Hora fechada

São dezoito e dezesseis. Horas. Ansioso, ando para lá e para cá, tentando achar alguma coisa interessante. Nada. Ou quase nada. Um celular do último tipo lançado no Brasil. O mesmo que já é antiquado no Japão. Visor com bilhões de cores, botões, câmeras, plugues. Sete opções de capa.

Dezoito e dezenove. Horas. Duas garotas passam. Olhos pintados de escuro, saias escuras, unhas escuras. Uma conversa fugidia. Parecem observar um grupo de rapazes. Parecem observar a si mesmas, tentando adivinhar o que eles vão pensar. Ou observam os tênis deles.

Quarenta e três. É o número do meu tênis. Sempre foi difícil de encontrar. A vitrine exibe os tênis, que exibem as marcas. Uma boa desculpa para um desfile de logotipos. Agora as marcas produzem quarenta e três, quarenta e quatro. Deve ser por causa do crescimento daqueles rapazes. Ou porque eles querem desfilar as marcas para elas.

Dezoito e vinte e seis. Horas. Nas prateleiras, acúmulo de saber. Sobre personalidades famosas. Sobre dietas exóticas. Sobre anjos. Pessoas de sucesso, atitudes de sucesso, vidas de sucesso. Farta distribuição de frustrações. Uma área exclusiva para redimir essas frustrações. Numa estante, um livro sobre uma caverna, outro sobre um tempo perdido, outro sobre um fidalgo engenhoso. Sozinha no mundo, essa estante não atrai os olhares.

Cinco milhões de cópias vendidas. Nove milhões de cópias vendidas. Doze semitons numa oitava. Um casal ouve um sucesso, mais um sucesso, mais outro sucesso. Música ou matemática? Na contabilidade dos ouvidos, vale aquele que multiplica mais. Não pela influência, mas pela repetição. E o casal sai levando uma sucessão de tons iguais.

Dezoito e quarenta. Horas. Os rapazes passam por mim. Direto para a área de diversão. Combates mortais, lutadores de rua, pegas simulados. Movimentos ágeis, gritos, provocações. Penso na violência propagandeada. Rejeito. Penso na abertura das possibilidades da imaginação. Rejeito. Penso na diversão, na sublimação de impulsos ruins. Também rejeito. A única coisa que parece certa é a relação entre eles e o momento.

Nove reais e cinqüenta e três centavos. Momento de fome. Um hambúrguer, alface, etc. Batata. Coca-cola. Muita gordura em tudo isso. Ao redor, crianças fingem comer, brincando com seus brindes. Os pais constrangidos. Sabem o que as crianças estão fazendo. Mas não sabem dizer não. Perdoam-se, lembrando das privações que crêem ter sofrido e que suas crianças não sofrerão. Comem seus lanches de sabor transparente, como eu. E fecham os olhos para as novas privações que criam.

Dezenove e quinze. Hora de encontrar um outro lugar. E sair daqui, já.

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5 Comentários on "Hora fechada"

  • pirata diz

    uma cronica numerica. adorei :)

    muito boa mesmo volps! tem ritmo de funk americano, com muito mais texto, claro.

    escreva sempre!

  • Rafael.... diz

    Cara, eu devo dizer que vc mudou de estilo…. talvez por causa das recentes leituras, mas gostei mesmo assim. Gostei da parte dos “lanches de sabor transparente” bem forte.

  • malena diz

    fiquei imaginando onde o personagem estava!! muito legal…

  • Relatos de uma auto-observação.

    Atemporal.

    E para onde você foi, depois das descobertas no Tempo?

    abreijos

    Mára(49)

  • Muito bom. Sutil, provocante na medida certa, bem sensorial. Adorei.

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