Itinerário

Mais um dia estúpido, no mesmo bonde estúpido. A única vantagem da rotina é que eu nem preciso acordar para fazer o caminho até a faculdade, o corpo vai sozinho enquanto a cabeça fica desligada. É fácil, nada muda nunca no trajeto. O transporte público na Suíça é irritantemente pontual, eu pego o 15 todo dia às 07:28 e ele nunca se atrasa, nem se adianta. Os passageiros são sempre os mesmos e se cumprimentam sempre com a mesma cortesia oca, “Bonjour, monsieur”, “Bonjour, madame”, depois do sorriso protocolar cada um pode ficar em silêncio sem constrangimento.

Liberado das preocupações práticas pela força do hábito, fico livre para desperdiçar o tempo da viagem da mesma maneira de sempre, deixando a mente divagar por assuntos repisados, abrindo e fechando os olhos ao ritmo das paradas. “Prochain arrêt, Nations”. Uma desaceleração suabilíssima e os olhos se abrem, por um breve segundo perdem-se no letreiro luminoso, nos passageiros que sobem, na propaganda da Banque Cantonale. Então o bonde acelera, os olhos se fecham e tudo se embaralha novamente, Bucherer, Transports Publics Genevois, o gordinho do gorro verde, viramos na Rue de Lausanne, preciso preparar o seminário de quarta-feira, quando chega na Gare Cornavin a senhora de bengala espirra, aquela que sempre sobe nos Pâquis, melhor reservar o manual de semiótica na biblioteca antes que alguém pegue, os adolescentes sobem na Rue des Terreaux du Temple ouvindo iPod, esquis em oferta na Manor, será que a Viviane vai ficar hoje à tarde, que importa, ela não liga para mim mesmo, nossa que cheiro bom.

Só reparo na moça quando ela já está sentada do meu lado, não sei o que me tira da torpeza, acho que o perfume, ou a voz, parece que cada palavra tem um aroma, as risadinhas são de baunilha. Tento abrir os olhos devagar para fingir que não estava cochilando, como se adiantasse, que vergonha, ela desviou das minhas pernas para se sentar e eu ali dormindo. A amiga dela na minha diagonal me lança um olhar de desprezo enquanto as minhas pálpebras se desgrudam. Na minha frente, a dona de echarpe creme, que sobe no Boulevard Georges Favon, continua abraçando a bolsa de jacaré, a Tribune de Genève e o saquinho de papel da padaria.

Faço aquela cara de sério padrão para disfarçar a absoluta falta momentânea de conteúdo mental. Finjo analisar meticulosamente o vôo dos passarinhos entre os plátanos da Plaine de Plainpalais. Na verdade, só sei que são plátanos porque alguém me disse, e os passarinhos não tenho a mínima idéia de que espécie são. Mas fornecem um pretexto sutil para ganhar tempo até meu cérebro conseguir acompanhar a conversa da amiga com a moça ao meu lado.

Eu nem preciso olhar para saber que ela é linda, nenhuma mulher com risadinha de baunilha pode ser menos do que linda. Além disso, pega mal ficar encarando quem está com o cotovelo colado no seu, ela pode pensar que eu estou achando ruim e descolar, não há pretexto sutil para eu virar noventa graus para a direita, só se apontar para fora e disser de repente “olha, um melro-vermelho-dos-alpes!”, não, muito tosco. Contento-me em deixar meu cotovelo imóvel, para que ela encoste mais nele a cada curva, e observar as únicas partes do corpo dela disponíveis desse ângulo de visão, que são os joelhos e as mãos colocadas sobre uma pasta de documentos. Que mãos! E que joelhos!

A amiga, por outro lado, é antipática até não poder mais, uma magrinha sem graça que só reclama. Percebo que, na verdade, as duas não estão conversando, a amiga fala mal de tudo, olhando para mim de vez em quando como se eu fosse o culpado, enquanto a moça só balança a cabeça, com um sorriso complacente, e solta uma risadinha de baunilha de vez em quando.

