Golden-UAI

Uma figura misteriosa corre pelas vias subterrâneas do MI 6, o famoso desserviço secreto de espionagem, rumo à sala de conferências. Abre as portas com estrondo, atraindo a atenção dos figurões reunidos em volta de uma lousa escolar, na qual M, que atende igualmente por “Meu patrão”, acaba de traçar complicados gráficos. O agente 00Zé – sim, é ele mesmo – está atrasado, e procura evitar os olhares severos demonstrando interesse pela reunião: “Isso aí é nosso plano de ação, chefe?”, pergunta, apontando para a lousa com o palito que segura entre os dentes. “Nénão, é a tabela da série B do Brasileirão, nóis tamo fazendo um bolão pra apostá si o XV de Piracicaba vai sê rebaixado”. As altas autoridades lançam suas apostas e M incumbe 00Zé de ir até a casa lotérica mais próxima fazer os jogos na Loteria Federal. Na saída, M chama seu espião predileto de lado: “No caminho da lotérica, vê si ocê discobre arrrgo sobre um tar de Golden-UAI”. “Golden-UAI? Que trem é esse?”. “Pois é, ele qui vai te dá a resposta”.

Assim, nosso herói vai procurar o velho projetista Q, inicial de “Que trem é esse?”. Ele o informa que Golden-UAI é uma arma secreta estrangeira, trazida do Estado de Minas disfarçada num treminhão de soja, e que consiste num lampião a laser com poder destrutivo inimaginável. Os mineiros pretendem apontá-la sobre a Avenida Paulista utilizando-a como ameaça para exigir a anexação do Estado de São Paulo e a proibição de todas as piadas sobre mineiros. “Afe”, exclama nosso agente, “agora parece qui os minêro num qué mais comê quieto, não!”. “Pois é”, adverte Q, “si eles usa o Golden-UAI ni nóis, vai sobrá só os sapatinho! Mai num si prôcupa não, qui eu já pensei numa solução”. Abrindo seu sorriso desdentado, Q entrega a 00Zé um invólucro contendo dois diminutos cilindros de borracha. O sagaz espião compreende logo: “A borracha é pra cortá a transmissão elétrica do baguio, cerrrto, Q?”. “Nada, isso aí é um protetô d’orêia procê num ficá surdo ca ixprosão!”.

Sem palavras diante de tamanha consideração pela sua pessoa, nosso herói parte como um raio, tendo levado apenas quatro horas para engraxar e polir suas botinas de pelica. Astuto como ele só, não leva mais do que a tarde inteira para deduzir que o treminhão no qual está escondida a arma letal está provavelmente estacionado à beira da estrada.

Quando chega ao primeiro posto de gasolina na rodovia Anhangüera, já é de noite, breu de lua nova. Aproximando-se da traseira de um dos caminhões estacionados, 00Zé risca um fósforo para iluminar o caminho e estudar o terreno antes de proceder à atividade de espionagem, que domina com maestria. Depois de queimar os dedos em três fósforos sucessivos, apanha o lampião dependurado no veículo. “O dono num vai si imporrrtá di colaborá co MI 6, né?”.

Então ele lê, na borda do artefato, a inscrição: “GOLDEN-UAI. Manipular con precaución. Hecho en Paraguay”. A chama se torna cada vez mais oscilante à medida em que nosso agente começa a tremer feito vara verde. O mostrador indica 015 segundos. Enquanto 00Zé se pergunta o que fazer, os números vão decrescendo. 014 segundos. Ele tira o vidro do lampião. 013 segundos. Percorre com o olhar todos os fios coloridos. 012 segundos. Fica nervoso com o tique-taque do relógio. 011 segundos. Começa a suar em bicas. 010 segundos. Assopra a chama do lampião. 009 segundos. Cospe na chama do lampião. 008 segundos. Vira-se de costas, agacha-se, põe os protetores de ouvido e prepara-se para o pior. 007 segundos. Um assovio. E, inexplicavelmente, a bomba pára.

Nosso herói se reergue lentamente, conferindo se cada parte do seu corpo está no lugar certo. Tirando o fedor de mijo, tudo perfeito. Sem aguardar esclarecimentos, 00Zé recolhe a arma desativada e retorna em direção à central em velocidade máxima, parando apenas sete vezes no caminho para cochilar debaixo de uma mangueira ou encher o bucho no Frango Assado. Ao chegar, lamenta-se com Deiz Merréis:

– I agora, cumé quieu vô ixpricá?
– Mas ixpricá o que, hómi?
– