Doberrô

Uma das facetas mais ridículas do Homem é a sua incapacidade de perceber coisas comuns demais. Quando tomamos contato demais com essas coisas, nosso cérebro para de pensar. Mesmo não sendo psicólogo, chuto que o melhor nome para isso deveria ser “anestesia cerebral”, ou algo do gênero. Como não ficamos horrorizados com o esforço tremendo que o clipe faz para se enrolar em torno de si, só para prender uns papéis?

Exemplos não faltam: o Sol se põe sempre do mesmo lado; a maçaneta destrava a porta ao ser pressionada; tem aves que voam e que não voam, e sempre me disseram que vaca não voa. Deve ter alguma explicação científica para tudo isso, mas não é esse o ponto. Todos nós sabemos que a energia elétrica, pelo menos em tese, é gerada em hidrelétricas, termoelétricas ou trecolétricas da vida, a partir de água, carvão ou sei lá o quê, depois transmitida e retransmitida através de fios e cabos até nossas casas. Mesmo sabendo de tudo isso, é absolutamente surreal colocar um secador na tomada e ele funcionar ! Só mesmo uma anestesia cerebral pode nos deixar completamente blasée a coisas assim.

Ainda que a tecnologia polua nossas vidas com as mais inacreditáveis tranqueiras eletrônicas, acredito que é a língua, essa malvada, é que nos prega as maiores peças. Aliás, “pregar uma peça” é uma delas. Raios, de onde veio “pregar uma peça”? Nós falamos, ouvimos, escrevemos, e não fazemos a menor idéia de porquê isso é assim. Usamos um “macacão” vermelho, olhamos pela porta através do “olho mágico”, só para ver “fulano”, “beltrano” ou “sincrano”. Apenas uma mísera parte dessas expressões têm uma etimologia conhecida, as outras ficam com dor-de-cotovelo (dor onde?).

Para não dar com os burros nágua (olha aí, de novo), é sempre bom prestar atenção às crianças. Elas sempre são ótimas em observar o que não vemos. Como aquele garotinho, que ficou muito bravou quando ouviu o pai dizer à mãe que “um dia desses” concertaria a porta:
— Mas nesse dia você prometeu me levar ao parque, papai !

Será que não existem milhares de outras coisas que estão aqui, em nossa cara, e nós agimos como peixes que não percebem a água? Eu só fui descobrir com 15 anos o significado de “doberrô que o gato deu”. Até hoje, essa demora é um mistério para mim. Tantos anos anestesiado não pode ser mesmo um bom sinal.

Ou isso ou eu só escrevi este texto para justificar a porção mais ridícula de minha humanidade.

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1 Comentário on "Doberrô"

  • diz

    Eu levei mais tempo ainda para entender o “dimirô C C”.

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