O Bebê: Manual Prático

Na sociedade contemporânea, o procedimento necessário para se fazer um bebê é conhecido por todas as pessoas que atingiram a puberdade. Alguns indivíduos precoces obtêm tais informações antes mesmo dessa época conturbada de suas vidas. Em condições normais, a maioria dos casais terá tido a oportunidade de treinar o referido procedimento antes de produzir o resultado desejado. Chega então o momento solene em que os candidatos a pai e mãe decidem constituir uma família feliz. Até aqui, nenhum segredo.

A notícia de que os preparativos renderam frutos vem de maneira curiosa. Num primeiro instante, é privilégio da genitora. Embora a confirmação possa ensejar momentos de intensa emoção, de início não há sinais exteriores de que algo tenha mudado. Tudo é muito discreto, quase discreto demais para justificar tamanha felicidade.

Segue-se o período de gestação, fase um tanto enfadonha na qual o casal deverá aturar a presença constante de um estranho: o obstetra. O nobre profissional da saúde efetuará com diligência intrusões reiteradas na vida familiar dos cônjuges, na conta bancária dos mesmos e no corpo da gestante. Certos homens, se se lembrarem desse detalhe a tempo, provavelmente recusarão participar do empreendimento antes que ele comece, e procurarão convencer suas esposas de que cachorros são ótimos companheiros.

Se tudo correr conforme o planejado – o que esperamos todos que aconteça – o casal felizardo voltará um dia para casa carregando no colo o diminuto depositário de instintos, esperanças, sonhos e angústias. E aí surge a encrenca: o que fazer agora com o bebê?

Papai e mamãe não precisam se preocupar, pois o bebê é um aparelho de funcionamento muito simples. Ele é basicamente constituído de um estômago e dois pulmões; estes se enchem quando aquele esvazia. A ultrapassagem do ponto de equilíbrio será facilmente notada quando o bebê produzir um som característico, o choro. O choro possui duas propriedades: duração e volume sempre superam o limite da paciência alheia. Efeitos colaterais podem incluir olhares hostis e comentários de reprovação por parte de terceiros, se o casal estiver perto de outros adultos. Por isso, é mister saber lidar com o choro. Como este é sinal de fome, a solução é alimentar o rebento. Lembrem-se da regra básica: estômago cheio, pulmões vazios. O corolário da mesma é: bebê quietinho. De onde se conclui: pais tranqüilos, CQD.

O inconveniente é que o bebê não foi muito bem projetado. Calma, não briguem comigo, a culpa não é minha. Já estou fazendo o favor de escrever este manual. Como eu dizia, o bebê tem um defeito capital: o choro não é somente um indicativo de fome, mas também de muitas outras sensações e estados de espírito. Na verdade, é a única maneira que a criaturinha possui de exprimir seus pontos de vista sobre o mundo. Não adianta pedir para trocar porque todos os bebês são assim. Como o recall não é uma opção viável, os pais terão de contornar o problema.

Felizmente, existe uma pessoa capacitada para prestar consultoria de alto nível sobre o bebê: é a mãe. A mãe consegue identificar as mensagens contidas no choro aparentemente uniforme do infante, trazendo à tona as mais sutis nuanças da psiquê do pimpolho. Por alguma causa ainda desconhecida, a mesma capacidade parece ser negada ao pai. Considerem, por exemplo, o seguinte diálogo:

“Querida, ele fez inhé.
– É calor, tira o casaquinho dele.
– Mas calor não é unhé?
– Não, isso é quando ele quer colo.
– Achei que colo fosse pinhé.
– Não, isso é fome. Credo, você não conhece seu próprio filho? Sou eu que tenho que fazer tudo sozinha nessa casa!”

Para evitar dissensões mais graves, recomenda-se que, em tais circunstâncias, o pai siga as instruções da mãe, no interesse geral da harmonia do lar. E aproveite a experiência inestimável de trabalhar lado a lado com uma profissional competente da área. Pode ser útil das próximas vezes – se houver.

Enfim, não há motivo para desespero. Pais e mães saberão o que fazer quando chegar a hora. Além disso, as dificuldades com o bebê são passageiras. Logo ele começa a fazer uso da fala, pondo a proveito a notável faculdade humana da razão. Nesse momento, a comunicação com ele ficará muito mais fácil e proveitosa para ambas as partes. Bem, talvez não instantaneamente. Mas nada que uns vinte anos não resolvam.

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2 Comentários on "O Bebê: Manual Prático"

  • Rafael.... diz

    Essa é umadas minhas preferidas.

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Impagável!!!!

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