Dr.Nhô

Uma aventura do agente Zero-Zero-Zé
por Iam Masficaram

“22, dois patinhos na lagoa!”. Como toda aventura de espionagem, esta começa num cenário glamouroso. Um bingo em Ituverava, para ser mais exato. Aqui vemos os integrantes das altas rodas intermunicipais saboreando suas horas noturnas de ócio em atividades dispendiosas. Uma voz suave como sola de peão profere os números sorteados: ” 33, idade de Cristo!”.

Uma mesa é ocupada pelos figurões locais e seus convidados de honra. A câmera dá um close num par de mãos masculinas, uma segura um cigarro de palha, a outra coloca mais um feijão em cima do número proclamado. “Eita matuto di sorrrte, sô!”, sentencia um distinto senhor com a camisa aberta até o umbigo. Uma senhora elegantérrima sob sua viseira de plástico indaga: “Mai como cocê fai pá tê tanta sorrrte, ô… quar quié seu nome memo?”.

Sem tirar a haste de capim presa no canto dos lábios, ele responde: “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda”. A voz macia como lixa pronuncia mais um número: “24, o donzelinho!”. O forasteiro sortudo completa mais uma cartela. Despede-se de seus convivas com a adequação vocabular de quem
está acostumado à sociedade refinada – “Bas noite proceis!” – e sai do bingo carregando debaixo do braço o seu prêmio, um liquidificador de três velocidades.

O misterioso personagem se hospeda numa pousada rural à beira do córrego. Entra pela janela para despistar eventuais perseguidores ou cobradores de dívida. Precisa garantir sua segurança, afinal, tem uma missão a cumprir. Ele é o internacionalmente desconhecido agente Zero-Zero-Zé, a desserviço de sua majestade, dona Bete Rainha, viúva do coronel Tião Rainha, dono dessas terras todas até Santa Rita do Passa Quatro.

Trabalha para o MI 6, desserviço secreto de espionagem, assim chamado em virtude do tipo de operações conduzidas: MI dei mal, MI danei, MI ferrei, MI encrenquei, MI estrepei, Mi lasquei. No MI 6, 00Zé aprendeu a ter reflexos aguçados, essenciais para sua sobrevivência. É por isso que, depois de tomar banho na tina, cortar as unhas do pé e jantar uma buchada de bode, percebe que o vidro da janela do quarto foi quebrado. Sua inteligência fora do comum lhe permite relacionar os fatos: “Purisso qui num careci di abri a janela pá intrá!”.

No chão, um bilhete amarrado numa pedra. São as modernas tecnologias de comunicação do MI 6. 00Zé lê a mensagem assinada por sua secretária, Deiz Merréis. Está sendo convocado de volta à central por M, codinome do “Meu patrão”. Monta na sua carroça e parte feito corisco em direção a Pirassununga, onde o MI 6 tem sede (por isso se instalaram perto da fábrica de caninha). No tempo espantoso de três dias e duas noites, o veloz espião chega a seu destino.

Na central, instalada no subsolo de um recinto de rodeio, 00Zé arremessa o chapéu de palha num prego fincado na parede. Belisca a bunda de Deiz Merréis, numa demonstração do cavalheirismo irretocável que o caracteriza. Entra na sala do chefe, se afunda na cadeira de balanço e põe as botinas barrentas em cima da mesa, para desagrado do patrão: “Butina di pelica di novo, 00Zé? Eita coisa de frutinha!”.

M expõe o motivo da convocação. O desserviço secreto foi acionado para investigar o sumiço da Mimosa, vaca premiada da dona Bete Rainha, supostamente raptada pelo famigerado Dr. Nhô. “Nhô Bento o Nhô Tonho?”, pergunta o agente, exibindo seu excelente conhecimento das fichas criminais da região. “Nhô Portuno, aquei qui só atazana”, esclarece M. “Ai, chefe, nóis num pudia dizê qui u sistema tá Nhô Perante i isperá a pulícia cuidá disso?”. Uma chicotada na cadeira de balanço é a resposta de M, que o sagaz agente compreende sem delongas.

00Zé jamais sai para uma missão sem antes palitar os dentes e visitar o velho projetista Q, codinome de “Que trem é esse?”. Para esta missão, Q apresenta seu novo equipamento: um kit com quatro ferraduras. O espião exclama, com toda sua fleuma caipira: “Que trem é esse? Pra dá sorrrte?”. “Nada, procê carçá o jegue”. De fato, mais um invento extraordinário. “Pudia pegá imprestada as do Dr. Nhô!” murmura 00Zé, numa amostra típica do requintado humor interiorano que o notabilizou. “HAHAHA”, diz Q, deixando à mostra sua dentadura falha. “HOHOHO”, completa 00Zé, cuspindo de lado o fumo mascado, hábito refinado que o torna irresistível entre as damas.

00Zé calça o jegue modelo Z3 (Zureta, Zaroio, Zambeta) e o atrela à sua carroça. Não quer perder tempo. Velocidade é fundamental quando o futuro da roça depende dos agentes do MI 6. Por isso, depois de meio leitão à pururuca, quatro doses de pinga e um cochilo na rede, parte para cumprir sua missão. Em uma tarde, cinco noites e seis dias, está no sítio do Dr. Nhô. De longe vê o facínora sentado na varanda, alisando as penas de sua galinha de estimação.

00Zé chuta a porteira com toda a sutileza de estratégia que o distingue. Dr. Nhô, homem estudado, reputado por sua inteligência, compreende o que essa imagem quer dizer, sem precisar de mil palavras.Com um gesto, convoca seus jagunços estrangeiros (de Goiânia) que descarregam as
espingardas no intruso. 00Zé toma umas três salvas de sal grosso no lombo e foge numa carreira
abalada sem olhar para trás.

Após algumas horas de fuga, orientado por seu sistema GPS (Gaiato Perdido Sofre), dá com as fuças numa cerca de arame. Do outro lado, encontra a Mimosa em pasto aberto. Perspicaz como sempre, 00Zé conclui que ela não foi raptada coisa nenhuma, saiu foi pra comer a grama do vizinho, que, como se pode constatar na cena do crime, é sempre mais verde, informação que o agente transmitirá a sua secretária Deiz Merréis para ser incluída nos arquivos do MI 6.

Missão cumprida. 00Zé retorna à central, onde o aguarda a admiração de Deiz Merréis (cuja bunda ele belisca). Ela avisa: “Agora ocê vai vê o M”. “Meu patrão?”. “Nada, o Merrrthiolate memo!”. Ambos caem na gargalhada diante dessa tirada espirituosa, típica da finesse cabocla. M cumprimenta seu agente preferido e o informa que um prêmio lhe foi atribuído pelo seu desempenho formidável. Como recompensa, 00Zé recebe de Bete Rainha a Mimosa, o que prova que, no final do filme, esses heróis sem caráter ficam sempre com a vaca.

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5 Comentários on "Dr.Nhô"

  • Paulo diz

    Não só uma grande paródia, com muito ritmo e estilo, como uma obra edificante: tem até moral da história! :D

    Dei muita risada, mano. Muito bom!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Ituverava rules no mundo da espionagem!

  • Fantástico, fantástico. Quanta criatividade!

  • Van diz

    Não só dei muita risada, como tb dividi o divertimento. Mandei pro meu pai lá em Ribeirão Preto e ele adorou :) Identificação de caipira! Parabens!!! Van

  • EU diz

    po sensacional esse texto, muito bom, espero avido em ver as aventuras do agente mas sagás e caipira do mundo

    o 00Zé

    realmente esses textos são uns dos melhores do site.

    dali 00Zé(esse nome foi genial!!)

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