Na Alegria, na Tristeza e no Chocolate

Somos feitos de memórias. Algumas amargas, outras doces. Para ser exato, algumas meio-amargas a 70% de cacau, outras ao leite.

Quando ela quis fazer ovos de chocolate para a Páscoa, eu participei, como acho que todo bom marido deve fazer. É certo que ela ficou com a parte mais difícil, que era fazer o curso sobre ovos de chocolate, comprar as fôrmas, os ingredientes, o papel alumínio e os papéis de embrulho, escolher e compreender as receitas, e finalmente executá-las. A mim coube a parte mais fácil, que era ficar ao lado dela dando apoio moral. Para me sentir menos inútil, ofereci-me para destroçar tijolos de meio quilo de chocolate tendo por único instrumento uma faca de cozinha, atividade que se mostrou muito mais extenuante do que parecia à primeira vista. Porém, agora que estava ajudando, não podia voltar atrás. Na alegria e na tristeza, dizem, mas ninguém avisa a respeito do chocolate. Percebi que meu casamento poderia depender da minha habilidade em desbastar três quilos do material, e tive sorte de desempenhar a tarefa suficientemente bem para que ela me amasse ainda mais.

Horas de luta contra as barras maciças, as mãos cobertas de chocolate derretido, lascas de chocolate por toda a mesa, e isso era somente a primeira etapa da cadeia produtiva, a extração da matéria-prima. Eu só fazia o serviço braçal, que é o máximo que um marido pode fazer na cozinha sem atrapalhar. A sofisticação era atributo dela. Recolhia as lascas que eu separava das barras, acomodava-as nas vasilhas, dispunha estas últimas numa travessa em banho-maria, mexendo constantemente com a espátula, avaliando a cor e a consistência da mistura, até chegar no ponto certo, em que as lascas desapareciam numa calda grossa e brilhante. Depois, despejava o chocolate derretido com cuidado, preenchendo exatamente o contorno das fôrmas, formando uma casca de espessura uniforme, sem derramar para fora, sem falta nem excesso. Deixava secar, desenformava e começava de novo. Era uma beleza, não tanto porque a atividade em si fosse tão interessante, mas principalmente porque ela era uma beleza, até mesmo com avental de cozinha, fazendo ovos de chocolate.

Assim atravessamos a manhã, passamos do meio-dia e entramos pela tarde adentro, para desespero do meu estômago, que ficou sem almoço e teve de contentar-se com nacos de chocolate branco, marrom e preto, que formavam montanhas em cima da mesa. Depois de horas a fio cercados de chocolate por todos os lados, cobertos de chocolate por todos os poros, descobrimos o desespero do artesão-chocolateiro, que não agüenta mais pensar em chocolate quando termina sua obra. Portanto, mal provamos o resultado do nosso esforço conjugal – minhas marretadas violentas nos tijolos de chocolate, e a arte paciente e delicada que ela empregou para fazer nascer coelhinhos e ovos de todos os tamanhos. De chocolate.

Na verdade, antes de ficar totalmente saturados provamos um de cada tipo, apenas para confirmar que os ovos recheados com maracujá ou coco eram irresistíveis. Praticamente todo o resto da produção foi escoado em presentes para a família, embalados um a um com esmero e laços de cor variada. Eu achei que os presenteados nunca deram aos nossos ovos o valor merecido. Só eu, que tinha passado um dia inteiro imerso em chocolate ao lado dela, soube estimar a grandeza do que ela fizera, a abnegação no planejamento, o carinho na execução, e por isso eu a amei ainda mais.
Agora que os ovos acabaram e nosso relacionamento também, fico pensando quantos talentos uma mulher pode esconder. A minha era uma artesã-chocolateira de primeira, ainda que o tenha sido apenas por um longo e cheiroso dia. Fico feliz por ter participado desse que foi um de nossos melhores momentos. Desde então, o tempo escorre lentamente como calda derretida, alegria e tristeza desaparecem, e ficam apenas as lembranças com sabor de chocolate.

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2 Comentários on "Na Alegria, na Tristeza e no Chocolate"

  • malena diz

    qdo comecei a ler o q eu não esperava era esse texto romântico. gostei! romance e chocolate são muito bons…

  • diz

    Combinação perfeita, né? O único defeito de ambos é que podem acabar um dia…

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