A Casa do Bié

Existe uma cidade de São Paulo que nunca vi, mas acabei conhecendo muito bem por conta das histórias que ouvi minha vida toda. Tudo porque meus bisavós chegaram por aqui no comecinho do século passado, construíram umas chácaras quando um tal de Jardins era só mato e por conta disso meus avós se conheceram, se casaram, meu pai nasceu e por aí vai.

Dentre as muitas histórias quase inacreditáveis sobre o bairro, tem a da “casa do Bié”. Bié era um moleque da turma de infância do meu pai, que morava num sobrado na esquina da Melo Alves com a Lorena, onde chegou a primeira TV do bairro. Conta o meu velho, que toda turma se reunia lá pra ver os primeiros jogos transmitidos ao vivo de Santos (o que, em meados da década 50, somente parecia ser possível através de alguma tecnologia alienígena). Como a transmissão era péssima e o pai do Bié era um palmeirense meio bronco, a molecada se confundia propositadamente ao comentar as cores das camisas (que eram apenas tons de cinza), pra que o velho passasse o jogo todo torcendo contra o próprio time, sem perceber.

Sempre ouvi esse tipo de história, absolutamente fascinado. Como foi que um bairro tão próximo teve  uma realidade tão diferente em tão pouco tempo ? Pra quem se interessar, o livro “Anarquistas, Graças a Deus” de Zélia Gattai é recheado de histórias desse tipo sobre a região.

Bom … Muitos anos depois de ter ouvido a história sobre a primeira TV do bairro na casa do Bié, foi a vez de ouvir do meu irmão – “Ri! O Johnny Rockets abriu uma lanchonete aqui, perto da casa da vovó!”. Se meu pai e avô foram meus maiores ídolos, protagonistas de histórias de um tempo que não vi, meu irmão, 10 anos mais velho que eu, foi meu super-herói particular até a minha vida adulta. Ele me levou pra dentro de um mundo fantástico e ainda desconhecido, que incluía jogos de campeonato de futebol, fugidas de casa pra tomar sorvete escondido e outras coisas do tipo. Então, mesmo sem ter a menor ideia de que lanchonete era o Johnny Rockets, se ele disse que era bom, eu fiquei extremamente empolgado com a possibilidade de comer lá.

Eu devia ter meus 15 anos nessa época, e aí convoquei, em plenas férias, meus dois melhores amigos pra ir de ônibus conhecer a tal lanchonete nova. Eu morava no Campo Belo e, sempre que podia, pegava o busão pra ir, como dizíamos, bater um fliper no Shopping Ibirapuera ou no Shopping Morumbi e, obviamente, acabava tendo que voltar a pé porque gastava até o último centavo no “Daytona USA” e outros jogos. Mas esta seria a primeira vez que atravessaria vários bairros por conta própria. Primeira aventura gastronômica!

Vale lembrar que na época não existia internet e smarthphones com GoogleMaps (algo assim só seria possível com uma tecnologia alienígena), então é óbvio que pegamos um ônibus errado e descemos bem longe, lá na ladeira da Brigadeiro Luís Antônio. E, com a arrogância típica de um adolescente se achando independente, eu falava – “conheço tudo por aqui, é o bairro dos meus avós, estamos a poucas quadras”. De poucas em poucas quadras, subimos e descemos por quase três quilômetros até finalmente chegar no “Rockets” (sem “Johnny”), pela primeira vez em nossas vidas.

Pra quem praticamente só tinha comido hamburger no McDonald’s e teve contato com os anos 50 através do “De Volta Para o Futuro”, foi absolutamente mágico entrar naquele pequeno templo de época, com o chão quadriculado preto e branco, sofazinhos de couro vermelho, jukebox em quase todas as mesas e fotos do Elvis, Marilyn e outros ícones, por todas as paredes.

Estarrecidos por estar naquele lugar e absolutamente famintos pela caminhada aventuresca, tivemos a desculpa perfeita pra detonar o “The Finest”, fritas e ainda arrematar a refeição com um mik-shake (daqueles que dão dois copos e meio pra cada um). Saímos de lá quase rolando, mas felizes como somente adolescentes podem ser depois de comer tanto. E foi assim que começou minha história com o Rockets. Passei a frequentá-lo em todas fases subsequentes da minha vida.

