É Óbvio

– E aí, gostou?
– Não sei, acho que não. Na verdade, acho que não entendi.
– Como não? Tá tudo lá.
– Não sei, não vi, acho que eu não consigo entender esses filmes.
– Mas os sinais tão todos ali. Você não percebeu o candelabro? Tá na cara que é um sinal. Um sinal recorrente.
– E quer dizer o quê?
– O candelabro simboliza a chama da vida. À medida que vai passando o tempo, as velas vão se apagando uma a uma, para mostrar que o sentido da vida, para aquelas pessoas, está se esvaindo.
– É por isso que eles ficam no escuro o tempo todo?
– Não, nada a ver, isso é uma opção estética. Não faz parte da história narrada, entende? É um signo metalingüístico, do diretor falando com a gente. Os personagens ficam no escuro porque eles não conseguem enxergar o próprio destino, mas eles não sabem que eles estão no escuro.
– Achei que a fotografia fosse ruim.
– Não, já falei, é uma opção estética.
– Mas não podiam fazer uma opção que desse para a gente ver o que está acontecendo?
– Mas você não entende? Isso também é simbólico. A fotografia reproduz, entre o diretor e o espectador, a relação de manipulação que o filme quer denunciar. Ele nos deixa no escuro para nos fazer sentir na pele a opressão do sistema.
– Mas então o diretor está do lado do sistema?
– Não, ele não é a favor do sistema, ele está só assumindo o papel do sistema, entende? Assim, o diretor também é um personagem do filme, só que um personagem invisível.
– Ah, tá… achei que ficasse escuro para a gente não ver as mulheres peladas.
– Não, isso é para mostrar que o sistema, ao proibir a nudez, é castrador.
– Por isso que o carinha era impotente?
– É.
– Ah… só não entendi a do cortador de grama.
– Como não? Outro símbolo da castração.
– Mas quando ele mata a guria ele não usa o cortador, ele dá nela com o sapato de salto.
– É a reversão de um fetiche burguês. Ela morre pelas mãos do oprimido, que se vinga utilizando o próprio objeto que simboliza a superioridade dela, revertendo a situação de manipulação.
– E aqueles urros?
– É um transe, o sujeito entra em transe na hora em que ele se liberta, entende? Um transe extático?
– Por isso ele arranca a roupa no meio da estação de trem?
– Não, isso não faz parte do mesmo movimento. A cena da estação é outro contexto, ela representa uma jornada agônica, como uma purgação.
– Achei que a purgação tinha sido por causa da berinjela.
– Não, você não entendeu que a cor da berinjela, metaforicamente, sugere que a dominação adquire um cunho de preconceito racial?
– Tá… mas aposto que o porquinho-da-índia não tem nada a ver com o resto.
– Como assim? Se ele encarna a manifestação imagética da condição animalesca do sujeito reificado?
– Putz, não tinha me dado conta…
– É porque você não raciocinou sobre isso. A gente não tá aqui pra consumir, você tem que participar do filme, romper o ciclo de passividade do espectador. É um ato político, um meio de manifestar o seu protesto contra a lógica de mercado que invade o cinema. Você tem que ir juntando as peças…
– É, entendi, agora melhorou um pouco. O candelabro, o cortador de grama, o sapato de salto, a estação de trem, a berinjela, o porquinho-da-índia… tá tudo se encaixando… Pelo menos os personagens podiam falar, para a gente entender tudo isso.
– Mas pra quê?

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2 Comentários on "É Óbvio"

  • diz

    Para quem quiser assistir um filme desse tipo muito óbvio, recomendo “Teorema”, do Pasolini. Foi a inspiração principal para essa crônica. Mas, por favor, não digam que não entenderam!

  • Paulo diz

    Essa, para mim, é espetacular.

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