Na Avenue Henri-Dunant, a amiga cata as coisas num gesto brusco, salta do assento sem parar de reclamar do mundo, passa tropeçando no meu pé e desce sem se despedir da moça. No começo não faz falta nenhuma, mas logo em seguida percebo que ela tinha uma única função positiva, a de provocar as risadinhas de baunilha, que agora estão caladas. Fico aflito. Minha parada é a próxima. “Prochain arrêt, Uni-Mail”. Dentro de mim, uma esperança natimorta estoura como um balão de ácido. A moça olha para fora, alisa os longos cabelos castanhos, o bonde pára, vejo no vidro o reflexo dos olhos verdes, atrás do reflexo as janelas da faculdade, atrás das janelas a escadaria, depois a aula de filosofia da linguagem que vai começar em quinze minutos, e o bonde anda.

Ótimo. O destino quer assumir a irresponsabilidade no meu lugar, e eu não reclamo. Afinal, posso assistir a aula de filosofia da linguagem na sala da noite, preparar o seminário de quarta-feira à tarde, e se alguém pegar o manual de semiótica eu peço emprestado ao Alexis. Tudo resolvido. A felicidade alça vôo dentro de mim como o melro-vermelho-dos-alpes, o mundo inteiro fica luminoso e eu sorrio abestalhado para a dona de echarpe creme. Já que perdi o ponto, não faz sentido descer no próximo. Começa a brincadeira.

Preparo-me para lançar uma das inúmeras frases galantes que meu cérebro oferece eufórico, viro-me para a moça esboçando um ar sedutor, os olhos verdes me fitam por um segundo, “Excusez-moi”, ela murmura com sorriso tímido, já está de pé segurando a pasta de documentos contra o peito, eu me levanto para deixá-la passar, também paro junto à porta, descemos e ela segue pela calçada do Boulevard du Pont-d’Arve.

E agora? E agora? Entro em pânico ao imaginar que posso estar vendo-a pela última vez. Se ela nunca pegava aquele bonde, quem garante que vai pegar de novo? Preciso desesperadamente descobrir algum ponto de referência, provavelmente ela está indo para o trabalho. Finjo que vou para o lado oposto, deixo ela se afastar alguns passos, depois volto pela mesma direção. Ela vira à direita na Rue de Carouge, entra numa galeria comercial, será que… não, só compra um croissant e sai, atravessa a rua, pára no canteiro central. Espero fechar o sinal de propósito, para não segui-la muito de perto, finjo olhar os jornais na banca, quando o sinal abre corro para alcançá-la, ela já está entrando no Crédit Suisse, deve ser ali que… não, alarme falso, só saca dinheiro e continua. E agora? Tento manter a distância, tenho de esperar passar um grupo de escoteiros, através das bandeirolas só vejo os cabelos castanhos se agitando com o vento, se afastando, virando outra esquina.

Obviamente, perco-a de vista. Contorno o quarteirão, vou e volto diversas vezes pela calçada, olho dentro de todas as lojas, sem medo nenhum de parecer louco. Acho que faço jus ao título mesmo, já não é a primeira vez que me meto numa trapalhada dessas por causa de uma esperança estúpida, só pasto na mão de mulher, até quando não boto a mão nelas. Olho ao redor e percebo finalmente onde estou, rue Dancet, andei em arco de círculo, não estou longe da faculdade. Ainda estou xingando a mim mesmo quando empurro a porta de um café, faltam vinte minutos para o final da primeira aula, não vale a pena entrar atrasado por tão pouco. Acomodo-me no banco próximo à janela, encaro a rua desanimado, contemplo o concretão estúpido da faculdade enquanto a irritação se dissipa em tédio, e vou jogando em cima da mesa o caderno, os livros, as luvas, o cachecol, penso que vou ter de ficar até a noite para ver a aula que perdi, preparar a droga do seminário, pedir emprestado o livro que não reservei, quando chega a mocinha do café, “Que désirez-vous, monsieur?”. Viro-me, sobressaltamos, os olhos verdes se iluminam no rosto dela, e ela deixa escapar uma risadinha de baunilha.

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2 Comentários on "Itinerário"

  • Paulo diz

    Mano, como uma risadinha de baunilha cairia bem agora!

    Zé, mandou bem. O texto corre bem e a atmosfera dele ficou muito legal.

  • diz

    Rapaz, estou esperando a tal risadinha há muito tempo… para compensar meu riso sardônico… para rir de outra coisa que não eu mesmo…

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