Manual do franco-atirador

Veríssimo já escreveu sobre o falso entendido que só fala jargões ininteligíveis (“isso é problema do hedge overnight”). Também sobre aquele que parece ter informações privilegiadas (“isso é o que você pensa”), mas que no fundo não sabe nada. Já se falou até daquele metido a historiador (“o preço da batata pode ser explicado pela minha teoria da insuficiência renal de D. Pedro I”). Nunca ninguém falou sobre o franco-atirador. Mas eles já têm até um manual de conduta.

Primeiro: um franco-atirador não pode ter medos. Frescura não faz parte do seu vocabulário. Indecisão, tatibitate? Fora. Um bom franco-atirador sabe o momento certo de disparar o seu petardo, independente da situação:

– Essa cara morreu foi de nevralgia. Percebe os olhos?

Não, não estamos falando aqui de um daqueles malucos que saem atirando contra qualquer um nas guerras civis. Não é a mesma coisa, mas é parecido. Os alvos são iguais. Os motivos, idem. E quero ver alguém provar que um tiro de escopeta é mais perigoso que um palpite bem aplicado:

– Isso eu lembro da época da faculdade. É só igualar o “x”. Dá certo.

Segundo: o que importa é passar uma informação de forma consciente, verossímil e, acima de tudo, defensável. Não precisa ser verdade. Mas o franco-atirador deve acreditar naquilo que atira, mesmo que a capital da Turquia seja Ancara:

– A capital da Turquia? É fácil: Istambul, que meu professor de história insistia em chamar de Constantinopla.

Terceiro: um franco-atirador não pode deixar dúvidas sobre a qualidade de seu tiro. Deve-se embasar cientificamente tudo aquilo o que se atira. Ou quase embasar, o que dá no mesmo:

– Corredor? Vem de co-rredor. Se você prestar atenção, vai perceber que tudo o que tem “co” significa “junto de”, “a par de”, por exemplo, colateral, co-responsabilidade. Já “redor” se aproxima do inglês “ride”, que significa nada mais nada menos que “correr”. Então, no fundo, um corredor é alguém que “ride” junto com outras pessoas. Certo? Portanto, um co-rredor. Entendeu? É etimológico.

Quarto: o franco-atirador deve estar preparado quando o tiro errar o alvo. No caso improvável de ser pego atirando pro lado errado, a retaguarda deve estar sempre protegida:

– Ah, mas eu sabia que a data final de entrega terminava com 4… pelo menos, isso, né?

Quinto: só em último caso, deve-se tentar o chute. Mas o bom franco-atirador sabe o quanto isso é arriscado. É o fim:

– Sabia que você dança muito bem?
– Que nada, é você quem está me levando, um verdadeiro dançarino profissional…
– Imagina… não sou assim nenhum Zubin Metha, mas gosto de dançar.
– Zubin Metha… Zubin Metha… ele não era maestro, ou algo assim?
– Não, Margarida, com certeza é dançarino e…
– Ahn!? Margarida? Meu nome é Rosa!
– Ah, desculpe, mas é que é tudo nome de flor mesmo…
– Tudo bem, normal.
– Que bom. Então, o Zubin Metha em 98…
– Seu cretino!

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14 Comentários on "Manual do franco-atirador"

  • Rafael diz

    Demorou mas ficou boa. Nem imaginava que você já tivesse pensado em algo parecido….. hehehe. Tem praticado?

  • Não, claro que não!

    Eu achei esse manual jogado na rua, comecei a ler e pensei: será que não dá uma crônica? As pessoas devem conhecer a realidade do que acontece por aí. Ou não.

  • Leopoldo diz

    Xiii O Volps já começou dar uma de Franco Atirador de novo…

    Nem vou contar que pelo menos metade da crônica pude presenciar o franco-atirador de elite em ação ao vivo…

    Tá muito boa Volps!

  • Ricardo Alter diz

    Ancara é a capital da Argélia. Os dois começam e terminam com A, já que na lingua deles o feminino, masculino e plural terminam com A. Que é o ícne da igreja argelina. Óbvio!!!

  • Peraí, em ação? Você conhece algum franco-atirador? Du-vi-do! Isso não existe.

  • Ricardo diz

    TROPA DE ELITE OSSO DURO DE ROER !!!! hehehe

    Mamute, ficou muito engraçado esse texto. Só faz a gente fica com mais raiva dos tempos que vc escreve. Vë se continua, pq ficou muito engraçado mesmo!! Parabéns!

  • Sérgio diz

    Eu conheço um franco-atirador. Ele até foi no Fica Comigo e colocou botou a Fernanda Lima da defesa. Sim, é ele, o Gabão. Um franco-atirador, definitivamente, roots.

  • Barbara diz

    Volponi, por sua causa passei muita vergonha… eu dei tanta risada que o pessoal do meu lado achou que eu estava louca! Fiquei inspirada a voltar a escrever.

    Tchungsblabous!!! (significa beijos em um dialeto uzubequistanês utilizado na idade média, mas vc já devia saber…)

  • Frinício Barros diz

    Primeiro: você tirou teu nome de uma peça de teatro, creio eu. Posso estar enganado. Segundo: cronistas criam seus próprios estilos. Eu sei que é difícil não cair na tentação de fazer um diálogo ao modo Verissimo, mas você não deve fazer tudo que ele faz. A crônica ficou boa, só que eu acho que você deixou muito forçado o diálogo, deixando ele menos engraçado do que poderia ser. Valeu!

  • Ricardo diz

    Caro Frinício,

    Franco atirador foi um dos apelidos que eu e os outros cronistas demos pro Volponi, por ele ser exatamente como descreve a crônica. Eu sei que é difícil de acreditar, mas esses diálogos não foram parodias do LFV, mas descrições praticamente inalteradas de passagens da vida do Volpa. Connvido vc a comparecer numa das próximas baladas do cronistas pra ver como isso realmente acontence!

    Valeu o comentário e té mais!

  • Olá Frinício,

    “Volponi” é meu sobrenome de verdade, olhe lá na biografia.

    Sim, há uma peça do século XVII chamada “Volpone ou A Raposa” de Ben Johnson, muito conhecida. Adhemar Guerra também criou uma peça chamada “Correu Sangue na Estréia de Volpone”, que contava a história dos bastidores do TBC. Teatro, teatro, teatro. Só que você não sabe do pior: meu irmão se chama Plínio Marcos Volponi.

    Detalhe: meus pais não sabiam de nada disso.

    Sobre a crônica, obrigado pelos comentários. Realmente, é difícil resistir à tentação de imitar o LFV, ainda mais quando um texto começa fazendo referência a ele.

    E ah… diálogos exagerados? Nãaaaaao. Eu nunca fiz nada disso… :-P

    Abraços!

  • Ricardo diz

    Ben Johnson não é aquele negão canadense que quebrou o recorde dos 100 mts rasos na Olimpíada de Seoul, 1988 ? É … foi ele mesmo, só que pegaram o doping … Lei de Murphy, Eddy Murphy …

  • Pois é. Parece piada, mas o nome é esse mesmo. Aliás, devem ter 9384539485798 zilhões de Ben Johnsons no mundo. Por que não pode ter um dramaturgo? :-P

  • Jacaré diz

    Volponi, você é o sniper de Washington?

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