O Chamado

Madrugada de sábado. Toca o telefone na residência Prestes.

– Querida…
– Hnf… ai, a essa hora…
– Querida, o telefone está tocando.
– Hum… eu sei, atende aí…
– Eu atendo, se você me disser onde está o telefone.
– Brmfl… não sei… que chatice… atende logo, vai…
– Querida, cadê o telefone?
– Ai, que barulho irritante…
– Maria Elisa, me fala onde está a porcaria do telefone! Eu preciso atender!

A sra. Prestes murmura algo incompreensível e vira-se para o outro lado. O sr. Prestes atira os lençóis para longe e salta da cama. Começa a revirar o quarto à procura do telefone, que continua tocando.

– Maria Elisa, é a última vez que eu vou perguntar: cadê o telefone?
– Fbrlrl… não lembro… acha logo…
– Quantas vezes já falei para não esconder o telefone?
– Ai, mas é insuportável… fica tocando toda hora…
– Claro, Maria Elisa! Você devia ter pensado nisso antes de casar com um paramédico!
– Humbf… não grita… acha logo esse treco que eu quero dormir…
– Você podia colaborar, né? Onde você pôs? Fala! Deve ter gente morrendo por sua causa!
– O Marquinhos era dentista…
– E daí? O que tem a ver o babaca do Marquinhos com o telefone? E dentista também tem que atender à noite, ouviu? Vai que cai uma obturação, estoura um canal…
– Atende logo que tem gente morrendo.
– Eu vou ser demitido, Maria Elisa! Cadê a droga do telefone?!

Num gesto de raiva, o sr. Prestes abre o armário e começa a despejar no chão o conteúdo das gavetas. O telefone incansável desponta no meio de uma pilha de calcinhas.

– Pronto, Prestes falando, onde é a emergência?
– Oi pai, sou eu.
– Ah! Filho. O que aconteceu?
– Não, nada não, a gente tava saindo da festa e a bateria do carro pifou, então vou dormir por aqui.
– Ah, tá, tudo bem então. Se cuida, hein?
– Pode deixar. Té mais, pai.
– Tchau.

O sr. Prestes suspira profundamente. Contempla o rastro de desordem que espalhou pelo quarto. Arrasta-se de volta para a cama e começa a procurar uma posição para dormir.

– Agenor?
– Hnf…
– Que aconteceu com o Filipe, Agenor?
– Humbl… nada não…
– Fala, homem! O que houve com ele? Ele tá bem?
– Nada… o carro…
– Ai meu Deus! Carro não! Foi acidente? Ele bateu? Deixa eu falar com ele! Acorda, Agenor! Deixa eu ligar no celular dele! Me dá o telefone!
– Brmm… tô dormindo…
– Acorda, homem, eu preciso telefonar!

A sra. Prestes levanta desesperada, calça as pantufas e olha aflita em torno de si.

– Agenor, você escondeu o telefone?

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