Os Três Ranzinzas em : Ranzinza Secreto.

Em Janeiro a padaria fica bem menos movimentada. Seu Rubens, o dono, não gosta muito disso, mas já aprendeu a fazer uma reserva com o lucro das ceias de Natal que Dona Maria faz “pra fora” em dezembro, então tudo fica bem. Nesta tarde não tinha ninguém por lá, a não ser o velho Savério, invocado e pigarrento. Ele assistia uma reprise de “Lua de Cristal” (com Xuxa, Sérgio Mallandro, Duda Little e grande elenco) que passava na TV presa na parede. Fumava seu cigarro de sempre e comia uma porção de salame com limão, enquanto Rose, a faxineira, aproveitava pra lavar o chão do outro lado da padaria.
Entretido com as “moça bonita” que apareciam no filme, Savério não percebeu Adhemar e Jânio entrando lá (Adhemar trazia uma caixinha embrulhada com jornal e barbantes e Jânio, uma sacola de plástico branca) e só desgrudou os olhos da TV quando sentiu um tapa nas costas seguido da frase :
– Você tem idade pra ser o dinossauro de estimação delas, seu velho safado!
Com o susto, Savério solou todo seu repertório de tosses entrecortados com xingamentos absolutamente incompreensíveis, que amaldiçoavam Adhemar e todos seus descendentes. Impossível discordar que Savério é o Charlie Parker da tosse. Nunca alguém tossirá como ele.
Passado o entrevero inicial (e habitual), lá estavam os três ranzinzas sentados nos tronos que o mundo reservara pra eles. Adhemar, animado, gritou com o chapeiro Clebão, se virando para os colegas na seqüência :
– Me vê aquele de sempre, Seu Cléber, e agora vamos começar a brincadeira.
– Ma che brincadeira? Quer pular amarelinha? – retrucou Savério.
– Xi … o carcamano esqueceu. – disse, balançando a cabeça negativamente Jânio.
– A única coisa que eu tenho que lembrar na vida, é de passar na Nossa Caixa todo mês, pra tirar o dinheiro da aposentadoria. Esqueci do quê?
– Nosso amigo secreto … – respondeu Jânio.
– Ranzinza secreto, você quer dizer, né? – questinou Adhemar, feliz, depois do seu primeiro micro-gole de Cynar.
– Ma che amigo secreto? Aquele negócio dos papelzinho que tiramos o ano passado?
– Isso, Seu Savério. Lembra até que você me pediu ajuda pra ler o nome do seu papel, porque a letra tava muito pequena? – se intrometeu na conversa, Clébão, enquanto tirava o prato que vieram os salames.
– Ah … lembro sim! Era mesmo pra comprar presente?
– Não, Savério, era pra jogar veneno na comida do velho que você tirasse. – disse Adhemar, desistindo de esconder seu pacote, e batendo com a caixinha no balcão.
– Bom … Cléber, então me pega um pote de tremoço do bom, embrulha e traz aqui pra eu dar pro meu … meu … amigo secreto. É assim que fala, né?
– Tremoço? Você me tirou então? – levantou a cabeça assustado, Jânio, que estava abaixado tentando achar um tremoço que tinha caído no bolso do seu pulôver.
– Ma como você sabe? Não era pra ser surpresa?
– O ano virou e você ficou burro, Savério? Quem mais gosta de tremoço aqui? – atacou Adhemar, antes de beber outro gole.
– E quem disse que eu vou dar um presente que a pessoa gosta? – tentou disfarçar Savério.
– Mas como você me tirou, se eu me tirei? – ainda inconformado, Jânio.
– Seu Rubens, liga pra carrocinha e manda prender os dois, que tão sem coleira e num tomaram vacina. Um esquece e depois estraga toda a surpresa, o outro disse que se tirou no amigo secreto … Como, Jânio? A gente fez 3 sorteios até ninguém se tirar.
– É, eu sei … mas depois da segunda vez que eu me tirei, e depois que soube que o Ronaldinho vinha pro Corinthians, eu não resisti …
– Até nisso aqui esses maledetos envenenam meu fígado. – disse Savério, começando o tradicional ataque de coceira na unha do dedão esquerdo.
– Vai, Jânio … explica … ainda não entendi uma pinóia.
– Então, Adhemar … eu tava louco pra ter uma camisa nove do Timão. Sabia que o Savério num ia me dar isso de presente nem que a Sophia Loren pedisse pra ele …
– Eco! – Savério concordou veementemente.
– … você do jeito que é, me compraria uma camiseta dos porco, só pra ver minha cara de pastel a hora que eu abrisse o pacote.
– Eco … – continuou concordando, Savério.
– Então resolvi mandar vocês dois às favas e me comprei a camiseta. Portanto, meu amigo secreto é uma pessoa que eu gosto muito e torce pro mesmo time que eu. Jânio! Você é meu amigo secreto, parabéns! Abre o presente que acho que você vai gostar!
– Muito bem … – disse Adhemar aplaudindo. – … mas se você se tirou, como que o discípulo do Mussolini aqui, também te tirou?
– Boa pergunta. – falou baixinho, Cléber, enquanto limpava a chapa com uma espátula. Savério, meio sem graça, tentou explicar :
– É … olha … Esqueci que tinha esse negócio secreto, e aí depois que vocês me lembraram, foram tantos papelzinho que tiramos naquele dia, que num ia lembrar nunca quem eu tirei.
– E os tremoços? – perguntou Jânio, todo amarrotado, depois de finalmente vestir a camiseta nova(ao contrário, obviamente).
– Ah … eu arrisquei. Vai que era você!
Adhemar, já resignado, tentou continuar a brincadeira :
– Bom … ô Jânio, ou trocaram o símbolo do teu time por um nove enorme, ou você vestiu esse negócio errado.
– Merda … – disse, Jânio jogando um tremoço no chão, com força.
– Continuando … eu, velho, bêbado e despedaçando, fiz tudo certo. Tinha tirado o Savério, e comprei um cachimbo italiano pra ver se ele largava essa porcaria de cigarro.
– Ãn … obrigado, ãn … – respondeu Savério, numa tentativa bem forçada de ser simpático.
– Mas como deu tudo errado, e como eu sei que você é mais teimoso que uma mula e nunca vai largar essa porcaria, certo?
– Eco!
– Vou dar esse negócio pro Seu Rubens deixar ali no caixa, do lado dos carrinhos de metal e quando ele conseguir vender, eu recupero meu dinheiro.
– Justo … – responderam juntos Savério, e um monte de tecidos diferentes, disformes e agitados que escondiam Jânio.
Enquanto o enigma envolvendo uma camiseta roxa do Corinthians, um pulôver de lã bege e uma camisa azul clara não era solucionado, agora com ajuda da Rose, que costumava salvar Jânio nessas horas, os outros dois velhos, se dedicavam a ver a seqüência final do filme, bobos com aquelas “moça”.
Seu Rubens, encontrou um lugar privilegiado no seu caixa para o ex-cachimbo do Savério e tudo voltou ao normal. O “ranzinza secreto” foi um sucesso.

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