O aplauso da menina

Primeiro, era o cheiro. Palha molhada, terra batida. Ela não conhecia muito bem aqueles sabores do ar. Só sabia que era diferente de todo o resto. A intercalação dos matizes na frente de seu rosto. O gosto rosa do algodão-doce.

Entrou. Um picadeiro oval dava boas-vindas. A arquibancada de madeira abraçando todo o entorno, crianças por toda a parte. Nem percebia mais a companhia de seu pai. Respeitável, o espetáculo começou.

Chegaram os animais, com seus odores ferozes. Ela não conseguia olhar para frente, para sentir o bafo dos felinos e ouvir as chicotadas. Pessoas começaram a se jogar dos céus, arriscando a vida. Outros ensurdeciam com o barulho de suas motocas. Malabarismos da morte. A menina apertava forte a mão do pai. Não apreciava nada daquilo. Queria voltar pro algodão doce, ver a tenda do lado de fora.

De repente, um pé enorme. O palhaço colocou triste seus olhos para aquém da cortina, abriu um sorriso e pulou para dentro. Pegou dois chapéus e começou a trocá-los na cabeça. Depois, três chapéus. E quatro, cinco, milhares deles. Todos caíram sobre o palhaço, atrapalhado. Sorrisos nos lábios das crianças.

A menina só voltou a si e começou a aplaudir quando a platéia tinha quase desistido. Todos olhavam para ela, e a menina aplaudia. Palmas, sorriso, entusiasmo. Parou. O circo todo em silêncio.

Suas mãos latejavam, de tão vermelhas. A primeira borboleta se desprendeu de seus dedos e titubeou pelo ar. Estava vermelha como a mão dela. Depois, uma atrás da outra, foram se multiplicando borboletas vermelhas, violetas, azuis, verdes, amarelas, povoando o ar. A última, pequenina e branca, saiu delicadamente da palma de sua mão.

Todas as borboletas se espalharam pelo recinto, sobrepondo-se às jaulas, ao globo da morte, aos trampolins, em camadas multicores. Só o picadeiro e o palhaço eram reconhecíveis. À volta deles, tudo o mais eram matizes indefiníveis e saltitantes.

Quando a borboleta branca resvelou no nariz do palhaço, não havia mais ninguém no circo. Só ele, a borboleta e a menina. O palhaço fez sua reverência, agradecido. E, ao se despedir, pousou fundo seus olhos nos dela.

A menina olhou de volta para suas mãos, e a borboletinha branca estava lá, aninhada entre seus dedos. Desse momento em diante, ela tomou conhecimento do belo. E sabia que nunca mais poderia aplaudir novamente.

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5 Comentários on "O aplauso da menina"

  • Jacaré diz

    O pai da menina é o Jorge Tadeu?

  • Rafael diz

    Cara, acho que não entendi, mas a parte que eu entendi, achei muito bonita. Você tem tomado seus remédios regularmente?

  • anninha diz

    Eu sabia! Sabia que seria algo assim singelo, puro, mágico e de fazer brilhar os olhinhos a imaginar…

    Sabia que era pra ter medo. Medo do que é muito belo.

    Amei.

  • anninha diz

    P.S. Fui ao circo há uns 4 meses atrás… voltei totalmente à infância… virei uma menininha a aplaudir… lindo…

  • malena diz

    melhor ainda que o texto foi abrir os comentários e ler esse sobre o Jorge Tadeu….he he he

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