Minidramas

Pour Elise
– Tã… nanananã-nanã-nanã…
– Ei! Vê um gás pra mim.

Todo dia a mesma ladainha. Acordar às 5, colocar o uniforme, e tocar a caminhonete pelas vielas do bairro.

– Lá vem o caminhão de gás de novo… ninguém muda essa musiquinha?
– É impossível, é irritante.
– Como o cara consegue ficar dentro do caminhão?

Mas Ludovico nem ouvia mais a canção. Só pensava em carregar o menos possível de botijões. Um dia, ele pegou sua filha pelas mãos e foi até o Ibirapuera. Caminhar, respirar ar puro, essas coisas. Uma orquestra executava peças famosas de Beethoven. Ele foi se aproximando do som. Pour Elise. No seu coração, sabia que nunca tinha ouvido coisa tão bela.

No dia seguinte, pediu demissão e foi trabalhar num supermecado.

Preso
Fechou as mãos em concha, ligeiro. Conseguira! Ela estava lá, sentia as cócegas. O menino correu pela casa, cuidadoso com o seu prêmio. Achou um pote de vidro aberto no quintal. Pensou que agora poderia cuidar do seu mosquitinho como um troféu: olhar para ele o dia todo, zumzum bonito. Um bichinho só seu. Na segunda-feira, mostraria para seus amiguinhos. Ninguém tinha conseguido capturar uma mosca. Nunca. Devagar, ele foi fechando os dedos em funil, para que ela entrasse no vidro sem escapar. Mas o que caiu foi só uma pedrinha alada, sem vida.

Choveu o final de semana todo, e o menino não pôde sair para brincar.

Ocupação
Desligou a tevê de repente. Foi até o quarto, abriu todas as portas do armário. Camisas, meias, roupa suja, sapatos, documentos, travesseiro. Amontoou tudo no meio da sala. Pegou uns desodorantes no banheiro. Iriam ajudar. Por cima, jogou talheres, pacotes de macarrão pela metade, garrafas de Merlot que nunca foram abertas. Da cozinha, trouxe também uma caixa de fósforos. Acendeu o palito com a mão direita, com a esquerda fez uma concha. Jogou na pilha, mas a chama se extinguiu. Olhou para a sala bagunçada, o seu dia-a-dia todo empilhado. E começou a arrumar, coisa por coisa, tudo o que estava ali.

Finalmente, tinha encontrado o que fazer no domingo.

Meio-amargo
Depois de anos de pedidos, Cláudio chegou em casa com rosas e bombons. Era a primeira vez, depois do casamento. Marcela olhou tudo aquilo e lembrou que os dois estavam bem. Aquilo não era uma justificativa. Não era um pedido de desculpas, muito menos uma traição. Os dois estavam tão sintonizados que ela tinha se esquecido de pedir por mimos assim. Cláudio contente. Ela percebeu que, agora, não faltava mais nada para cobrar dele. E ele nunca poderia ter imaginado que o fim chegaria desta forma. Mas pressentiu, quando ela quase chorou ao morder o chocolate meio-amargo.

Sete sete sete
Naquela noite de sábado, Amanda se ajoelhou no chão para pegar os cacos. Três copos (um de requeijão), um pires, dois pratos, e, agora, a saladeira. Era a sétima peça de louça que ela deixava quebrar naquela semana. Sempre depois do jantar, sempre sozinha. Enxugava a louça pensando no que tinha acontecido. Ato falho ou proposital, o ruído do vidro quebrando servia para quebrar seus pensamentos recorrentes. Mas ela tinha entregado os pontos. Chorava, fragmentada que estava. Pegou o maior caco e foi até o quarto. Desistiu de se cortar. Jogou tudo no espelho. Sete vezes sete, o seu reflexo se desfez em pedaços. O azar multiplicado muitas vezes. Mas Amanda sabia que a dor absoluta não tem medida. E sorriu.

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8 Comentários on "Minidramas"

  • Juliana K. diz

    Melhor Impossível … aliás, meu filme predileto. E precisa dizer que gostei?

  • anninha diz

    Precisa comentar de novo???

    AMEI cada minidrama. Parecem pedacinhos de realidade, flashes; como se vc tivesse entrado em um momento de cada vida ali, assistido e depois se retirado…. deixando reticências…

    São intensos…

  • Camila diz

    Minidelícias!!!

  • malena diz

    caramba! muito bom!

  • gerpo diz

    ngm critica essas cronicas? cabera a mim?

  • Paulo diz

    Seu picareta!! A gente publica inéditas nesse site! Tirando isso todos os mini textos estão muito legais.

  • Eu diz

    Esse texto Sete sete sete é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito legal

  • Vanessa diz

    Eu acho um absurdo o que os caminhões de gás fizeram com uma música tão bonita quanto Pour Elise…

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