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Bodega - (28-07-2005)

Leu a última linha, segurou a caneta no ar a meio caminho do papel:

- Mas nós vamos fazer isso mesmo?
- Claro, Morsa! Não tá vendo? Todo mundo assinou!

Contou as assinaturas, Lambuja, Birosca, Ralé, Batata, Martelo e Lesado. Com os nomes verdadeiros, claro, e sobrenomes completos. A turma toda, sem faltar um. Só o Tinho ficou de fora, por motivos óbvios. No rodapé de cada página, brilhava o selo holográfico, “Oficial de Registro do 34º Subdistrito”, mais dois carimbos, “Testemunho e dou fé”, bel. Olegário Mariano dos Santos etc.

- Sempre neste mesmo dia?
- É, igual hoje.

A esferográfica percorreu mais alguns centímetros em direção à folha, parou. O Morsa aproveitou para olhar os amigos no rosto, um por um. As risadas de sempre.

- Assina logo, Morsa, só falta você!
- Mas por que “Bodega”?
- E por que não?
- Não tinha outro nome?
- Sei lá, o que importa é que a gente vai estar junto, vai beber, conversar…
- Todo ano?
- É, aqui, neste mesmo lugar, todo ano, neste mesmo dia!

O Morsa releu mais uma vez o estatuto da associação, entidade privada sem fins lucrativos, constituída nos termos dos arts. 53 e 54 do Código Civil, com o nome de “Bodega”, cuja sede situa-se na Capital etc. e cuja finalidade etc. da qual são membros fundadores etc. as deliberações serão tomadas etc. estando assim acordadas e decididas conforme as cláusulas acima, as partes etc. Assinou. Urros de aprovação da turma.

- Vamo bebê pra comemorá!

O tempo passou, o ano acabou, eles se formaram, começaram a trabalhar. Às vezes se reviam na rua, por acaso. Nessas ocasiões, o Morsa sempre lembrava os amigos da Bodega. “E a associação?”, riam juntos, “Não vai esquecer, hein?”. Mais um encontro apressado, cada um pro seu lado, adultescência ingrata.

Até que, depois de doze meses, veio o grande dia. Morsa fez a barba, tomou banho, vestiu camisa nova, saiu mais cedo para não se atrasar, chegou adiantado, escolheu uma mesa no fundo e pediu um chope enquanto esperava.

Esperou.

Esperou a noite toda, e nada da turma aparecer. Nem um só. O Morsa, porém, não se irritou. Tinha boa índole. A cada meia hora, inventava uma nova desculpa para explicar a ausência dos outros associados. É verdade que não era um começo muito promissor, mas todo mundo estava atarefado, os horários eram pesados, o trabalho cansativo, e depois cada um falta achando que todos os outros vão comparecer, é normal. O chope, pelo menos, era bem decente, e finalmente não é tão ruim ganhar algum tempo para sair de casa, relaxar, pensar na vida.

Logo superou o incidente, caiu de novo na rotina. Sua vida não tinha surpresas, a não ser o casamento, contrariando os prognósticos negativos que o espelho lhe dava. Foi feliz o bastante para esquecer a Bodega. Até abrir a agenda na página daquele mesmo dia, onde anotara meticulosamente o compromisso assumido. Enterneceu-se com as lembranças dos tempos de faculdade, explicou a situação para a mulher, e lá estava ele de novo, no lugar combinado, no dia marcado.

Voltou para casa sem ter visto ninguém, vestiu pijama, a mulher já estava dormindo, deitou-se do lado dela e tudo continuou como antes.

Envelheceu, perdeu cabelo, ganhou barriga. Mudou de trabalho, fez outros amigos. Durante o ano, sempre acabava esquecendo da Bodega, mas chegava o dia e lá estava o lembrete na agenda, sobrevivendo de um ano para o outro. Na falta do que fazer, ele ia. Os garçons já conheciam o Morsa, sempre sentado na mesa do fundo. O seu Jacinto, dono do bar, fazia questão de lhe oferecer a saideira. Foi ele que trouxe o telefone para o Morsa receber da filha a notícia do nascimento do primeiro neto.

O Morsa, que já era da casa, ficou abaladíssimo quando, ao chegar no dia de sempre, soube do falecimento do seu Jacinto. Para ele, era como alguém da família. A família de verdade estava lá, no caso o filho do falecido, tomando conta do lugar. Nunca saberia substituir o pai, era um boboca metido a moderninho, queria reformar o bar, trocar a decoração, botar TV em todos os cantos. Estava jogando fora os cartazes antigos, limpando as gavetas. O Morsa assistia desconsolado à memória de toda uma era que se apagava.

O filho do seu Jacinto se dirigiu a ele chamando-o pelo nome, perguntando se pertencia a ele um papel amarrotado, que deixou em cima da mesa sem esperar resposta. Ainda sem entender, o Morsa começou a desdobrar as folhas amareladas cujas bordas se desmanchavam. Duas lágrimas caíram dentro do chope. Era o estatuto da Bodega, o original, o único, que ele não imaginava que tivesse sobrevivido, guardado todos esses anos na gaveta do seu Jacinto! Tudo começou com aquele pedaço de celulose. Os carimbos desbotados, o selo holográfico rachado, as assinaturas quase ilegíveis, mas o compromisso ainda firme, que ele, só ele, apesar da ausência de todos os outros, mantivera todos esses anos, de retornar no mesmo dia em que assinaram o estatuto, todo mesmo dia do ano, conforme escrito ali. Todo dia primeiro. De abril.



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:: recomende :: comente este texto (4) ::
malena - cmalena@hotmail.com • 02-09-2005 04:11

QUE CRUEL!!!!!!!!!!!!!!!!!

coitado…

:(

Gabi - link - gabi_blanco@hotmail.com • 09-09-2005 03:29

Nossa, que bem escrito, surpeendente, perfeito!! Segura o segredo até a última linha, e é cruel e engraçado no fim. Perfeito!

Ricardo - link - ricardo@cronistasreunidos.com.br • 20-09-2005 01:11

Demais, Zé! Morsa, um legítimo Mamute! Cada um de nós tem um pouco de Morsa no coração! Parabéns!

José Ignacio - jicmendes@gmail.com • 21-09-2005 07:46

Morsas de todo o mundo, uni-vos!

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