Os Três Ranzinzas, capítulo 02

Outra tarde daquelas. A padaria estava vazia. Devia ser por causa da chuva torrencial. Além dos funcionários, estavam lá dois policiais que entraram antes da chuva começar, tinham deixado a viatura aberta e começaram a lavar a roupa suja de 12 anos de parceria, pra decidir quem ia se molhar pra fechar os vidros do carro. Algumas moscas estavam presas lá dentro também, nas vitrines que começavam a se embaçar, como sempre acontece nessas chuvas de verão.
No balcão, apenas Savério, o velho invocado e pigarrento, e Adhemar, o que usa andador e é o mais velho. Quietos e observando a discussão acirrada dos dois policiais. Após alguns minutos de observação intensa, Savério cutucou o amigo no braço, respirou fundo como se fosse começar um discurso e disse, categórico :
– Ó …
Adhemar tirou o copo de Cynar dos lábios, repousou-o no balcão e olhou pra onde o colega tinha apontado, com a mão um pouco trêmula e preguiçosa.
Uma figura meio disforme, encapotada e dotada de três apêndices locomotores se aproximava da porta. Assim que passou do detector de metais, o enigma se desfez. Até os dois guardas pararam de discutir, por instantes, para entender o que havia debaixo daquele mistério (enquanto patrimônio público, em forma de Corsa Sedan, já parecia um jangada).
Por baixo do saco plástico preto (daqueles de 100 litros) estava Jânio, de gorro preto e branco, calça de moletom azul marinho, bengala, uma bota ortopédica na perna esquerda e uma camiseta branca com os dizeres – EU NUNCA vou te abandonar – por cima de um pulôver marrom.
Savério não se conteve e sem quase mexer um músculo da face disse, como se pensasse alto:
– Puta que o pariu … Ma era só o que me faltava …
Jânio quase morreu sufocado tentando dobrar a “capa” e, depois de hesitar um pouco, aceitou a ajuda de Rose, a faxineira, para guardá-la. Após a entrada triunfal, mancando (mas de peito estufado) se aproximou do balcão e sentou no seu lugar de costume.
Antes de qualquer comentário, fez o pedido pro chapeiro :
– Vê uma porção de tremoço CAM-PE-ÃO, Seu Cléber.
Sem hesitar Savério, que sempre coçava o dedão da mão esquerda usando a unha do outro dedão quando estava nervoso, retrucou :
– Quer dizer que você não morreu, então ? Que pena …
– É. Pois é … Pena mesmo. Mas sabe quem me mandou um abraço, logo depois que eu saí do hospital?
– Hmm.
– O Tcheco, do Grêmio!
A unha da mão de Savério quase voou pela padaria.
Adhemar, que só observava os primeiros movimentos da peleja, não resistiu e perguntou :
– Quer dizer que o sumiço foi por causa da perna?
Jânio acenou positivamente.
– Bom … pelo menos, você quebrou a perna boba. Imagina se você fosse canhoto…
– Má che, perna boba – retrucou Savério – esse aí me é bobo por inteiro! Salame …
Adhemar continuou a pergunta para Jânio :
– Quebrou onde? No campeonato de karatê? Ou na apresentação de patins?
– He-he … Quebrei quando tentei levantar do sofá pra comemorar o gol do Timão, no dia que nós subimos de volta pra primeira.
– Até os curinthiano sofre quando essa maldição ganha. – resmungou Savério, o palmeirense.
– Bom mesmo é o goleiro do teu time, né? – não se conteve Jânio.
– Oberdan ?
– Pelamordedeus! Ouviu essa, Cléber? – quase gritou Adhemar, clamando pela ajuda do chapeiro – O mais velho aqui sou eu, mas quem o Alzheimer mais gosta são os dois. Que Oberdan, seu patso? Oberdan já era velho quando acabou a primeira guerra. Ele tá falando do Marcos, que fez aquela loucura, domingo.
