Os Três Ranzinzas, capítulo 01

Era numa daquelas típicas padarias de esquina paulistanas que tudo acontecia. Toda tarde. Senhoras passavam pra comprar seus paezinhos (algumas preferiam os branquinhos, outras os mais torrados). Garotos e garotas voltando do colégio desviavam seus caminhos de volta pra casa e entravam lá, com a desculpa de comprar sorvete. Eles queriam mais que uma lambida, elas queriam se sentir o melhor sorvete da escola. Eles nunca conseguiam o que queriam, elas sempre. Ainda sim, todos ficavam felizes. Tinha um gringo maluco que deixava sua bicicleta encostada no poste da esquina, sem cadeado, abria seu notebook e ficava trabalhando do lado do chapeiro. Semana sim semana não ele perguntava se já tinham instalado o “Wi-fi”. Clebão, o chapeiro, ria e comentava com o frango a ser fritado : “Num entendo uma palavra do que essa porra de gringo fala …”.

O balcão ficava do lado esquerdo da padaria. Era em formato de “U”. Entre a parede e a lateral esquerda do balcão estavam sentados três velhinhos. Eu ia dizer “simpáticos”, mas nem com muita boa vontade eu poderia afirmar isso.

Eram cinco e pouco da tarde. Sem aviso prévio, Savério, o velho do meio com a cara mais invocada dos três, teve um acesso de tosse. Violento. Barulhento. Estrondoso. Todos os outros clientes ficaram o olhando assustados, os funcionários já pareciam estar acostumados.

Jânio, à direita dele, fitou-o sem muita preocupação e protegeu sua porção de tremoço. Adhemar, o mais velho de todos, repousou o copo de “Cynar” no balcão, levantou com certa dificuldade até pegar seu andador encostado no canto da padaria.

Ele estava sentado lá no fundo. Lentamente, andou por trás de Savério no apertado corredor entre a parede e balcão, enroscou o andador num lixinho de plástico que ficava no caminho e, sem dar muita bola, chutou-o para longe. Passou por trás de Jânio. Virou a primeira esquina do “U”. Parou um pouco e ajeitou o andador para uma posição mais prática, já que agora tinha mais espaço. Voltou a andar, virou a segunda esquina e andou até a metade do outro balcão. Olhou para Savério, para Jânio, respirou fundo e abaixou. Depois de uns trinta segundos ele voltou à superfície. Parecia ter colocado alguma coisa no bolso.

Quando ia dar meia-volta, foi surpreendido por uma garota que ia pagar suas garrafinhas de iogurte light. Ela vestia roupa de ginástica (sem agasalho amarrado na cintura) e cantarolava uma música que estava ouvindo no mp3 player. Adhemar resmungou alguma coisa pra si mesmo. Pelo corpo da moça, e o olhar do velho, era bem claro o que ele estava pensando.

Com calma, ele se virou e começou a fazer o caminho de volta. Passou pela primeira esquina, avançou bravamente pela base do “U”, virou a segunda esquina e quando chegou exatamente no meio dos outros dois, ainda sentados, cutucou Savério com um sonoro : Ô !

– Que foi?! – respondeu o velho pigarrento, sem paciência.

Adhemar tirou a mão do bolso e deu um soco no balcão como se tivesse mostrando o “Zap” num jogo de truco. O barulho assustou a todos na padaria, e sem pestanejar ele disse, batendo no ombro de Savério :

– Toma! Teu pulmão.

Jânio teve um acesso de riso e acabou engasgando com um tremoço mais desobediente. Savério começou a xingar alto Adhemar, meio em português, meio em italiano, meio em língua de velho.

Adhemar ria de canto de boca, enquanto apoiava seu andador no canto das paredes, até se sentar, voltando a segurar o copo de “Cynar”.

Seu Rubens, o dono da padaria que sempre ficava no caixa, deu o troco meio sem jeito, rindo amarelo e se desculpando para uma senhora que estava comprando leite.

– Quer dizer que pra encher o meu saco você solta esse copo?

Adhemar não respondeu. Apenas fez o gesto trêmulo de “um brinde” e deu mais um micro-gole.

– Falando em copo. Não tá na hora do senhor parar de beber, não Seu Adhemar? – disse Rose, a faxineira que sempre se divertia com os três, enquanto reposicionava o lixinho.
– Olha, minha filha…
– Lá vem… – disse Jânio, já começando a rir.
– Se com oitenta e cinco anos eu não morri por causa dele – apontando para o copo – não é agora que eu vou parar, não é?
– Mas aí, pelo menos, você não tava andando com essa porcaria pra cima e baixo. – bradou Savério, ainda emburrado com a brincadeira.
– Porcaria que foi buscar teu pulmão cheio de nicotina lá do outro do balcão …
– Ah … ma va fan culo!
– Vai você …
– Vamo “pará” com essa briga vocês dois. Parece duas criança – tentou Jânio.
– Vá, vá, vá !! – disse Savério.

Adhemar, apontando para Jânio, chamou o do meio :

– Falou a Madre Tereza, ali.
– Boa! – retrucou, Savério.
– Que Madre Tereza? Porquê, hãn?!
– Num bebe, num fuma, num faz porcaria nenhuma e ainda fica enchendo nosso saco …
Eco, Adhemar! – disse Savério – Num faz nada disso, é ainda é Corintiano, ô maledeto.
– Que que tem que eu sou corintiano!?
– Que que tem que hoje é quarta-feira. – replicou Adhemar.
– E daí?!
– Ué? Corintiano só pode aparecer aqui na Segunda! – retrucou Savério emendando uma gargalhada que se misturou com a do Adhemar.
– Mas vocês são dois idiota. Tavam se pegando agora há pouco e ficam fazendo jogral pra me atazanar a vida.

Os dois não paravam de rir.

– Quer saber? Eu vou embora!
Má che? Má che? Nem acabou os tremoço! Senta aí! – disse Savério tentando segurar Jânio, que já se levantava.
– Se bem que, segundo o Seu Rubens, é bom não exagerar com esses daí, heim? – disse Adhemar, segurando o riso, agora em tom preocupado.
– Por quê? – perguntou Jânio, curioso.
– Porque esses tremoço são de segunda! Hahahahaha!!

Dessa vez, nem seu Rubens, nem o chapeiro se agüentaram, e começaram a rir.

– Vão pro quinto dos inferno vocês. Eu vou embora! – disse Jânio agora levantando definitivamente, jogando atrapalhado, umas moedas em cima do balcão e aproveitando pra tentar pra arremessar um tremoço dentro do copo de Cynar do Adhemar.
– Errou! – gritou o velho pinguço – Volta aqui na segunda e traz o Lulinha pra te ajudar. Quem sabe ele não acerta o alvo!

E assim, Jânio foi embora resmungando, Savério esqueceu do mau-humor momentaneamente e Adhemar pode degustar seu Cynar tranquilamente.

Pra quem via de longe, há quase dez anos, toda tarde era exatamente igual. Mas, na verdade, só os três sabiam o quanto cada tarde era diferente e especial pra cada um deles.

Ok, ok … Eu admito. Eles são simpáticos sim.

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4 Comentários on "Os Três Ranzinzas, capítulo 01"

  • Paulo diz

    Eu acho que tive um vislumbre do futuro de algumas pessoas que conheço…

  • rafael diz

    Boa!

  • Será, Paulão? Tomara! :-)

  • Solano diz

    Kkkkk… gostei da crônica laganaro, me faz lembrar do meu avô

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