Como Dar uma Notícia Triste

A Margarida e a Sílvia eram amigas desde pequenas. Em mais de quarenta anos de convívio quase diário, jamais houve segredo entre elas. Por isso, quando morreu o Betinho, marido da Aninha, uma amiga em comum, a Sílvia achou que devia dar a notícia antes de qualquer outra pessoa.

– Alô, Maggie? É a Sil. Como você está?
– Vou indo, na medida do possível, né.

“Ih”, pensou a Sílvia, “então ela já sabe”.

– É difícil, eu sei, continuou a Sílvia.
– Nem me diga.
– Mas a gente supera.
– Vai tentando… Quando chega assim, de repente, é sempre um choque.
– Por que de repente?, perguntou a Sílvia, intrigada.
– Ué, só fiquei sabendo dois dias atrás, bem na hora em que aconteceu.
– Mas Maggie, já fazia tanto tempo que ele estava assim…
– Como, tanto tempo?!

Agora era a Margarida que não estava entendendo mais nada. A Sílvia tentou explicar.

– Ah, Maggie, pelo menos uns três anos, né? A gente via o que estava acontecendo, o jeito como ele se comportava, a voz meio diferente…
– Que jeito? Que voz?
– Bom, não era nada decisivo, podia ser outra coisa, sei lá, talvez a gente não quisesse enxergar. Mas, depois, não tinha mais como negar. Principalmente depois daquela semana em que ele sumiu.
– Ai, não! Ele tinha falado que era uma viagem de negócios!
– Pois é, a gente também achava que era. Só que, na volta, a Aninha contou tudo em detalhes.
– Quem? Não acredito! A Aninha foi com ele?
– Ué, claro, Maggie. Pára de se fingir de tonta. É óbvio que a Aninha foi junto.
– E vocês nunca me contaram nada?!

A Sílvia percebeu que a Margarida estava chorando. De raiva.

– Olha, Sil, você podia ter me avisado, não? É o mínimo que você podia fazer, em nome da nossa amizade!
– Mas Maggie, todo mundo sabia!
– Eu não sabia, Sil, eu não sabia! E você, minha amiga, não me contou nada!!
– Por que eu ia ficar comentando? Só para piorar a situação do coitado? Se você não estava vendo, é porque é muito distraída mesmo. Não põe a culpa em mim!
– Ah, que beleza!! Coitado, ele? Então a culpada sou eu, agora? Todas minhas amigas sabendo que meu marido está me chifrando e eu sou a culpada?!
Silêncio, só soluços. A Margarida não conseguia mais falar, ofegante depois da explosão de fúria, abatida pela dor da notícia, sacudida pelo choro.

– Maggie…?

A Sílvia podia imaginar com toda clareza a expressão da amiga, o telefone encostado no ombro, o lenço molhado na mão, o olhar perdido na ponta do pé, sem coragem para reatar a conversa, e ao mesmo tempo querendo tanto saber como ela terminaria.

– Maggie, do que você está falando?, retomou a Sílvia, com a voz doce que sabia que a Margarida precisava ouvir. Que história é essa de chifre? O que é que o Plínio fez pra você?
– V-você a-acabou de f-falar que… t-todo mundo… s-sabia…
– Imagina, nunca ouvi falar disso. O que ele fez?
– E-ele me largou… Faz dois dias.
– Como assim… de repente? Você não estava percebendo nada?
– Nada… cheguei em casa e ele já… já t-tinha levado t-todas as coisas dele… ele f-falou que tinha outra…
– Credo, amiga… que horrível…

Outro silêncio. A Margarida ainda soluçava baixinho quando ouviu uma risada discreta da Sílvia.

– Ai, Maggie, desculpa… entendi… Eu nem sabia, não era nada disso que eu queria dizer.
– N-não?, fez a Margarida, voltando a si devagarinho.
– Nunca, ninguém sabia. Que horror… o Plínio… como pôde…
– Eu achei que você tinha escondido isso de mim todo esse tempo…
– Imagina, claro que não! A gente precisa se ajudar, nessas horas, mesmo se tiver que contar notícia ruim. Se amiga não fizer isso, quem vai fazer?
– Puxa, Sil, eu que peço desculpas… dei escândalo à toa… que bobeira… Sabia que podia confiar em você.
– Claro que pode! Que besteira! E a gente quase briga por causa disso!

A gargalhada de uma acabou de enxugar as lágrimas da outra e, passado o mal-entendido, as duas continuaram a ser as melhores amigas do mundo. A Margarida ficou tão aliviada que estava até mais alegre.

– Ai, ainda bem que não era nada… pelo menos ninguém sabia… só faltava mais uma notícia ruim para piorar… Sil, imagina como a Aninha vai rir quando a gente contar para ela! Somos duas tontas, mesmo. Mas, então, você ligou para que?
– Eu… a Aninha… enfim… era… ai, não… notícia ruim… Maggie, o Betinho… três anos contra o câncer… não resistiu…

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