Cara Nova

Mais uma vez o www.CronistasReunidos.Com.Br mudou de cara.

E se mudança é aquela coisa que faz a gente dar uma olhadinha no que estava meio escondido lá no fundo do armário antes de botar na caixa de papelão, as crônicas escritas por aqui desde 1999 têm muita coisa pra mostrar sobre a trajetória de cada um de nós, já nem tão Cronistas assim, mas ainda bastante Reunidos. Amém!

Lá nos meus vinte e poucos anos, eu escrevia sem pensar. Como todo pós-adolescente que se preze, eu era um idiota bem intencionado autocentrado cheio de certezas. Eu sabia muito bem quem eu era, e qual era meu papel no mundo. Eu. Eu!

E assim é fácil de entender a quantidade gigantesca de textos da época. A maioria deles em primeira pessoa, claro, fazendo questão de dar minhas opiniões sobre tudo. Muita bobagem, mas também várias passagens divertidas, como normalmente acontece com quem é razoavelmente inconsequente.

Com o passar dos anos, a quantidade de opinião se reduziu um pouco, aumentaram os textos de ficção “verissimianos” e as experimentações de linguagem. Se as certezas em relação ao mundo e a mim mesmo iam enfraquecendo, o impulso de botar as ideias na tela, não. (Desculpem o comentário fora de contexto, porém eu ainda não me conformo que “ideias” não é mais “idéias”…)

Mas o que era um ímpeto Pink&Cerebroniano de conquistar o mundo foi levando algumas pauladas e passou a se apresentar pra mim mesmo como arrogância intelectual. O número de textos diminuiu e as opiniões também. Não fazia muito sentido dizer ao mundo como o mundo era, se o mundo estava dizendo que eu não era lá o cara que mais sabia do mundo.

Foi o momento perfeito pra engatar de vez um processo introspectivo pra “ser uma pessoa melhor”. Falar menos e ouvir mais. Reprimir menos e liberar mais. Condenar menos e aceitar mais. Saber menos e estudar mais.

Obviamente, os textos rarearam bastante. Nas poucas tentativas, a ficção foi tentando buscar o mínimo de autenticidade e os temas foram ganhando uma certa nostalgia e melancolia, seja no tema, seja na forma. A irreverência gratuita foi dando espaço às observações, mais analisadas e serenas, muito cuidadosas pra não se confundirem com algum tipo de manifesto, algo tão comum nos últimos anos (onde todo mundo tem tanta certeza de tudo), mas ainda movidas pelo ímpeto de brincar com as palavras, lá do fim do milênio passado.

Agora, no auge dos meus trinta e médios, escrevo pensando tanto, que muitas vezes não acabo o texto. Um idiota calejado autocrítico cheio de incertezas. Sem quase mais saber de mim e do mundo, fica fácil entender a quantidade ínfima de textos publicados.

Olhando pro arquivo de crônicas lá no fundo do armário, vejo que ao tentar “ser uma pessoa melhor”, deixei pra trás boa parte de mim. E isso não é necessariamente algo ruim. Mas, quando só se deixa coisas pra trás, vai ficando difícil se reconhecer.

Talvez agora, de cara nova, seja um bom momento pra voltar a produzir textos, mesmo sabendo que as opiniões já não são mais tão importantes pro mundo e que enorme parte da ficção que eu achava genial, não tinha nada demais.

Apenas conforta entender que se expor não necessariamente é se exibir, mas também uma forma de se (re)construir e se (re)conhecer.

 

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