Namorada de Aluguel

Nunca vou esquecer da primeira vídeo-locadora do bairro. Chamava “Maxi Vídeo”! Quer dizer … Hobby! Não, não … era Maxi mesmo. Quer dizer, olha … o nome eu não lembro, mas lembro direitinho do lugar! No último quarteirão da Vieira de Moraes antes da Vereador José Diniz, no Campo Belo. Lado direito, duas lojas depois da esquina (ou seria uma loja só?). Fachada amarela e janelas azuis.

Meu irmão (devia ter quase 18 anos na época, um adulto!) foi quem fez a ficha da família lá. Nosso número era 737. Disso eu lembro direitinho! Foi um dos primeiros números que eu decorei na vida.

Dentre as primeiras lembranças que eu tenho do local, era a estante com filmes esportivos. Na prateleira dos filmes de carro pra ser mais específico. Eu adorava a série “Havoc”! Uma seqüência de fitas que mostravam os acidentes de carro mais espetaculares de todos os tempos. A locução devia ser inglesa. Eu não entendia nada, mas lembro da legenda com um texto bem ácido. Uma das cenas que mais me marcou foi numa corrida de carros de série (não lembro se era rali ou pista) em que o veículo capotou e a porta acabou caindo. O piloto bravamente continuou na corrida, e o locutor disse : “E lá vai o piloto aproveitando seu novo ar condicionado!” Eu me matava de rir!

Mas isso tudo é só um aperitivo bem feito perto da minha maior lembrança. Eu devia ter entre 9 e 10 anos e, passando de carro por lá, me assustei ao ver uma placa branca com letras vermelhas dizendo : Temos Namorada de Aluguel. Uau!

Nessa época, namoro pra mim era algo absolutamente idealizado. Eu era ridiculamente romântico. Um menino bonitinho de olhos azuis, cabelos quase brancos de tão loiros e completamente despenteados. Perdidamente apaixonado pela menina mais bonita da classe. Mais bonita de todas! E não é que eu tava vendo coisa demais, não! Quase todos os meninos da classe queriam namorar com ela. Mas eu gostava muito mais. De doer a barriga, sabe?

Nessa época, minha auto-estima era equivalente ao dedo mindinho esquerdo do nosso nem tão excelentíssimo presidente : praticamente nula. Eu sabia que ela era areia demais pro meu caminhãozinho. E eu nem sabia plantar bananeira, como poderia conquistá-la ? Impossível!

Foi aí que a tal placa mágica apareceu. Eu lá, no banco traseiro do Monza verde do meu pai, debruçado na janela e lendo “Temos Namorada de Aluguel”. Que puxa …

Será que se eu fosse lá e pedisse uma menina com as mesmas descrições da minha amada, poderia fazer uma locação?

Mais do que isso : será que, assim como podíamos fazer nos filmes, a locadora tinha um andar secreto onde todas as namoradas ficavam perfiladas e a gente ia dando uma olhada a fim de escolher a melhor opção? (Gente, eu tinha 9 anos! Não tou falando em sacanagem!)

Só de pensar nessa possibilidade eu já ficava com um pouco de pena das outras meninas que estavam lá e não iam ser escolhidas. Na minha cabeça todas eram bonitas. Uma pena ficarem naquele lugar escuro.

Da onde será que elas vinham ? Os pais delas sabiam que elas estavam lá?
Essa história toda era um pouco esquisita, mas totalmente cabível na minha cabeça loira e despenteada (bons tempos aqueles dos cabelos …).

Com o tempo eu comecei a perceber que várias das locadoras que passávamos de carro tinham a mesma placa. O que complicava um pouco as coisas, pois nessa época eu tinha certeza que a gente só tinha uma alma gêmea. E em qual locadora ela estaria!?

Por sorte (ou azar … seria, no mínimo, uma ótima história pra ser contar agora), eu nunca tive coragem de entrar na tal locadora, devolver o “Havoc 5” e perguntar se a mulher da minha vida estava lá dentro.

Depois de um tempo a placa sumiu. Mal sabia eu, que ela devia fazer parte de um plano de marketing pré-histórico para lançamento do filme “Namorada de Aluguel”. Aliás, só fui ver esse filme na TV anos depois. E pra piorar, só me toquei que uma coisa tinha a ver com a outra bem depois dos meus 18 anos. Aqueles insights que você tem depois de velho sobre uma lembrança da infância, sabe como é?

Mas como bem diz meu amigo Kris, o bom dessa época é que todos esses questionamentos e sofrimentos amorosos, por mais intensos e verdadeiros que fossem, duravam até a hora que algum amigo interfonava ou tocava a campainha de casa falando : “Vamos descer pro térreo pra jogar bola?”

Bons tempos aqueles!

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7 Comentários on "Namorada de Aluguel"

  • Anônimo diz

    que fofo….

  • Murilo diz

    Ele é assim mesmo…

  • Camila diz

    … um perigo!

  • Kettlin diz

    Geintein…

    Que meigo…

    Rick…(que intimidade)

    volte a escrever com frequencia…

    você é ótimo nisso…

    mesmo… amei todas suas crônicas…

    bsÔ fofo…

  • Sensacional texto!!
    Esse frio na barriga, misturado a essa inocência q é difícil de ver hoje…
    Adorei.
    Cabelos quase brancos e olhos azuis?? Se eu tivesse os mesmos 9 anos, estaria com certeza apaixonada. Mas eu não era popular e só sabia dar cambalhota na época, em cima de um colchonete.
    Abraço!

  • hanna diz

    Fui apaixonada por um menino loiro e de olhos azuis! Tinha frio na barriga, a voz tremia qdo ele se aproximava…era um sonho. Então eu era uma garotinha ruiva e outros meninos tb queriam ficar comigo, mas eu não via ninguem, só via aquele loiro…Filho do dono da padaria… que bonito!

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