Saudosa Maloca

Dá licença deu contar. Hoje ouvi no rádio a música “Saudosa Maloca”, do Adoniram Barbosa, interpretada por um grupo que, se me funciona a memória, chamava-se Grupo Catavento ou algo assim. Era um arranjo diferente, no estilo do MPB4, várias vozes masculinas se sobrepondo, uma coisa muito requintada para uma letra tão “pé no chão” e popular, como sempre foram as composições do Adoniram.

Essa música tem um significado um pouco traumático para mim. Quando eu era pequeno, ela estava presente em várias ocasiões. Sempre gostei de Demônios da Garoa, porque meu pai me inseriu nessas canções. Trem das Onze, eu sabia batucar desde 5, 6 anos. Mas não, não podia, não concordava em ouvir Saudosa Maloca. Era começar os primeiros acordes para entrar em uma tristeza profunda. Ficava com os olhos cheios d’água, escutando a história de “eu, Matogrosso e o Joca”, lutando pela maloca própria. E eu olhava para os adultos, cantando, se divertindo, como se fosse algo normal e que merecia ser cantado. E eu nem sabia o que era uma maloca!

Absurdo! Pensava eu, como se podia cantar, numa festa ou churrasco qualquer, uma história tão triste? Me pesava muito vê-los felizes com a desgraça alheia. Minha vontade era brigar com “os hômi com as ferramentas” que destruiram tudo. Tinha que ser impedida essa demolição cruel, eram apenas três amigos simples e pobres que tinham construído seu casebre com o suor do próprio rosto, como se pode jogá-los na rua?

Como criança, eu chorava. Chorava muito, pensando nos três que perdiam as suas casas, e que tinham que morar no relento, e não achava justa aquela resignação deles, esperando o frio conforme o cobertor que Deus desse. Eu não conseguia simplesmente ouvir a música. Eu a sentia, eu a sofria, era impossível ficar passivo, como os adultos. E era muito bonito isso.

Sim, era, porque agora consigo ouvir esta música no rádio sem chorar. É uma pena. Conforme vamos amadurecendo, aprendemos a manter distância das coisas, das pessoas, dos sentimentos, ainda mais se forem alheios. Mais velhos, podemos cantar músicas catastróficas e achá-las simplesmente “bonitas”. A vida nos obriga a ser blasée, a ver o mundo através de uma lente pastel. Não existem mais cores, não há nuances, não há espaços para sentimentalismos. Passe por cima, e pronto. Cante esta música, espere pela próxima. A lágrima deve ficar contida, retida, e se ocorrer o escândalo de escorrer pela face, que a esconda.

Não seria normal, hoje, com 21 anos, que eu chorasse ao ouvir “Saudosa Maloca”. Não seria normal se eu ficasse emocionado com uma história de três amigos humildes porque perderam sua casinha. Não, eles não têm dinheiro, têm que trabalhar, não podem ir invadindo propriedade alheia. Aliás, porque estou discutindo isto? É apenas uma canção, é ficção, não perca tempo com isso. Há coisas mais importantes para fazer, não se preocupe. Não pense nos três amigos despejados cruelmente. O que você está fazendo? Pare! Limpe já isso aí. Chorar por nada, que bobagem!

O tempo para sentimentos já acabou. Saudosa inocência, inocência perdida…

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2 Comentários on "Saudosa Maloca"

  • paulo roberto vasconcellos diz

    porra, fiquei comovido. Sério. Tanto que fui ao dicionário procurar o significado da palavra “saudade”, por causa de “saudosa”. Não que não soubesse seu significado. É que me ocorreu que “saudade” é uma palavra que só existe na língua portuguesa e traduz perfeitamente a alma lusitana, e, porque não, a brasileira. Aí vai:

    “Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las.”

    Talvez isso explique essa “alegria” saudosista de “saudosa maloca”. Por mais triste que possa parecer a história, ainda existe um fundo de alegria em relembrar o quão querida era a saudosa maloca. A letra pode ser cruel, mas é bonita, e, de certa forma, suave e alegre.

  • André Martins Favarin diz

    E aí meu irmão?

    Não preciso nem falar que sou seu fã, mas nesta você se superou. Fiquei arrepiado ao ler esta crônica e pensar que realmente isto ocorre, ficamos mais frios, mais tolerantes com a situação que vivemos, que o povo vive, que a sociedade impõe. Por que será? será que é porque somos moldados ao sistema capitalista onde o importante é ganhar dinheiro. Adoramos que os outros se preocupem conosco quando estamos em dificuldade, mas não estamos nem aí quando são os outros que precisam da gente.

    Aproveito para te deixar um grande abraço e falar que o site ficou 10, quem sabe um dia me dê a louca e consiga escrever algo tbém.

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