Hora Limite

Ela chega. Eu sei que chega. É inevitável. Sempre chega. Passo todas as noites pensando quando chegará, como será, o que farei. Eu sei quando chegará. Eu sei como será. E sei o que eu não farei. Meus músculos não respondem. Meus olhos observam o vácuo. Nada acontece. Adormeço.

Acordo. Ela ainda está lá. Mas está vindo. Eu sinto. Pressinto. Subsinto. Como uma sombra sussurrando em meu cérebro. Me amedronta, me inibe. O espelho não reflete meu rosto. Reflete a sombra. Que se aproxima. Mas como posso ficar tão apático? A resposta não faz parte do meu mundo. A sombra vem em minha direção, crescendo cada vez mais, como se houvesse um halo luminoso atrás de si. Cada vez maior, mais cadavérica, mais amedrontadora. E nada acontece. De novo. Mais um dia se vai, mais um dia ela se arrasta em minha direção. Sinto-me pressionado. Sinto-me incomodado. E estático. Adormeço.

Ela não povoa meus sonhos, porque não sonho mais. Ela só povoa este sonho real. Acordo. E não me levanto. Uma presa paralisada com a ameça. Um coelho em perseguição que não corre. Meu braço busca a liberdade do quarto, tenciona me levantar. Não permito. Um corajoso ato de covardia. Que venha, dane-se tudo. Desdenho-a. Venha, não farei nada. Me ameaçe. Sopre uma noite gélida em minha nuca. Tente me prender na mobilidade eterna das coisas. Não me moverei. Não me entregarei à sua vontade. Será a minha vontade, e não a sua, que prevalecerá. E a minha vontade não existe. Por isso é mais forte. E ela continua a se aproximar, impassível. Ela conhece minhas falsas determinações. Ainda que não conheça nada de mim, me domina. Ela não se importa. E vem. Sua perturbadora imagem me persegue o dia todo.

Não adormeço. O seu hálito gelado entra em meu corpo. Paralisa-me mais e mais. E já não tenho dúvidas. Ela está aí, à minha frente. Basta tomar coragem para vislumbrá-la. Não abro os olhos. Nunca abrirei. Não deixarei que se apodere de minha vida. Que comande minha resignação. Ou que tente movimentar meus passos. Mesmo assim, ela veio. Chega cada vez mais perto, mais perto. Perto. Ela está em mim. Através de seus olhos transparentes antevejo meu futuro gélido. Como eu, agora. Recomeço a respirar. Meus dedos se movem, esboçando sobrevida. Agora que a hora limite já se foi, posso finalmente retomar a vida. Enquanto ela não voltar.

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