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O Chamado - (17-02-2005)

Madrugada de sábado. Toca o telefone na residência Prestes.

- Querida…
- Hnf… ai, a essa hora…
- Querida, o telefone está tocando.
- Hum… eu sei, atende aí…
- Eu atendo, se você me disser onde está o telefone.
- Brmfl… não sei… que chatice… atende logo, vai…
- Querida, cadê o telefone?
- Ai, que barulho irritante…
- Maria Elisa, me fala onde está a porcaria do telefone! Eu preciso atender!

A sra. Prestes murmura algo incompreensível e vira-se para o outro lado. O sr. Prestes atira os lençóis para longe e salta da cama. Começa a revirar o quarto à procura do telefone, que continua tocando.

- Maria Elisa, é a última vez que eu vou perguntar: cadê o telefone?
- Fbrlrl… não lembro… acha logo…
- Quantas vezes já falei para não esconder o telefone?
- Ai, mas é insuportável… fica tocando toda hora…
- Claro, Maria Elisa! Você devia ter pensado nisso antes de casar com um paramédico!
- Humbf… não grita… acha logo esse treco que eu quero dormir…
- Você podia colaborar, né? Onde você pôs? Fala! Deve ter gente morrendo por sua causa!
- O Marquinhos era dentista…
- E daí? O que tem a ver o babaca do Marquinhos com o telefone? E dentista também tem que atender à noite, ouviu? Vai que cai uma obturação, estoura um canal…
- Atende logo que tem gente morrendo.
- Eu vou ser demitido, Maria Elisa! Cadê a droga do telefone?!

Num gesto de raiva, o sr. Prestes abre o armário e começa a despejar no chão o conteúdo das gavetas. O telefone incansável desponta no meio de uma pilha de calcinhas.

- Pronto, Prestes falando, onde é a emergência?
- Oi pai, sou eu.
- Ah! Filho. O que aconteceu?
- Não, nada não, a gente tava saindo da festa e a bateria do carro pifou, então vou dormir por aqui.
- Ah, tá, tudo bem então. Se cuida, hein?
- Pode deixar. Té mais, pai.
- Tchau.

O sr. Prestes suspira profundamente. Contempla o rastro de desordem que espalhou pelo quarto. Arrasta-se de volta para a cama e começa a procurar uma posição para dormir.

- Agenor?
- Hnf…
- Que aconteceu com o Filipe, Agenor?
- Humbl… nada não…
- Fala, homem! O que houve com ele? Ele tá bem?
- Nada… o carro…
- Ai meu Deus! Carro não! Foi acidente? Ele bateu? Deixa eu falar com ele! Acorda, Agenor! Deixa eu ligar no celular dele! Me dá o telefone!
- Brmm… tô dormindo…
- Acorda, homem, eu preciso telefonar!

A sra. Prestes levanta desesperada, calça as pantufas e olha aflita em torno de si.

- Agenor, você escondeu o telefone?



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