Waldenëer Tete-DuBois – Entrevista

Repórter: Boa tarde, Waldenëer Tete-DuBois. Antes de falar sobre seu novo trabalho, gostaria de saber: seu sucesso estrondoso sucesso no passado foi desaparecendo na última década. O que aconteceu? As pessoas se desencantaram do teatro, a dramaturgia nacional não se renovou, qual ou quais foram as razões, na sua opinião?

Waldenëer Tete-DuBois: Os juros altos.

Repórter: Os juros?

Waldenëer: Sim.

Repórter: Mais nada?

Waldenëer: Não.

Repórter: Bem, e como foi a sua trajetória nesse período, esses quase 10 anos fora dos palcos?

Waldenëer: Ah, eu tive uma experiência, por assim dizer, que me iluminou e desiluminou minha consciência. Tive que voltar para minhas raízes. Meu objetivo foi ler os grandes autores, enredado pelo mesmo elã que serviu de inspiração a eles: as paisagens bucólicas e o dia-dia mesquinho da sociedade pré-burguesa. Ou seja, fui pra fazenda de papá no interior do Paraná. Depois de ler muito Sófocles, Ésquilo, Shakespeare, Brecht, Beckett, Ibsen, Stanislavski, Ionesco, Wilde… cansei e fui caminhar. E encontrei algo que me chamou a atenção. Era uma luz esverdeada, fugidia… era um vaga-lume. Ele piscava. Piscava! Não é incrível? Foi essa a minha iluminação: a luz do vaga-lume. Uma situação… catárquica!

Para um dramaturgo, ficar longe do público é como um vaga-lume que não acende. E se não acende, não ilumina. Não arranja a sua parceira no suco primordial da vida. É o que chamo de “ausência da essência”. É a essência do não-ser, ou seja, a ausência do ser. Lume nenhum. O “vaga” se perde. Essência vaga. Isso é bom? Isso é ruim? Pra mim, são as duas coisas. Está vendo?

Repórter: Compreendo… E de onde veio a inspiração para essa nova peça, “Pirilampo Pisca-Perpétuo”, em que você, além de escrever e dirigir, atua?

Waldenëer: Eu sou muito influenciado pela rua, pelas pessoas. Se não há mais poesia na sociedade, tudo bem. Se não há mais poesia na poesia, tudo bem. Mas ainda há poesia nas pessoas. Outro dia, vi um poste, sabe daqueles postes de iluminação pequenos, de rua? Estava à noite, e cumprindo sua função de poste, acendeu. Só que o poste-coisa, feita pela mão poética da pessoa, é sujeita à intervenção não só da pessoa, mas também à intervenção poética do acaso. E o acaso intervém i-ne-xo-rá-vel-men-te. Ah, que coisa linda. Pois bem, eu dizia que o poste acendeu. E por que acendeu? Porque o sensor não detectou luz, era noite, e mandou o comando para acendê-lo. Só que a luz do poste, ao acender, iluminou o sensor. O sensor foi estimulado, que comandou o apagar da própria luz. Que por sua vez… compreende? Não é magnífico? O acaso subverteu a ordem, a função. Neste momento, disparou-se, magicamente, o pisca-perpétuo. E tudo isso se relaciona: lampyridae, o lampião pirotecnizador do acaso.

Repórter: Pode-se dizer que essa temática, a temática da peça, mostra uma mudança no seu trabalho, que sempre teve um forte cunho político? Essa peça foge da politização?

Waldenëer: Muito pelo contrário! É totalmente inserida nas questões da nossa sociedade. Veja, o tempo passa. Um. Dois. Três. Está vendo? São os segundos indo embora. O vaga-lume nega isso tudo, porque pisca. É subversivo. Um? Não. Dois? Não. Pisca, pisca, pisca. Está vendo? A estrutura da não-alienação está aí. Negar o um, piscar para ele. Negar o dois, piscar para ele também. E ainda tem o três! Está vendo? O vaga-lume, em seu piscar, é a essência, presente, pulsante, do não-conformismo.

Repórter: E o que os espectadores podem esperar desse trabalho?

Waldenëer: Vida, muita vida. O pisca é neto-trisavô do pulsar. O pulso do coração, tum-tum, tum-tum, é uma onomatopéia. O pisca-pisca do vaga-lume também é uma onomatopéia. A onomatopéia é a metáfora do som. Portanto, pisca e pulso, ressoam metalingüisticamente a vida. Nossa existência não é mais que um piscar-pulsar entre duas eternidades, o pré-vida e o pós-morte. Apita o árbitro: o pulsar começa. Apita novamente: é o fim do jogo da vida. Não há intervalo, nem segundo tempo.

Repórter: Falando em final da partida, uma última pergunta. A crítica, em geral, não está fazendo boas avaliações do “Pirilampo Pisca-Perpétuo”. Alguns dizem que a peça é praticamente um jogo de palavras de duas horas. Outros apontam a irritação causada pelo estrobo de 400 watts ligado durante toda a duração da peça. A que se deve esse tipo de crítica negativa?

Waldenëer: Aos juros altos, é claro.

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9 Comentários on "Waldenëer Tete-DuBois – Entrevista"

  • Kris diz

    Bravo! Como sempre em grande estilo!

  • Rafael diz

    Cara! Como sempre, nunca entendo…….serei eu, serás tu? Finalmente as teias do acaso se distanciam do lume de seus textos…….Boa!

  • Paulo diz

    MILAAAAAGRE! É a transmutação da consciência do autor depois de quase um ano! Milaaaagre!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

  • diz

    Volpíssimo! Milagre! Atualizaste! Nem li, mas só pela existência da crônica já gostei!

  • diz

    A melhor é “lampyridae, o lampião pirotecnizador do acaso”! Preciso ir pra fazenda de papá para bolar uma frase dessas!

  • demorou mas veio otimo! viajadissimo, incrivel!

    adorei brow!!!

  • diz

    Waldenëer é parente sofismático-intelectualóide de Gilberto Gil? Unidos no barato nagô do seu zen interior?

  • Dá pra escrever mais, Mamute!!?

    Caramba ! Bom demais! Queremo mais!

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