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O capítulo nosso de cada dia - (22-04-2002)

Vamos lá, reconheça. Você adora novelas. É capaz de perder 3 horas de seu dia, todos os dias, só para acompanhar o desdobramento do gancho do episódio anterior. É claro que você sabe que haverá um outro gancho no final do capítulo. E aí você assistirá de novo. O quê? Não admite? Jura de pés juntos que não faz isso? Ou que só assiste umzinho às vezes, e escondido do pai, só para relaxar? Conversa. E não me venha com essa história de que a última novela a que você assistiu foi “Quatro Por Quatro”, mas isso porque era sua hora de jantar e era um interessante modo de entender a psiquê feminina. Não cola. Admita!

Pronto. Já admitiu? Se sim, então você é um noveleiro.

Se não, então você é um noveleiro mentiroso.

Você pode até argumentar que não assiste a novelas, assim, de forma religiosa. Que não senta para jantar na frente da tevê esperando o Jornal Nacional acabar, sai daí FHC, búúú, só para aguardar o começo da novela. Mas se você vive em Pindorama, não há como escapar. Jade, Sinhozinho Malta, a Mulher de Branco. Impossível não saber do que se trata. Os personagens estão lá, sempre os mesmos, em novos/velhos problemas. As tramas, todo mundo já sabe, a luta da mocinha-pobre-que-ama-o-mocinho-rico-traído-pela-família-que-descobre-o-poder-do-amor e as canalhices do vilão-inescrupuloso-que-tenta-de-todo-jeito-se-dar-bem-passando-por-cima-de-todos. E, claro, o assassinato. Ou então algum bebê trocado. Ou um bebê trocado que morre assassinado. Enfim.

Quando menos se espera, ela está lá, à sua espreita.

Mariovelda:
- O que você acha que vai acontecer?
Luninstácia:
- Não sei, acho que a diferença cultural é muito grande.
- Pois é. Sabe que, se eu fosse muçulmana, agiria da mesma forma.
- Mas é uma atrocidade, não é? Como é que ninguém faz nada a respeito!

E você, de pára-quedas na conversa:
- Eu também acho. Árabes e judeus deveriam buscar uma solução pacífica pra questão da Palestina…

Na-na-não! Que feio, que papelão você faria.

Na verdade, isso nunca iria acontecer. Pura ficção de cronista. Porque, no fundo, qualquer um saberia continuar a conversa de forma adequada, com frases do tipo “mas acho que no fim o Romualdo Rener vai ficar com a Mérilin”, ou “eu também odeio o Róbinson Rômulo”. Você sabe do que eu estou falando. Ao passar nas bancas de jornal, lá estão, estampados em corpo 120, tudo o que você precisa saber. “Golpe de Róbinson Rômulo”. Da mesma forma, em todos os intervalos da tevê, as novidades. “Mérilin vai à Moçambique”. No cafezinho do trabalho, a roda em coro. “Romualdo Rener vai se superar”.

Você conhece todos os personagens. Você conhece a trama principal e as secundárias. você sabe quais emissoras transmitem. você sabe até os horários! E, claro, você tem certeza que tudo vai acabar bem no final, casamentos dos mocinhos, falência/prisão dos malvados.

Não há como evitar, por mais que tente. Você é um noveleiro mesmo.



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:: recomende :: comente este texto (7) ::
paulo - prvasc@terra.com.br • 03-05-2002 03:51

noveleiro é a mãe! Aliás a de todo mundo. Pra mim, novela é que nem igreja, só frequento quando meus pais não me dão muita opção. (é foda não ter TV no quarto)

Juliana Furtado - julideep@hotmail.com • 20-05-2002 02:30

Concordo Volponi! Afinal, existe alguém que não saiba quem matou Odete Roitmann???

hahahah

Adorei a crônica, beijos, Juliana

volponi - link - volponi@cronistasreunidos.com.br • 25-05-2002 06:36

Quem matou Odete Roitmann foi a Fátima, não foi? Tô certo ou tou errado?

Paulo - paulocoelho@cronistasreunidos.com.br • 26-05-2002 10:20

Errado!!! Foi a Leila ( Cássia Kiss ), que depois fugiu com o Reginaldo Faria dando uma banana para o país.

Evandro Oliva - link - evandrooliva@uol.com.br • 10-07-2002 08:35

Sua mãe tem razão em ser tão coruja - você escreve muito bem !! Parabéns ! Ganhou mais um fã !!

Abraços !!

Evandro.

Franciny Vieira e Mariana Ortigara - • 14-08-2002 08:39

Achamos a crônica “O capítulo nosso de cada dia” muito interessante. Fala bem da realidade que vivemos.

Estamos estudando sobre crônicas e escolhemos essa para material de estudo.

Estás de parabéns.

Beijos,

Fran e Mari.

André Favarin - andrefavarin@yahoo.com.br • 07-11-2002 09:41

E isso aí mermão.

O tempo passa e a história se repete a cada novela. Elas se incorporam no nosso dia a dia, fazem com que mesmo sem perceber façam parte da gente. Quem é que não se lembra das camisas com gola Flamel? Qual menina não usou arquinho igual da Babalu, ou anel da Jade?

Essa crônica ficou massa, um abraço.

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