Nas Mãos de Mohammed

Mohammed é marroquino. Pouco mais de trinta anos, um tanto alto, magro, bem apessoado. Pele morena, rosto alongado e nariz aquilino. Fala francês com o sotaque característico do Maghreb, transformando os “eu” em “o”. Mohammed mora na França, em Gennecy, entre Gex e Ferney. Durante a semana, acorda todo dia às 4 horas da manhã. Já está acostumado, mesmo quando não trabalha levanta cedo. “Ficar na cama até tarde é coisa de preguiçoso”. Veste-se, come alguma coisa. Em dez minutos atravessa a fronteira, chega ao pátio da viação. Começa a trabalhar às 5h45, no verão já é pleno dia, no inverno ainda fará noite durante algumas horas.

Mohammed trabalha na Suíça, dirige o ônibus da TPG que faz a linha V, de Versoix em direção à estação ferroviária de Genebra. Vai e volta diversas vezes, sua jornada termina às 15 horas. Na saída, pega os dois filhos na escola. Prefere o turno da manhã, embora sobre pouco tempo, à tarde, para alguma outra atividade. “Mas é assim a vida”.

O melhor, para Mohammed, é ter um trabalho. “A gente vê tanta gente forte por aí, bem disposta, querendo trabalhar, e não tem emprego”. O pior período de sua vida foi há quinze anos atrás, quando ficou desempregado por oito meses. Passa mal só de lembrar. “Trabalhar é bem melhor”.

Pergunto se é muito difícil dirigir o ônibus. É um articulado, mais de vinte metros de comprimento. Mohammed é modesto. “É, é difícil, mas qualquer um pode aprender. É como pilotar um avião, eu não sei, você não sabe, mas a gente pode aprender. Sabe, as pessoas são inteligentes, a gente ensina, elas aprendem”. A empresa tem um período de treinamento, e só emprega motoristas com experiência. “Tem que ter trabalhado em companhia boa, ter ficha limpa, se você foi demitido eles vão perguntar por que, aí não pega bem descobrir que você provocou acidente, xingou o chefe, coisas do tipo”.

Dirigir um articulado não é óbvio. O motorista precisa saber a posição de cada uma das seis rodas a cada momento, planejar a trajetória de cada curva. “O pessoal com experiência consegue calcular a posição das rodas com cinco, dez centímetros de precisão. Passam entre duas fileiras de carros estacionados sem piscar”. Para fazer isso, não podem dar um toque sequer na direção, senão a rabeira do ônibus pode oscilar e atingir os carros.

Outra dificuldade é a aceleração. Num veículo desse tamanho, nem pensar em frear bruscamente. “Você imagina, oitenta, cem passageiros, muita gente de pé, se eu dou uma brecada de repente e voa todo mundo, é um acidente feio!”. Faz parte da habilidade do motorista antecipar constantemente a desaceleração. Os passageiros nem sentem que ele está reduzindo a velocidade. “Quer ver, vou mostrar. Agora vou frear como a gente tem que fazer”. Imperceptível. Nenhum ruído, nenhuma sensação de inércia. “Se segura, que agora eu vou mostrar o que acontece se eu der uma freada brusca”. A essa hora da manhã, sou o único passageiro que sobe no ponto inicial. Tenho direito a uma demonstração prática. “Apoia os pés no banco da frente!”. Um pisão no breque, minha pasta voa através do corredor, o choque é violento. “Viu? Isso porque a gente estava só a 40 por hora. Imagina se estivesse com o ônibus lotado, descendo a avenida no embalo!”.

Mohammed sabe o que faz. Continua a achar que não é difícil. Mas eu me permito discordar. Agora, todo dia, no trajeto para a cidade, admiro sua arte suave de dirigir o articulado. Ele é, à sua maneira, um sábio.

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5 Comentários on "Nas Mãos de Mohammed"

  • van diz

    Zé,

    gostei do texto. É muito legal saber que é de verdade :) beijos, van

  • van diz

    Sei que a maioria dos textos dos cronistas tem toques autobigráficos, mas este é direto. Fiquei imaginado vc conversando com o cara… COOL!

  • diz

    Autenticidade à toda prova! Descobrir o que as pessoas têm a dizer é um dos grandes baratos da vida. Se podemos contar isso por escrito, melhor ainda!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Zé, muito bacana!

  • Demais, Zé! parabéns! Sensível no ponto certo. Humilde e inteligente de maneira louvável! Demais!

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