O prazer de mordiscar um copo

Sete e cinco da noite. Chego em casa e não há luz. Ou melhor, há luz, mas somente de forma estranha. Nenhuma lâmpada acende, nenhuma outra tomada funciona, a não ser as duas tomadas da parede principal. Isto garante a tv e a geladeira ligadas. Na mesma tomada. Ao contrário do que se possa imaginar, a tomada que sobra não serve pra nada, porque fica exatamente do lado da pia. Não tenho barbeador, nem nada para ligar lá, ainda mais no escuro.

Desço as escadas para falar com o porteiro, ligar para a manutenção. Tente depois das dez, a gente troca de turno, vou anotar seu problema, não garanto que podemos atender porque a equipe está ocupada cuidando de preparos para uma filmagem, se não resolverem esta noite ligue amanhã cedo, sim, mas não se esqueça de ligar antes para o Serviço Social, é de responsabilidade primária deles, nós só atendemos o Crusp em emergências e à noite, sim, faremos o possível, mas se não concertarmos hoje ligue amanhã cedo, não se pode ficar com a situação assim, boa noite.

Geladeira? Não há muita saída: a comida apenas preenche o estômago, enganosa sensação de saciedade que sucumbe o cérebro.
Televisão? Como, meu deus, num mundo de Natiruts, Quércias e Linhas Cruzadas da vida?

Descubro algo interessante. Ao se ligar o chuveiro, as luzes quase que se acendem, ficam claudicantes, semi acesas-apagadas, um lume fraco e inconstante. Ainda assim, não basta. Em tempos de apagões, economias e ameaças, convém ajudar o governo, coitados. E a fraca ousadia das lâmpadas não me intusiasma.

O micro não poderia ser ligado, não dá para adiantar trabalhos. Só uma resignação absurda e algum tédio me carregam até a sala dos micros do Crusp, ligados na internet. Vou escrever qualquer coisa no blog, pensei. São através destes interesses bobocas que vou levando a vida. Se me interesso por alguma coisa, busco, sigo, perco o tempo de pensamentos úteis. Depois desisto, não determinadamente, mas aos poucos, deixando de ver, de ser, de sentir. Deixo essa bobagem de lado, mesmo que seja importante. Neste caso, ainda estou no auge do interesse. Vou à sala de internet.

Mas a sala não está preparada para mim. Há uma pequena fila de pessoas desejosas, como eu, de futilidades úteis. Vago pela sala, observando a maneira paciente de uma menina que espera com sua pasta sobre o colo. Sigo até o último corredor, há esperança de que algum computador pseudo-avariado possa funcionar. Não, não liga. Observo as pessoas que usam os computadores. Parecem absortas, olham e teclam tlec tlec tlec teclam e olham. Será que eu mesmo fico assim? Sem dúvida, eu também devo ficar assim. Cada vez mais, o homem dá as caras de como é ridículo. Houvesse flor, não olharia. Pausa.

Vou até a um dos cantos da sala. Lá existe um bebedouro. Não daqueles mais comuns, de metal, sobre as quais inclinamos e recebemos o líquido. Um eletro-eletrônico, com seus botões e sensores. “High quality summer line”. Pego um copo plástico. “Sistema natural de tratamento de água”. Gelado, natural. Pressiono um botão “fluxo contínuo”, às vezes não percebemos as metáforas que nos aparecem. A água desce, firme e constante. Ninguém me observa enquanto bebo.

Só me resta sentar e esperar. E o copo, o copo plástico em minhas mãos. Preguiçosamente não deixo o copo no lixo, não o deixo no chão, deixo-o apenas ficar comigo. E observo o ambiente. Observo um rapaz impaciente que fica a jogar num site qualquer de perguntas cretinas. E fico impaciente. Observo duas garotas que, há mais de dois minutos, não dirigem sua atenção nem para a tela luminescente nem para a música tlec tlec do teclado. Gastam o seu tempo, fico impaciente. A garota da pasta, que esperava também, vai até o lado de um provável amigo, lhe tecendo perguntas e importunando o trabalho. Fico mais impaciente. E o copo, o copo em minhas mãos, a me incomodar cada vez mais. Não existem alternativas, o copo, a mão, a boca. Começo a morder impacientemente o copo plástico. Pelas bordas, onde a resistência à mordida é justamente maior. O ataque é cruel. Ouço os estalidos de dor deste ser branco, passivo e frágil. O som se intercala às batidas inconstantes do teclado, tlec tlec cloc tlec cloc. Cloc. Pelas bordas é mais gostoso. Cloc. O cara de boina preta não vai sair nunca. Cloc. A menina de branco está trabalhando mesmo. Cloc. Já mordi quase tudo. Cloc. Cloc. CLOC.

Alguém me olha. O copo capturou a atenção de alguém. O copo pára de gritar por um instante. A pessoa volta ao seu tlec tlec, e meu copo não pode mais me satisfazer, já está de todo rendido, desfigurado, maltratado. Mas ainda não está morto. Continuo cruelmente, cortando com as mãos, pouco a pouco, a circularidade do plástico. Arrebendo cada raio, cada trecho de massa branca cuidadosamente fabricado. Um rasgo fundo. Um quase-copo. Ele não grita mais, quando a dor chega ao seu limite não há mais o que discutir. O copo também se entregou, sem se debater, apenas espalhando pelos meus dedos os raios de sua destruição.

Uma pessoa vai embora. Falta ao copo o golpe final, o que vai transformá-lo efetivamente em um não-copo. Mas não o farei, não acabarei com sua existência. Agora é a minha vez de ser copo, vou escrever uma crônica.

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