Da Roça com Amor

É madrugada no pesqueiro Maeda, um dos mais famosos pesque-pague do interior. Um ganso avança sobre a água com a graça que lhe é própria. De súbito, destaca-se da superfície barrenta do lago, eleva-se às alturas sem bater as asas, e o espectador percebe que se trata de um disfarce. Por debaixo do ganso, está o internacionalmente desconhecido agente Zero-Zero-Zé, a desserviço de sua majestade, dona Bete, rainha da festa do caqui de Itatiba. 00Zé desamarra as patas da ave atadas com barbante sob seu queixo, e o animal alça vôo lançando os grasnados peculiares de sua espécie. Num mesmo movimento, nosso herói leva a mão ao pescoço e vai abrindo o zíper de sua roupa de mergulho, revelando por baixo dela seu corpo nu. Afinal, o velho truque do fraque por baixo da roupa de mergulho está ultrapassado, e o bom espião sempre inova.

Nesse momento, a única proteção de 00Zé contra a indecência é uma sunga de crochê tricotada por sua devotada secretária Deiz Merréis. Mas o desserviço de sua majestade exige sacrifícios, que o bom agente não hesita em fazer. Sem pensar trinta e cinco vezes, começa a desatar a sunga, inteiramente trançada num único fio de cobre, que ele desenrola com mãos habilidosas de matuto acostumado a enrolar cigarros de palha. Finalmente, insere uma extremidade do fio no artefato explosivo previamente instalado nas dependências do pesqueiro por um espião infiltrado do MI 6. Afasta-se segurando as partes (da bomba) e, a uma distância segura (três décimos de légua, segundo o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região), aciona o detonador, provocando uma autêntica explosão de Itu.

Soa o alarme. Patrulheiros de pedalinho se lançam ao lago. “MI lasquei!”, exclama 00Zé, fiel à sigla do desserviço secreto de espionagem. É hora de decisões rápidas, para não comprometer o sucesso da operação. Nosso espião dá mostras do sangue frio que o caracteriza, até porque ficar pelado para fora de casa no meio da madrugada não esquenta muito. Depois de rodar em círculos com as mãos na cabeça, tropeçar nuns cinco barcos de pesca e proferir blasfêmias em dialeto local (“Diacho!”, “Disgrama!”), nosso agente pula uma cerca de madeira e toma o caminho da roça. Missão cumprida. Sobe o letreiro inicial do filme, toca a canção emblemática interpretada por Inezita Barroso com emoção ímpar e sotaque irretocável: “Da roça com amorrr”.

Após mais esse feito, 00Zé retorna ao quartel-general do MI 6 em Pirassununga, cidade onde os bandidos são detidos pela cana (de açúcar). Deiz Merréis o recebe com o afeto de sempre e pergunta quais foram suas impressões da última missão. “Eu mesmo num posso vê, mas tenho a impressão qui vai arrrdê, purque mi ralei todo o traseiro naquela cerrrca marrrdita!”. Ambos caem na gargalhada com mais essa tirada sutil, característica da dolce vita interiorana. Como o traseiro de Deiz Merréis não está ardendo, 00Zé aplica-lhe um beliscão igualmente sutil antes de entrar na sala de seu chefe M, também conhecido como “Meu patrão”.

“Tarrrde, chefe!”, lança o agente. “Tarrrde memo, num guentava mais ispera ocê, 00Zé, já me atrasei pro carrrteado na delegacia. Carece nem di sentá quieu vô ixpricá tudo na carrera e picá a mula”. Fazendo valer o poder de síntese que o distingue, M revela o plano insidioso que chegou aos ouvidos dos informantes do MI 6: uma organização criminosa desconhecida pretende instalar redes em todo poste, todo mourão, toda árvore da região, para causar um surto de preguiça nos habitantes e paralisar a economia rural. As perspectivas são sombrias. Toda a roça poderia ser condenada a uma soneca sem fim. 00Zé capta a gravidade da situação com sua perspicácia incomum: “Dureza, chefe, si os hómi botá rede im poste num vai tê sombra”. Ao que M retruca: “Craro que não, seu jumento! O pobrema é qui, si nóis num consegui acordá pra comê, a sesta num vai tê graça ninhuma!”.

Munido dessas preciosas informações, nosso herói parte agora em busca dos equipamentos necessários para a realização de mais uma missão arriscada. Como de praxe, ele os encontra no laboratório do velho projetista Q, cujo codinome provém da indagação proferida pelo destemido agente a cada vez que toma conhecimento de suas invenções. “Que trem é esse?”, exclama 00Zé ao receber de Q uma tesoura de unha, “Pra corrrtá as corrrda das rede?”. “Nada, procê corrrtá essas unha cheia di terra qui tá feia qui dá dó!”.

Nosso agente não despreza o conselho de Q. Faz sua toalete, ingere uma feijoada majestática, digere durante umas cinco horas e parte salvar a roça. No entanto, as dificuldades são maiores do que ele imaginava. Mal vê a primeira rede e já se deita. Os temores de M se confirmam. Se nem mesmo o maior espião do interior resistiu ao ardil inimigo, nenhum habitante da região conseguirá se levantar, nunca mais!

00Zé está quase cochilando quando seu traseiro (ainda ardido) atinge o solo com violência. Ele levanta a aba do seu chapéu de palha e percebe que está sentado no chão. Sente no cangote um bafo familiar. Vira-se e depara-se com um focinho úmido, igualmente familiar. Por trás do focinho, identifica a pelagem malhada de sua vaca de estimação, que o seguiu do episódio anterior até aqui. A Mimosa! Ela havia comido as cordas da rede e libertado nosso herói de um torpor invencível. Ao se levantar para afagar o pescoço da vaca, ele repara que todas as redes no caminho foram deglutidas. Todos os postes, mourões e árvores estão livres da terrível ameaça. As mandíbulas da Mimosa, das quais pendem ainda alguns fiapos, executam o característico movimento lateral de ruminação, enquanto ela olha para nosso agente com seus olhos ternos de bovino.

Resolvido o problema, nosso herói tem pressa em fazer um retorno triunfal montado no lombo da Mimosa. Aproveitando a viagem, faz um desvio pela rodovia Castello Branco para comprar três goiabadas cascão, um queijo fresco e seis potes de doce de leite no rancho da vó Stella. A operação lhe rende elogios merecidos do seu chefe M: “Ainda bem, nóis já tava careceno di sobremesa aqui no QG!”.

Em agradecimento à Mimosa, várias estátuas coloridas de vacas foram erguidas nas grandes cidades ao redor do mundo. “Por que botaro o nome nelas di Cow Parade, chefe?”, pergunta 00Zé a M. “Óbevio, se fosse Andande elas ia tudo sair do lugarrr!”. Justa homenagem que nos faz lembrar que tudo acaba por causa de uma vaca.

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2 Comentários on "Da Roça com Amor"

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Ituverava MASTER!

  • Gabi diz

    Céus!Quanta criatividade!

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