Da série “Macho Moderno no Divã” : Caixinha

Eu não sei dar caixinha. Desde pequeno, vejo meu pai dando caixinhas pro manobrista, frentista, empacotador do supermercado, e isso sempre me pareceu algo muito natural e bacana. Dar a caixinha é algo que os adultos fazem.

Só lá pelos meus trinta e poucos anos, fui me dando conta de algo muito sério: eu virei adulto. Mas isso não contribuiu de forma alguma para a minha relação com a tal caixinha.

Fiquei pensando então, em qual o motivo desse desconforto, mesmo depois de ter bem menos cabelos que meu pai.

A primeira grande causa pode ser relacionada à época: o vallet e o cartão de crédito mataram a caixinha. Não é verdade? A partir do momento em que um estacionamento custa vinte inacreditáveis reais, desculpe, amigo, mas não vai ter caixinha. Ou então quando o frentista traz a maquininha na janela do carro, me soa bem estranho pagar o combustível com o cartão e, na sequência, puxar um trocado. Parece que está rolando uma propina, ou algo errado do tipo. Já no caso do empacotador de supermercado, eles quase não existem mais, e os poucos que restaram não trabalham depois da meia-noite (o único horário em que faço compras). Estamos falando, então, de questões pragmáticas.

Se for pra tentar um olhar um pouco mais teórico, impossível não lembrar do diálogo em “Cães de Aluguel”, quando um dos personagens se recusa a dar caixinha, por  “não acreditar em gorjeta”. Ele diz não se render à imposição da sociedade, ao escolher que tipo de pessoa merece ganhar caixinha (garçonetes comuns sim, mas atendentes do Mc Donald’s, não, por exemplo). Pseudo-teoria divertida para uma abertura de um baita filme, mas que flerta com uma forma aparentemente interessante de se pensar. Ao dar caixinha, você parece estar corrigindo uma falha no sistema. Tal pessoa ganha pouco, então, todo mundo dá uma ajudinha pra situação melhorar, e aí, sistemicamente, a pessoa nunca vai ganhar o que seria o justo para fazer o que faz. Um tanto ilusório (e/ou presunçoso), mas o argumento tem seu charme.

Uma última hipótese lembra a brincadeira de preencher um cheque aos oito anos. Ninguém vai levar aquilo a sério! O cara é um adulto que está trabalhando e recebe pra fazer aquilo. Quem sou eu, grande senhor de engenho moderno, pra decidir do alto da minha condição de cliente: “Mereces um almoço mais caprichado, rapazola! Tome aqui, dez vinténs!”. Pensamento que pode  parecer bonito, conceitualmente, mas que também beira o ridículo, já que pra quem recebe, não há mal nenhum.

No final das contas, o fato é que, entre várias teorias e possibilidades, o problema está lá no começo da conversa: pra esta e muitas outras questões, talvez eu ainda não tenha aprendido a ser adulto. E aí, numa época em que a maioria dos papéis já não parece fazer tanto sentido, e muitas das práticas tidas como certas, causam dúvidas, isto vira uma discussão muito maior.

Continuo, portanto, sem saber dar caixinha, mas pelo menos agora já fico sabendo que a culpa não é dela.

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2 Comentários on "Da série “Macho Moderno no Divã” : Caixinha"

  • Japis diz

    cof!cof!cof! Bom dar uma agitada por aqui, cof!

  • Kris diz

    Então. Alguém vira adulto ainda? Ou brinca de adulto? De um adulto que um dia existiu.

    Assim como Mr. Pink so dou caixinha quando o serviço tem “um plus a mais”. Do contrario me parece suborno.

    Boa, mamute!

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