– Eco … Falando nisso. Vocês viram que homenagearam, na Inglaterra, os três últimos sobreviventes da Primeira Guerra?
– Vivos? – disse Jânio.
– Não. Me desenterraram os três corpos menos decompostos pra isso. Claro que vivos! Tinha tudo mais de 110 anos, os soldados!
– Homenagearam como ? – de novo, Jânio.
– Com um … como fala mesmo ? Ô Cléber, como chama quando as moça tira a roupa com uma música, que nem tinha no programa do Miéle?
– É strip-tease, seu Adhemar.
– Isso! Homenagearam os três com um stip-trise da Rainha, em praça pública.
O chapeiro não se agüentou e fingiu abaixar para rir disfarçadamente. Savério percebeu o movimento e emendou :
– Alem de sem-graça, é burro. Eu não sei falar inglês, mas num tento pelo menos …
– Imagina a gente com mais de 110 anos?
– Isso, Jânio. Prolonga o sofrimento por mais 20 anos.
– Você sendo homenageado pela tomada do Monte Castello, heim?
Savério, pela primeira vez na tarde, sorriu. Ele tinha um grande orgulho dessa batalha. Adhemar aproveitou a deixa :
– Imagina, você lá em Brasília. Na cadeira de rodas, com a mantinha cobrindo a perna pra não pegar friagem. E o Lula, no 5º mandato, te entregando a medalha…
– Que Lula, o que! Tá louco. – retrucou, Adhemar.
– E a Susana Vieira do teu lado. – disse Jânio, quase falando sozinho.
– Heim?! – perguntaram os outros dois estupefatos.
– É … eu sonho em ser homenageado por ela …
– Tá bom – continuou Adhemar, já acostumado com os delírios do Jânio – Imagina você lá. O Lula te dando uma medalha, a Susana Vieira uma bisnaga de Corega … Que beleza!
– Só me falta o … o … pode falar como chama quando as moça tira a roupa, Cléber?
– Strip-tease, Seu Savério.
– Só me falta isso daí que ele disse com a Marta. Aí eu prefi-
POW! POW! POW! CABUM!!!
Os três, mais brancos que de costume, quase morreram de susto com os estampidos.
Apesar da chuva já ter passado, um dos guardas perdeu o controle com a discussão, que ainda continuava, e deu três tiros no peito do “parceiro” que se estatelou na geladeira de refrigerantes, do lado da porta. Ele estava de colete, portanto, apenas caiu ao sentir o impacto muito forte das balas. Com o revolver na mão, o policial que atirou se virou para o caixa aparentemente vazio e disse :
– Seu Rubens, pode levantar e me desculpa. Talvez a gente não volte aqui por um bom tempo. Preciso ir.
Lentamente, o guarda atingido pelos tiros foi se levantando. Sem dizer nada, apalpou o peito, viu que realmente estava tudo bem com ele, apesar do susto. Pegou o boné do chão, olhou para os três velhos, para a faxineira, apenas acenou com a cabeça um tímido tchau e se retirou.
– É na mão deles que fica a nossa segurança. – disse Jânio, cheio de tremoços no colo, resultado do tapa que ele deu no prato, após o susto.
– Pelo menos ele acertou os tiros. – tentou brincar Adhemar, sem muito efeito.
– Salame … – de novo pensando alto, resmungou Savério.
– Do que a gente tava falando mesmo, Adhemar? – perguntou Jânio.
– Esqueci.
Depois de um momento desses, realmente nenhum deles tinha algo pra acrescentar na tarde. Após três semanas de ausência do Jânio, simplesmente voltaram a curtir suas bebidas, cigarros e tremoços, quietos e, ainda que silentes, felizes por estarem reunidos novamente.

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1 Comentário on "Os Três Ranzinzas, capítulo 02"

  • impressionada diz

    Puta que los pariu!
    Parabéns

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