O capítulo nosso de cada dia

Vamos lá, reconheça. Você adora novelas. É capaz de perder 3 horas de seu dia, todos os dias, só para acompanhar o desdobramento do gancho do episódio anterior. É claro que você sabe que haverá um outro gancho no final do capítulo. E aí você assistirá de novo. O quê? Não admite? Jura de pés juntos que não faz isso? Ou que só assiste umzinho às vezes, e escondido do pai, só para relaxar? Conversa. E não me venha com essa história de que a última novela a que você assistiu foi “Quatro Por Quatro”, mas isso porque era sua hora de jantar e era um interessante modo de entender a psiquê feminina. Não cola. Admita!

Pronto. Já admitiu? Se sim, então você é um noveleiro.

Se não, então você é um noveleiro mentiroso.

Você pode até argumentar que não assiste a novelas, assim, de forma religiosa. Que não senta para jantar na frente da tevê esperando o Jornal Nacional acabar, sai daí FHC, búúú, só para aguardar o começo da novela. Mas se você vive em Pindorama, não há como escapar. Jade, Sinhozinho Malta, a Mulher de Branco. Impossível não saber do que se trata. Os personagens estão lá, sempre os mesmos, em novos/velhos problemas. As tramas, todo mundo já sabe, a luta da mocinha-pobre-que-ama-o-mocinho-rico-traído-pela-família-que-descobre-o-poder-do-amor e as canalhices do vilão-inescrupuloso-que-tenta-de-todo-jeito-se-dar-bem-passando-por-cima-de-todos. E, claro, o assassinato. Ou então algum bebê trocado. Ou um bebê trocado que morre assassinado. Enfim.

Quando menos se espera, ela está lá, à sua espreita.

Mariovelda:
– O que você acha que vai acontecer?
Luninstácia:
– Não sei, acho que a diferença cultural é muito grande.
– Pois é. Sabe que, se eu fosse muçulmana, agiria da mesma forma.
– Mas é uma atrocidade, não é? Como é que ninguém faz nada a respeito!

E você, de pára-quedas na conversa:
– Eu também acho. Árabes e judeus deveriam buscar uma solução pacífica pra questão da Palestina…

Na-na-não! Que feio, que papelão você faria.

Na verdade, isso nunca iria acontecer. Pura ficção de cronista. Porque, no fundo, qualquer um saberia continuar a conversa de forma adequada, com frases do tipo “mas acho que no fim o Romualdo Rener vai ficar com a Mérilin”, ou “eu também odeio o Róbinson Rômulo”. Você sabe do que eu estou falando. Ao passar nas bancas de jornal, lá estão, estampados em corpo 120, tudo o que você precisa saber. “Golpe de Róbinson Rômulo”. Da mesma forma, em todos os intervalos da tevê, as novidades. “Mérilin vai à Moçambique”. No cafezinho do trabalho, a roda em coro. “Romualdo Rener vai se superar”.

Você conhece todos os personagens. Você conhece a trama principal e as secundárias. você sabe quais emissoras transmitem. você sabe até os horários! E, claro, você tem certeza que tudo vai acabar bem no final, casamentos dos mocinhos, falência/prisão dos malvados.

Não há como evitar, por mais que tente. Você é um noveleiro mesmo.

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7 Comentários on "O capítulo nosso de cada dia"

  • paulo diz

    noveleiro é a mãe! Aliás a de todo mundo. Pra mim, novela é que nem igreja, só frequento quando meus pais não me dão muita opção. (é foda não ter TV no quarto)

  • Juliana Furtado diz

    Concordo Volponi! Afinal, existe alguém que não saiba quem matou Odete Roitmann???

    hahahah

    Adorei a crônica, beijos, Juliana

  • Quem matou Odete Roitmann foi a Fátima, não foi? Tô certo ou tou errado?

  • Paulo diz

    Errado!!! Foi a Leila ( Cássia Kiss ), que depois fugiu com o Reginaldo Faria dando uma banana para o país.

  • Sua mãe tem razão em ser tão coruja – você escreve muito bem !! Parabéns ! Ganhou mais um fã !!

    Abraços !!

    Evandro.

  • Franciny Vieira e Mariana Ortigara diz

    Achamos a crônica “O capítulo nosso de cada dia” muito interessante. Fala bem da realidade que vivemos.

    Estamos estudando sobre crônicas e escolhemos essa para material de estudo.

    Estás de parabéns.

    Beijos,

    Fran e Mari.

  • André Favarin diz

    E isso aí mermão.

    O tempo passa e a história se repete a cada novela. Elas se incorporam no nosso dia a dia, fazem com que mesmo sem perceber façam parte da gente. Quem é que não se lembra das camisas com gola Flamel? Qual menina não usou arquinho igual da Babalu, ou anel da Jade?

    Essa crônica ficou massa, um abraço.

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