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Um dia, o homem descobriu-se diferente do resto dos animais. E não era só por causa do apêndice, não. Era por causa da consciência de ser único entre os outros homens. Desse dia em diante, além de ter mais um assunto para jogar em cima da gostosa da caverna ao lado, o homem começou a se classificar.

Primeiro, dividiu o mundo entre civilizado e incivilizado, há milênios atrás. Os que chamavam a si próprios de civilizados consideravam bárbaros todos os outros. Um absurdo, já que todos sabem que, naquela época, o mundo inteiro era incivilizado. Afinal, ninguém usava papel higiênico. Talvez papiro higiênico, mas é melhor não falar sobre isso.

Depois vieram todos os tipos de classificações que se possa imaginar. Vanguardistas e conservadores. Destros e canhotos (os ambidestros correm por fora). Esquerdistas, direitistas e o Maluf. Homem-que-gosta-de-mulher, homem-que-gosta-de-homem, mulher-que-gosta-de-homem, mulher-que-gosta-de-mulher, o-que-vier-está-valendo e hoje-não-querido. Com açúcar e com adoçante. Histérico-depressivas e depressivo-histéricas. Gentlemen e zagueiros argentinos.

São todas classificações imprecisas, incompletas. Desde os primeiros filósofos, as tentativas de categorizar o homem nunca alcançaram a perfeição. Nunca conseguimos usar um método único para saber como é uma pessoa, mesmo que “pilantra” ou “deputado” tenha um significado muito específico em nossas cabeças. Até, claro, a invenção das videolocadoras.

Engana-se quem pensa que uma videolocadora é simplesmente um comércio de entretenimento fácil. É muito mais do que isso. Cada videolocadora carrega, em seus inumeráveis títulos, uma divisão criteriosa da natureza humana. Tendo o Kevin Bacon na capa ou não, todos os aspectos humanos estão lá. Drama, aventura, suspense. Comédia-romântica, comédia-pastelão, comédia-comédia, comédia-terror. Terror. Sexo. Sexo grupal, anal, animal. Ficção científica. Infantis. Policiais. Filmes-cabeça. Filmes-para-cabeçudos. O último filme do Marlon Brando, e o primeiro da Carla Perez.

Não há maior questão existencial do que a escolha do filme para assistir em casa em um fim de semana chuvoso. É isso que, no final das contas, define e classifica o ser humano. Sua escolha na locadora define você, e não há como trocar por um filme menos violento, nem devolvê-lo depois das oito da noite.

Isto tudo está muito claro na cabeça da Daiana Leila, a Dalê, atordoada pelo que ela descobriu de seu noivo na videolocadora:

— Não acredito, Daijo. Você pensa que eu sou uma dessas?
— Dessas o quê, Dalezinha querida…
— Você acha que eu vou assistir a um filme desses? E eu que pensei que você me respeitava!
— Não é bem assim… tem umas cenas fortes, eu sei, mas queria experimentar algo diferente, querida…
— Vá ver filme iraniano com as suas negas, Dáime Jorge!!

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11 Comentários on "Categorias"

  • Paulo diz

    Hehehehe… como te falei antes,Volpa,essa crônica é um golaço!! Mandou muito bem!!

    E o que é a desculpinha no final, hein? Tem vergonha não? hehehehe

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Isso Volponi! Gostei muito da crônica, especialmente do final, hehe

  • Anninha diz

    Volp, desculpas aceitas só pq já passei por lá! Uma boa saída seria, quem sabe, escrever sobre o dito TCC e sua confecção…

    Adorei a crônica, principalmente a classificação do povo, eu seria “com adoçante” e uma não citada “todo-dia-é-dia(-se-fizer-direito)” *rs*. Sem falar da Dalei e do Daijo…

    Bjo gde e boa sorte

  • Ricardo diz

    Agora lembrei pq eu tava con saudade das suas cronicas! hehehe

    Show de bola volpa!!!!

  • Leopoldo diz

    O filme da Carla Perez entra na categoria “terror”, “comédia” ou “drama”?

    E cara, onde vc encontra esses nomes tão legais?

    Parabéns…

  • Renata diz

    Volpa,

    Não se váááááááááááá!!!!!!!!!!

    (E, bom, como dizem lá de onde eu venho, merda procê!)

  • Paulo Roberto Vasconcelos diz

    Eu concordo: filme iraniano é obsceno. A censura devia ser de 18 anos no mínimo. Agora, eu discordo que todas as definições sejam imprecisas, a do “zagueiro argentino”, por exemplo, é perfeita. Outra coisa: vc esqueceu de me pedir desculpas, afinal eu sou o quarto leitor. De resto, nenhuma novidade, suas crônicas continuam excelentes.

  • Paulo Roberto Vasconcelos diz

    Ei, eu fiz um comentário e ele sumiu!

  • Paulo Roberto Vasconcelos diz

    concordo. filme iraniano é uma obscenidade.

  • Muito legal. No final das contas, o homem só categoriza por preguiça. É mais fácil agrupar e dizer “isso aqui é tudo igual” do que tratar cada coisa dentro da sua particularidade.

  • Dani diz

    Categoria do Volponi: Cronista preguiçoso feladaputa que usa o tcc de muleta pra não atualizar essa porra de crônica.

    Vamos ver se assim ele toma vergonha na cara.

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