Duas Opções

Ele estava saindo de casa com seu carro. Free-lancer, um pouco atrasado, mas nada tão grave que o obrigasse a otimizar o tempo apenas colocando o cinto de segurança no primeiro farol vermelho. Assobiava uma música qualquer no rádio.
Ela caminhava com seu shorts branco, blusinha frente única cinza, Ray-Ban e belas coxas. Dia de folga, com calma, passeando com o seu cachorro grande e apressado ao puxar a coleira, mas nada tão intenso a ponto de tirar o encanto dela ao caminhar. Murmurava uma música qualquer no seu mp3 player.
No primeiro farol, o sinal avermelhou bem na hora que o carro ia passar, mas ele, atento, numa freada um pouco brusca, parou o carro pra que ela atravessasse. Ela olhou para o carro e num rápido movimento, como mulheres como ela sempre fazem, deixou claro que viu quem ele era, mas só. Ele perdeu momentaneamente o ritmo da música. Coxas. Seu fraco sempre foram coxas.
Seguindo seu caminho ele fez a volta no quarteirão, como de costume, e quando foi virar numa daquelas esquinas que Lúcifer passa seu tempo quando está de cabeça cheia, foi virar à esquerda olhando pra ver se não vinha nenhum carro pela direita. Ela, num pulo rápido, recuou seus dois passos na direção da rua e evitou o atropelamento, contrariando às estatísticas de que fone de ouvido aumenta o risco de acidentes desse tipo.
Ele, atrapalhado ao perceber a barbeiragem, deixou o carro morrer e reconhecendo aquelas coxas, foi surpreendido por um olhar agora não mais indiferente. Não era um olhar raivoso, porque ela parecia doce demais pra isso numa situação dessas, mas bravo. Sim, ela estava bravinha.
Ele, ainda sem graça, não se conteve e disse :
– Olha … O destino só tá me dando duas opções : Ou te atropelo ou te convido pra jantar comigo hoje, amanhã e quem sabe todo resto de nossas vidas.
– Hã?
Ele fez sinal pra que ela tirasse os fones de ouvido e, ainda que na dúvida se a questão dos fones não tinha matado o timming da piada, repetiu :
– Olha … O destino só tá me dando duas opções : Ou te atropelo ou te convido pra jantar comigo hoje, amanhã e quem sabe todo resto de nossas vidas.
Ela não conteve um riso contido.
Ele agradeceu à Lúcifer.
O carro de trás, que não tinha nada a ver com o destino deles, buzinou.
O cachorro pareceu se assustar com a buzina e tentou correr pro lado oposto.
Ela, quase desajeitada, disse:
– Ele é ciumento demais!
– Seu marido está no carro de trás?!
– Não, bobo! Meu cachorro.
– Ufa …
Outra buzinada. Mudando de tática, o cachorro começou a latir na direção dos carros.
Ela, então, começou a mostrar seu desconforto com a situação. Odiava chamar muita atenção, seja pelo que fosse (a não ser as coxas, claro).
Ele, começando a se preocupar também, repetiu a pergunta sorrindo:
–  E então? Atropelamento ou jantar?
–  Hmm … Você mora por aqui?
– No quarteirão de baixo …
– Eu no de cima.
– Bom!
– Fazer o seguinte : se o destino quiser isso mesmo, a gente se cruza de novo por aqui de novo, então … Aí podemos jantar.
– Hmm …
– Que acha?
Um pouco hesitante, por instantes, ele mudou a expressão e sorriu :
– Claro. Por que não?
E, ainda sorrindo, fez o gesto para que ela atravessasse tranquilamente a rua.
Quando ela chegou bem no meio do carro, ele não teve dúvida e acelerou brutalmente, atropelando a moça (o cachorro escapou, porque no susto ela soltou a coleira).
Lúcifer de mau-humor era um inferno naquelas bandas.

Compartilhe!

4 Comentários on "Duas Opções"

  • HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHA!!!!!!

    GÊNIO!

  • Lilian diz

    Mulheres, melhor aceitar os convites desse rapaz!

  • Lucas Justiniano diz

    Hahahahahahahaha!!!!!
    O Nome dela era Iracema?!
    Muito Bom!

  • Júlia diz

    Que susto!!!!! rs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *