A mulher do Walter

Outro dia abri um caderno antigo, bem, não tão antigo assim, e achei uma foto da Turma. Sim, a Turma, com todo mundo lá, posando felizes numa festa de um sábado plausível. O Peres, o Mamão, o Carlos, eu, o Fininho (com a namorada da época) e o Walter. Meu Deus, o Walter. Naquele dia o Walter ficou muito bêbado, aí ele sumiu. Não trombei mais com ele.

Peguei o telefone e liguei na hora.
— Walter, seu safado !!!
— E aí Farlo !
— Farlo é a mãe, cê tá bom?
— Tou bom, tou bem…
— Cara, fazem séculos que não te vejo! O que é que tá acontecendo, hein?
— Ah, você sabe, né? A Martha…
— A Martha? Xi… você está nessa vida ainda, cara?
— Pois é…
— Lembra aquele dia? Aquela última vez que a gente foi pra balada, e o Fininho quase apanhou da namorada, como era mesmo o nome dela…
— Priscila…
— Isso, o Fino quase apanhou da Pri, porque ficava dizendo “à saúde das loiras do Brasilsilsillllll !!!” pra cada chope que a gente pedia… e aquela mesa do lado tinha três loiraças que só ficavam pagando pau pra gente.
— Bom, pagando pau pro Mamão, você quer dizer.
— É verdade, parecia que o Mamão era doce, vai pro inferno !
— Eu nem me lembro direito daquele dia…
— Não lembra? Aposto que não. Você estava assim: uma batatinha, um chope. Outra batatinha, outro chope. E enquanto o garçom não trazia a próxima tulipa, você lambia a mostarda, pra não gastar batata.
— Pois é… depois daquele dia…
— Nunca mais a gente saiu assim, né? Ou melhor, você nunca mais saiu com a gente.
— Pois é… depois daquele dia… a Martha nunca mais me deixou sair pra essas baladas.
— Sério?
— Sério.
— Nem ir tomar uns chopinhos com o pessoal do trabalho?
— Nem.
— Vai me dizer que você nem falou mais com o Peres, então?
— Exatamente.
— Cara, isso eu não concordo. Quem ela pensa que ela é? Ficar ordenando assim…
— Pois é…
— Você lembra do dia? Ela queria vir com a gente!
— Queria?
— Só porque a namorada do Fininho ia…
— É verdade…
— Não tem nada a ver, o lugar não era pra Martha. Eu acho que você devia dizer isso pra ela.
— Isso o quê?
— Que não tem nada a ver, que ela não pode agir assim com você, Walter! Você é um cara legal, que tem amigos, que gosta de se divertir! Você precisa ter seu espaço, sua individualidade!
— Sei lá…
— Sei lá? Cara, você está maluco? Você precisa respirar, entendeu? Você precisa ser você! In-di-vi-du-a-li-dade, tá entendendo?
— É difícil, é difícil… com a Martha é difícil…
— Cara, me explica… eu nunca concordei com isso.
— Você sabe como é… não posso falar isso assim, pra ela… ela vai se sentir culpada, nunca vai me perdoar.
— Walter, e daí?
— É que você não entende… eu sou a única pessoa na vida dela, sabe?
— Alguma hora você vai ter que largar essa mulher !
— Eu sei, eu sei. Alguma hora eu faço isso, eu acho, mas eu não posso, entende?
— Por que?
— Porque a gente é muito unido, muito junto…
— Corta essa, porra!
— Farlo, Olha…
— Farlo é a mãe!
— Veja bem, não é assim…
— Vê se dá um pé na bunda dessa mulher, porra!
— Não posso, você não entende, Farlo…
— Já falei que Farlo é a mãe!
— Não fala assim da minha mãe!
— Falo sim !!! Você não larga a Martha, parece uma criancinha!
— Não fala assim da Martha.
— Ela fica te podando, eu não posso concordar com isso!
— Não fala assim da Martha, Farlo!
— Você tem que arranjar uma mulher de verdade e largar essa velha!
— Não fala assim da Martha!
— Walter, vai se fuder!
— Vai você, Farlo!
— Farlo é a m…

“É a mãe, é a Martha”, eu ia dizer. Até hoje o cara não saiu da barra da saia dessa mulher. Quando é que ele vai largar a mãe e começar a viver, pombas? Filho único é foda.

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