Nas grandes comemorações do primeiro namoro, na noite do lançamento do primeiro livro, que teve uma crônica minha publicada. Pouco mais tarde, vieram as madrugadas de trabalho, e os pós-jogos do Palmeiras. Foi essa prática, aliás, que me rendeu o apelido de “Palmeirense” com todos funcionários do local. Ia sempre com o Fábio, meu sócio palestrino, com quem criei o site “Gourmets do X-Salada”, um blog que nos fez famosos na era jurássica da web, num tempo em que os mais velhos perguntavam – “então é você que escreve na internet?”

Os anos foram passando, até que eu acabei indo morar no apartamento que foi dos meus avós (a poucas quadras do local) e aí, então, nas eventuais noites solitárias de sexta e sábado, acabava indo lá, não só pra comer meu “Finest com cheddar sem cebola”, mas pra papear com os garçons e outros funcionários. Na Copa de 2010, levava meu bolo de figurinhas repetidas e ficava trocando com eles no balcão, quando os clientes davam brechas.

Uma madrugada qualquer, num dia de semana qualquer, após uma balada qualquer que acabou no Pernil do Estadão, ao cruzar o Viaduto Nove de Julho, trombei com dois garçons do Rockets à paisana; e um deles, que normalmente era dos mais quietos, com os olhos esbugalhados e a sinceridade típica de quem tomou umas a mais, me disse: “Olha, você tem que ir um dia lá pra comer por nossa conta! Você vai lá há tanto tempo e leva tanta gente. Você merece, sabe?!”. Eu agradeci, sorrindo. Quando o superego é diluído pelo álcool, o sujeito acaba revelando seus pensamentos da forma mais sincera e legítima que pode, sem pensar nas eventuais consequências. Acho bonito isso.

E o mais engraçado é que apesar de ser relativamente próximo de todos, nunca soube o nome de nenhum dos funcionários de lá. Homem que é Homem não pergunta o nome do outro, depois que já criou algum tipo de relação. Eu era o “Palmeirense”, o Fábio era o “Japonês”; trabalhavam lá o “Tom Hanks”, o “Negão”, o “Chapeiro”, o “Maratonista” e vários outros.

O Tom Hanks era o mais emblemático dos garçons. Certa vez, levei uma turma lá. Uma amiga desavisada começou a perguntar – “Esse lanche aqui …” – e sem deixar ela terminar de falar, ele disse – “Não! Este é ruim! Pede este aqui que é bem melhor!”.

Até na noite do velório da minha avó, ao sair do cemitério, alguns dos meus grandes amigos me levaram lá pra dar uma animada. Nada como estar com quem te conhece de verdade.

Enfim … se eu quisesse mostrar para uma pessoa querida um pouco mais sobre mim, levaria ao menos uma vez ao Rockets. Não por acaso, levei minhas três sobrinhas pra conhecer o local, no mesmo fim de semana que dormiram em casa pra ver a trilogia “De Volta Para o Futuro” e “Curtindo a Vida Adoidado”.

E aí, então, quando estou me preparando pra jantar em plenas férias em Paris, recebo uma mensagem do Fábio “Japonês”, meu sócio lanchista – “Ow! Tá na França? O Rockets vai fechar hoje!”. E tudo que escrevi aqui e muitas outras lembranças foram catapultadas na minha frente. Uau!

Não vou ser exagerado a ponto de falar que é como se um parente querido tivesse morrido, mas que bateu um luto, isso bateu.

E o leitor mais atento pode estar se perguntando –  “O texto está acabando e que catso o Rockets tem a ver com a Casa do Bié?”

Bom, querido leitor atento, a casa do Bié era a casa onde foi construído o Rockets.

E se, pra mim, a casa do Bié foi apenas um lugar imaginário criado pelas lembranças de uma história que eu ouvi. Se um dia eu quiser falar pros meus filhos um pouco mais a respeito do meu passado, serei eu a dizer: “Sabe a história sobre a casa do Bié, que o vovô conta? Então, anos depois, naquela mesma casa, foi construída uma lanchonete onde o papai ia sempre. Chamava Rockets! Sem o Johnny, apenas Rockets. E foi a melhor lanchonete que já existiu em São Paulo …”. E cada uma das histórias que vivi por lá, só existirão pra eles através das minhas lembranças e palavras.

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1 Comentário on "A Casa do Bié"

  • Anônimo diz

    Ahhh…pára ô!!!!

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