No Décimo-Sétimo

Não podia acreditar. Porra, como é que não tinha reparado isso antes? Estava muito na cara, e não tinha se dado conta. Lembrava estelionato, tinha cheiro de mutreta. Mas ele tava gripado, não sentiu nada. Gente diferente, novos contatos, morar com outras pessoas. Vista pro Parque da Água Branca. Olhava praquele parque, parecia que tudo ia dar certo. Mas pensou que era muito trouxa. Não poderia descer lá, passear. Cheio de moleques malandros e cocôs de cachorro espalhados pelo chão, roubada. Mesmo assim, gostava de olhar as árvores pela janela do quarto, um óasis no meio da Barra Funda.

Ele só se deu conta na segunda semana. O baixinho insistia em ouvir Tchaikovsky sozinho no quarto, todos os dias. Filhadaputa. Chegava do serviço e ia direto pro computador, ligava o som e ficava a noite inteira assim. Quando estava deprimido não era Tchaikovsky, era Björk. E ele que nem fazia idéia de como soletrar esses dois nomes. Nunca odiou tanto música clássica na vida. Nem eletrônica.

— Merda! Será que esse cara não vai para com essa merda de som? Repeat 20 vezes 20 vezes por semana?

Pior era a outra, a do quarto ao lado. Não por causa da música, antes fosse. Gostava de forró, mas só de dançar. Ouvir, de jeito nenhum. Gostosa pra caramba, mas não dava charme pra nenhum dos dois rapazes do apartamento. Claro, tinha namorado. E ele aparecia, o desgraçado, todo santo dia. Às 6 e meia da manhã. Funcionava assim: 6 e meia, o namorado batia 2 vezes na porta, ela corria de camisola atender, se trancavam no quarto. Aí começava. Todos os dias, entre o namorado chegar e às 7 e meia da manhã, os dois trancados aproveitando. E, todos os dias, ela gritava. De manhã! Primeiro, baixinho. Aí esquentava. Parava. Começava de novo, num crescendo. Explodia. Às vezes alguns gemidos de bonus track no final. Só saíam do quarto quando tinham acordado todo mundo no apartamento. Aí o namorado ia embora e os três moradores habituais tomavam café quase juntos.

Felizmente, do namorado não se ouvia nada, nunca. Mesmo assim, era difícil se controlar. E a sacana saía com aquele ar de satisfeita. E não dava bola pra ninguém. Seis e meia da manhã.

Um dia, chegou mais tarde do trabalho. Trânsito, tudo travado. Se sentia péssimo. Cansado. O baixinho já ouvia Björk:

— …..state of emergency…..how beautiful to be!

Foi pro quarto, se trancou também. Olhou para fora, no Parque da Água Branca tudo escuro. Apenas algumas árvores mais altas eram delineadas pelas luzes dos carros que passavam na Matarazzo. “Cocô de cachorro e moleques, droga.”, pensou. Tentou dormir. Virou-se. Virou-se de novo.

— …..state of emergency…..how beautiful to be!…..how beautiful to be!…..how beautiful to be!…..

O refrão daquela música saía do quarto do baixinho direto em seus ouvidos. Não conseguiria mais dormir, mas não entregava os pontos. Na sua cabeça, tudo se misturava. “how beautiful to be!…… cocô de cachorro……. gostosa……. seis e meia……. …… gente estranha….. gente estranha…… estranho…… um-sete-um…..”. Levantou-se. Olhou para as
paredes ainda vazias do quarto. Não se parecia nem um pouco com o que chamaria de lar. Seu lar. “Estelionato…. estelionato…. how beautiful to be!…”. Ouviu duas pancadinhas na porta da frente. Mesmo de pé, não se
prontificou a atender. Já sabia o que era. O dia começava a clarear, e aquela sacana já nos gritos. Um grito, um gemido. Mais gemidos. Quando ela gritou “não pára” pela terceira vez, foi a gota d’água.

Olhou para a janela iluminada. Lá embaixo, o viveiro dos patos. Pensou em saltar dessa loucura. Mas seria fácil demais sair assim. Saiu mesmo pela porta, berrando “viado” e “biscate” escada abaixo, até o quinto. Dois dias depois, lia, satisfeito, no caderno de classificados:

“VAGA EM APARTAMENTO. Água Branca, pertinho parque. 2 moradores, 26(h) e 28(m) anos, não fumantes. Privacidade fundamental. Cada um na sua. Cardoso de Almeida, 466, ap 171.”

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3 Comentários on "No Décimo-Sétimo"

  • paulo diz

    Eu sei que vc estava procurando apartamento… não vai me dizer que é autobiográfico.

  • Jacaré diz

    Tá me parecendo mais uma autobiografia do inconsciente dele. Freud explica.

    Brincadeira, Volps! :o)

  • Olha, é meio autobiográfico, meio psico-estressático, meio ficcional. Afinal, o que é realidade para vcs?

    Só sei que morar no 171 seria meio estranho, não? heeheheh……

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