiás?
De jeito nenhum. Adoro tecnologia, adoro conforto, e de forma geral, acho que minha vida vai bem (ainda mais com a casa nova!). Em breve, volto a trabalhar, apenas usando meu computador, minhas mãos voltam a ser macias e tudo vai retornar ao normal.
Mas … escrever essa crônica, é uma tentativa de não esquecer de me colocar à prova de vez em quando, mesmo que machuque um pouco, mesmo que deixe marcas.
Se passar muito tempo sem que isso aconteça, é sinal de que esse tempo está sendo perdido.

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7 Comentários on "Da série “Blogando” : Sobre computadores, reformas e texturas"

  • Prenha loca no cio diz

    hum…..soft hands……ã?

  • Verônica diz

    Olá Ri, bom ler um texto seu. Parabéns pela nova casa! Aposto que está linda,
    Beijos.

  • Camila diz

    Cheers!

  • Kris diz

    Reformou sozinho o kct. Ajudei pouco mas ajudei. Ajudei o suficiente para poder dizer: “É, sem mim esse apartamento não estaria assim”. Estaria melhor pintado…

  • Fábio diz

    Agora dá pra playboy…

  • Pamela diz

    olá ricardo lembra de mim sou a pamela de guarulhos há muito tempo a gente se conheceu, e desde aquele dia sempre dou uma passadinha para ler suas cronicas e sempere acho muito boas…. bom enfim parabens pelo apto novo.. sei que é dureza já passei por isso …. bom é só bjs e fica com deus

  • Anônimo diz

    Eu adoro essas coisas de trabalho braçal. Quem me vê não diz que tenho um estojo com diversos tipos de ferramentas de emergência em casa, nem que tinha uma furadeira e um pé-de-cabra (que meu pai me obrigou a levar pro sítio). No começo é uma novidade, sempre. Não sei mexer, acho aquilo assustador.
    Mas depois de um tempo pego gosto pela coisa, e me sinto ótima consertando a pia, por exemplo. É quase como ouvir música (que comparação horrenda!), eu me sinto livre pra viajar no meu mundão particular. É mágico.

    Enfim…

    PS: adoro mãos àsperas.

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