Calligando o Gikovato

Na infância, eu (um filho temporão de um casal inseparável) pensava que relacionamento entre duas pessoas era sinônimo de casamento. Simples assim. Algo tão distante quanto o gol do outro lado da quadra oficial de futsal do colégio.

Da infância pra adolescência me tornei um nerd moderado. Me relacionava bem com quase todos os grupos, mas nunca fui popular. Eu não sofria bulling. E até era o goleiro do time principal. Ou seja, com os “manos”, minha vida era tranquila. Já com as “minas” …, o lado nerd aflorava de forma mais ostensiva. Gagueira crônica, taquicardia para um simples “oi”, desespero completo ao ficar sozinho com uma delas, e por aí vai. Não tenho dúvidas de que se tivesse tirado qualquer foto ao lado de uma pequena, seria um dos precursores do “rover hand” (os americanos criaram o termo definindo-o como um detetor instantâneo de virgindade, pois o infeliz tem tanto medo de uma mulher, que não consegue nem tocá-la com as mãos ao tirar uma foto). Nessa época, um relacionamento amoroso nem era algo tão almejado. O contato físico era a grande barreira a ser quebrada.

Aí veio a adolescência plena e, depois de um começo bem tardio, o esperado toque. E com ele o paraíso, meu pai! O simples fato de conseguir cumprimentar com beijinhos e abraços, caminhar de braços dados com uma amiga, e por fim a tal “ficada”, fizeram a vida ganhar cores.

Tempos depois, porém, começou a aparecer um gosto de “quero mais”. E aos poucos, fui percebendo que faltava outro elemento, intimidade. Não só no lado sexual (turbinado pelos hormônios mais irrequietos que a queima de fogos de ano-novo em Copacabana), mas também no lado afetivo. Pegar um cinema, dar uns amassos escondidos num banquinho no canto do shopping, chegar na terceira-base, e por aí vai, eram os novos desafios deliciosos de serem cumpridos. E foram.

Chegou o que eu chamo de “adultescência”. São tantos os tipos de gente e relações se estabelecendo nas nossas vidas, que parecemos atuar em diferentes papéis, independentemente da idade em que estamos. Explico : em alguns casos, nos tornamos pré-adolescentes desesperados para tocar; em outros, adolescentes querendo intimidade; e, por fim, adultos buscando algo maior.

E aí surgiu outra questão que sempre considerei caso encerrado : intimidade não necessariamente está ligada a um relacionamento. Depois dos vinte e tantos anos, a “química” pode fazer você se sentir perfeitamente confortável ao ficar abraçado com uma quase-desconhecida após uma transa, com uma amiga-colorida numa viagem, e assim por diante. Apenas porque a pessoa é bacana e porque a pele “deu liga”. Mas isso não quer dizer que existe um relacionamento aí.

Agora sim. Caso encerrado, certo? Se o toque e a intimidade aparecem numa frequência aceitável (embora sempre menor que o ideal para as pessoas que não nasceram com o rosto do Santoro, a fama do Neymar ou a grana do Eike) tudo vai bem, não? Os bons solteiros se bastam! Acabou-se a necessidade de um relacionamento.

Pode ser … mas junto com essa compreensão, a idade também trouxe outro ponto. Talvez um novo estágio a ser cumprido : cumplicidade.

Já tive um relacionamento de quase cinco anos, mas fui solteiro maior parte da vida. Pegando como base minhas próprias relações, e também ao observar os casais bem-sucedidos de amigos, vou achando que uma das coisas que mais dão sentido a uma relação é a cumplicidade com o outro. Abrir concessões, sujeitar o outro aos seus gostos duvidosos e fazer planos maiores são formas diversas de fazer o outro cúmplice do que te torna único. Ficar em silêncio junto sem precisar de uma palavra por uma tarde toda, se interessar por um assunto que nunca o faria se não conhecesse a companheira, alegrar-se com uma boa notícia do outro como se fosse sua também dão um sentido diferente e inesperado para a vida. Mesmo os exemplos de casais “esquisitos” trazem traços de cumplicidade nas brigas constantes.

Fica a sensação (longe de ser uma certeza) de que, se na época dos nossos avós, o sexo era um dos principais motivos para se casar jovem, e a clareza de definição dos papéis era o principal motivo para se manter uma relação, hoje, a intimidade mais íntima já não parece lá ter muito valor, e os papéis ficaram mais incompreensíveis que um filme francês da década de 70. Talvez, então, seja no desejo legítimo de dividir uma história, que se encontre o “ouro” de uma relação amorosa.

 

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1 Comentário on "Calligando o Gikovato"

  • Ricardo Laganaro diz

    Impossível! Aí tb eu estaria trilhardário se soubesse! :-P

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