Jornal de Domingo

Toda vez que vejo um exemplar do “Estadão”, penso na devoção que meu pai sempre teve pelo jornal de papel. Lembro dele contando que, quando criança, só podia tocá-lo depois que todos os adultos da casa o tivessem lido. Meu bisavô, o patriarca, era o primeiro. Tinha a mania de começar o jornal de trás pra frente, marcando com um lápis as notícias lidas para não se perder.  Na sequência, meu tio-avô podia lê-lo, seguido do meu avô,  e só depois as mulheres e as crianças. Aquela hierarquia bem típica das famílias italianas.

Já nas minhas memórias de criança o nome impresso na etiqueta da capa era o do meu pai, que  mantinha a mesma tradição de ler de trás pra frente. Mas, ao invés de riscá-lo ou marcá-lo de alguma forma, manipulava as folhas com tal  classe e cuidado que, quando acabava, o jornal estava em melhor estado do que ao sair da gráfica. Os tempos já eram mais liberais, então eu podia tocá-lo antes dos adultos, mas não podia desorganizá-lo. E fazer um recorte de uma matéria ou foto para um trabalho de escola, só com permissão da minha mãe.

Ela era datilógrafa autônoma e, dentre seus clientes, tinha um senhor alto e atrapalhado que sempre vinha em casa e pegava a edição do meu pai. Quando ia embora, parecia que tinha vestido o jornal como uma armadura e dado algumas cambalhotas, de tão amassado que ficava. Achava uma sacanagem com meu velho. Poxa vida …

O fato é que demorou quase cinco anos para eu me levar suficientemente a sério como dono de casa, a ponto de assinar um jornal. Ter a assinatura em meu nome me parecia algo como aquela brincadeira do filho pequeno vestindo o terno do pai. Mas, recentemente, a descoberta de um plano muito esperto, talhado pro meu estilo de vida, ajudou na decisão e acabei fechando a compra.

Durante a semana, recebo as notícias no iPad. E até aí, tudo certo. Sempre li notícias em uma tela. Mas é nos fins de semana que vem o impresso, e aí a história fica um pouco diferente.

Nas primeiras edições recebidas, praticamente fingi que não era comigo. Meio sem jeito, pegava apenas um caderno ou outro, ainda de forma tímida. Sapato folgado, ombros sobrando e mangas muito maiores que meus braços…

Depois de quase um mês vendo a pilha de papéis cinza se acumulando no sofá (ainda não providenciei um móvel para acomodar as edições), resolvi abrir a porta de casa, logo após acordar, e trazer o jornal para o sofá onde sempre fico. Fiz meu café, e finalmente  comecei a lê-lo de verdade. Com calma, de trás pra frente. Caderno por caderno. Com o mesmo carinho do meu velho. E, aos poucos, fui me sentindo dono e merecedor desta leitura em papel e tinta.

Apesar do cuidado ser o mesmo daquele que aprendi a ter por observação, quando acabei de ler, a falta de prática se fez presente e precisei “remontar” a edição. Terminei a missão encarando a capa, e resolvi, meio sem-graça, procurar meu nome como assinante titular.

Não sei bem o motivo, mas descobri que os jornais não vêm mais com a tal etiqueta que traz o nome do assinante. Achei justo. Como diz a música do IRA! “se meu filho não nasceu, eu ainda sou o filho”. Talvez no dia em que eu terminar de ler o jornal sem precisar remontá-lo, meu nome apareça na capa. Por enquanto, prefiro deixar as coisas como estão.

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *