A Remark You Made

Começou com uma troca de olhares no corredor, feliz e inesperada, dois destinos atados irremediavelmente por um único entrelaçar de retinas. Depois, foi o difícil trabalho de aproximação, horas gastas no planejamento de coincidências, até conquistar o direito da primeira conversa, então outra, e outras mais, cinco, dez, quinze minutos, e sorrisos cada vez mais sinceros. Seguiram-se os trajetos de ônibus compartilhados, as pequenas atenções do dia-a-dia, uma bala, um cartão, um livro, a descoberta de gostos e interesses. Já não se escondiam atrás do acaso, marcavam hora para se encontrar, esperavam um ao outro na porta da sala. Um longo ritual para contornar as convenções sociais e os medos de cada um, e retornar enfim à franqueza do primeiro olhar.

O convite não poderia surpreender a nenhum dos dois, veio espontaneamente, inserido de modo natural na seqüência dos acontecimentos. Várias vezes durante o dia, confirmaram novamente o encontro, não pelo temor da desistência, mas pela alegria da antecipação. Antes da hora marcada, ele esperava no pátio em frente à biblioteca, sem impaciência. Sobre o banco as pernas cruzadas, sobre as pernas um volume de contos, que suplicava em vão para ser lido. Enquanto seus olhos percorriam as páginas sem vê-las, o pensamento se fixava na figura esperada, que finalmente despontou na saída ofuscando tudo que a cercava. Unidos num abraço mais do que amigo, cada um sorvia para si o aroma do outro.

Conversavam com evidente euforia, falavam sobre tudo, as aulas, os professores, a pragmática do discurso, a fonética das sibilantes na língua alemã, a poesia pré-romântica do século dezoito e a prosa niilista do pós-guerra. Tulipas em vaso de barro. Chá ou café? Os assuntos de sempre, porém nunca haviam sido tão interessantes, serviam agora para fazer ouvir o som de suas vozes.

Os movimentos acompanhavam as palavras, e sem perceber já estavam no carro, decidindo onde iriam jantar. Rodavam pelo campus sem direção precisa, prolongando o prazer da companhia mútua, até chegarem ao topo da colina. Dali avistavam a cidade ao cair da noite, contavam o reflexo das luzes no rio, sentiam a brisa fresca entrar pelas janelas. Um arrepio quase simultâneo, e não saberiam dizer se foi por causa do ar frio, ou do calor que os tomava por dentro. Suas vozes se calaram, e os únicos sons que continuavam eram o canto do saxofone, as frases do piano, o murmúrio do baixo, dizendo que estava tudo em ordem. A cabeça dela encostou suavemente no ombro dele, como se esse fosse o seu lugar natural, de onde jamais deveria sair. Os longos cabelos escuros deslizaram pelo casaco, o braço dele envolveu as costas dela, enquanto ambos aguardavam em silêncio o beijo que não tinha pressa em chegar.

Joe Zawinul, 1977

com Weather Report em Heavy Weather

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4 Comentários on "A Remark You Made"

  • José Ignacio diz

    Texto inspirado na música instrumental do Zawinul cujo nome dá título à crônica.

  • malena diz

    estou sem palavras! q história tocante…deu uma vontade de q tivesse acontecido comigo!

  • José Ignacio diz

    Foi o que meu amigo Ícaro e eu pensamos enquanto saímos da USP de carro naquela noite fria e estrelada, ouvindo o Zawinul e lamentando a falta de companheiras. Tipo, eu até gosto dele, mas não queria a cabecinha dele no meu ombro!

  • José Ignacio diz

    A recíproca também é verdadeira.

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