Ponto de Fuga

Céu aberto acima da Beócia. A foz do Sperhios morre no mar, perto de onde nasceu Aristóteles, enquanto a ilha de Eubéia continua indiferente a tais espetáculos. O avião, sem metafísica, se inclina para a esquerda e toma a direção noroeste. Queria eu poder mudar de rumo com tanta segurança.

Uma explosão, e outra. Mesmo carregado de dinamites, o gato Tom não morre, corre novamente para pegar o rato Jerry. Invulnerabilidade de dar inveja. Tiro da mala o guia de viagem e procuro o mapa. Avisto agora o monte Othris, muito prazer. Mal temos tempo de nos apresentar, desponta o monte Pelion, atrás dele o monte Ossa. Espero não confundir os nomes, seria tão indelicado.

Sem consideração nenhuma pela etiqueta, o Airbus me priva da companhia dos recém-conhecidos e me arrasta pela planície da Tessália, de longe vejo a cidade de Larissa. De que adianta Platão dizer que se pode chegar a Larissa de várias maneiras, se nosso relacionamento terá de ser tão fugaz? Tantas promessas, uma única ruptura, o jogo de gato e rato se repete incansavelmente, e sempre usamos a boa desculpa de que o destino nos leva para outro lado.

Não me preocupo, pois um sonho de grandeza poderá apagar todo remorso. Serei Olimpo, pico mais alto da Grécia, e do alto dos meus 2917 metros ambicionarei ultrapassar as nuvens, cobrir-me de neve e hospedar os deuses. Se não conseguir ser feliz, acreditarei que estou acima de quem não me quis, e farei girar a roleta dos continentes.

Fui sorteado! Sigo para oeste-noroeste e passo por cima da cadeia montanhosa do Pindo, falta pouco até o mar Jônico. Então surpreendo a todos com uma guinada para o norte, chego à fronteira com a Albânia, instalo-me à beira do mar Adriático, na linda baía perfeitamente circular com vista para Tirana. E não deixo que ninguém pilote minha vida.

A uma altitude de cruzeiro de 11.000 metros, quem se atreveria a contradizer minhas decisões? São racionais e acertadas, tomadas friamente, como convém à temperatura externa de 60ºC negativos. Se alguém não gostar, pode se juntar aos imigrantes clandestinos, lançando-se da costa albanesa em botes precários. Das pequenas ilhas alongadas como a esperança, a Itália parece tão próxima, a felicidade mais ainda. Todavia, entre trabalhar no restaurante e ser comido pelo peixes, o cardápio do destino parece cada vez menos apetitoso.

Ainda bem que sempre haverá uma TV para liquidar a angústia. Posso escolher câmera frontal ou ventral no meu transmissor individual, e assumir a personalidade que mais me convém, aviador ou gaivota. Recompensa: a costa da Croácia, muitas montanhas altas, baías de cor cinza clara e uniforme, a ilha de Krk. Se do alto não se vêem fronteiras, tampouco aparecem os problemas.

Tudo seria tão mais fácil se eu pudesse somente seguir a rota que traçassem para mim. Com tantas perguntas a menos, teria tempo de sobra para contemplar Veneza, jóia incrustada no mar, e repousaria despreocupado até ouvir “Willkommen in Zürich”. No entanto, minha posição se assemelha mais aos Alpes italianos de pedra muito escura, aos cumes escarpados cobertos de neves eternas a perder de vista, sem um único lugar plano onde descansar.

Então devo parar de reclamar e pensar que a cada nova tentativa serei mais experiente. Do idílio mediterrâneo à decepção transatlântica, o que muda é só a distância. Calejado, passarei sem pestanejar pelas Canárias, por Cabo Verde, sete horas de oceano me parecerão mero intervalo. Terei a sorte de emocionar-me ao dobrar a esquina do Brasil, por cima da cidade de Natal e de suas dunas brancas. Mesmo do alto, saberei que existe um consolo ao voltar para casa, eu familiarizado com esse continente que não conheço, o enorme rio São Francisco e a costa clara no horizonte, Baía de Todos os Santos que vieram me receber, Salvador que me resgatou quando precisei, sua foz, suas ilhas, alegres em me ver.

De presente ganharei uma imensidão de terras planas, que bordarão para mim o quadriculado dos campos com cidadezinhas nas intersecções, as plantações em forma de triângulos e trapézios, enfim vales e riachos para acrescentar linhas curvas. Sob essa colcha me abrigarei de um mundo grande demais para meus medos, pequeno demais para minhas ambições, cruel demais para meus amores. Mas dormirei com um olho aberto, pois a terra é redonda, e nunca se sabe se quem ficou para trás voltará lá na frente.

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1 Comentário on "Ponto de Fuga"

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