Preliminares

Sou daqueles leitores esquizofrênicos, do tipo que não consegue ir ao banheiro sem levar palavras junto. É terrível, e admito que sou um adicto. Já cheguei a ponto de pegar catálogos de máquinas agrícolas – e até uma lista telefônica! – para me acompanhar. Lastimável. Mas isso me dá alguma vantagem (eu sei, não muita) na hora de definir o que eu acho bom e o que eu não acho.

Por exemplo, adoro prefácios. O prazer em ler um bom livro só pode ser bem aproveitado se o prefácio for instigante e esclarecedor. É como degustar vinhos: primeiro se observa, sente-se o aroma e só depois se coloca a bebida na boca. Nenhum destes passos é supérfluo. Ler um livro sem prefácio é como beber sem antes fazer o ritual: a graça vai embora.

Não que a graça do livro seja o prefácio, não, não é isso. É que todo livro é como um lugar diferente. Tudo bem, muitos deles são lugarzinhos sem sal, daqueles em que a única coisa interessante é o fato da mulher do prefeito ser uma devassa. Felizmente, alguns livros são verdadeiros mundos desconhecidos, e são os que valem a pena.

Mesmo para os que valem a pena, não se pode entrar em uma lugar assim, de sopetão. Mesmo numa cidadela, é preciso ir com calma. Chegar no bar, olhar em volta, observar o jeito das pessoas. Se houver alguém que sirva de cicerone, melhor. “O que tem de gostosa por aqui… mas prestatenção: vê se não cai na bobeira de querer pagar chope escuro pra elas, hein?”. “Olha, não deixe de passear pelos jardins da Vila Viuvinha”. “Aqui tem uma fábrica de paçoca que eu vou te contar”. Este tipo de conselho é que faz a diferença entre aproveitar bem o lugar ou ser expulso de lá com um trabuco. Bem que te avisaram do chope escuro.

Um livro geralmente não oferece oportunidades tão perigosas como levar um tiro de sal. Mas algo de terrível pode acontecer: você deixar passar em branco a coisa mais importante, o detalhe mais impressionante, aquilo que faz a diferença. Mais ou menos como perder o melhor chope claro do litoral catarinense, entusiasmado pelas outras loiras. E aí, deixa-se escoar o livro pelos os dedos.

Pra isso existe prefácio: para dar segurança, para indicar quais coisas você não pode deixar de ver, quais os detalhes que merecem sua atenção. Ou então, que seja só para dar uma contextualizada geral. Tem gente que odeia prefácios. Isso eu entendo, afinal, para quê ler algo que não é o texto de verdade, que vai dizer tudo o que o livro tem, e que, se não fosse o prefácio, você nunca enxergaria? Isso só é válido quando o prefaciador quer contar ou resumir o livro, e não apenas nos instigar. Felizmente, os bons livros têm bons prefácios. Os maus livros, geralmente nenhum. Os péssimos, prefácios dedo-duro.

É possível um bom livro não ter prefácio? Creio que sim. Mas, viciado que sou, não suporto abrir um livro e não saber do que ele trata, do que irei desfrutar, em que prestar mais atenção. Até pra ler, preliminares são fundamentais.

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2 Comentários on "Preliminares"

  • Dani diz

    Concordo com o Paulo. Só leio prefácios depois de ler o livro. Não quero que ninguém me conte antes o que pode acontecer.

    E eu também preciso ir no banheiro com palavras. Ô vício.

  • paulo diz

    Não costumo ler as orelhas. Acho que tem muita cera nessa região do livro. O prefácios e comentários que não sejam do próprio autor eu só leio depois. Já imaginou se toda vez que vc fosse comer um mulher (desculpem meninas) vc tivesse que ficar ouvindo a opinião de quem já comeu: “Olha, cuidado com o sexo oral que ela morde”, “A posição que ela prefere é de quatro”, “Comigo ela gozou umas cinco vezes”.

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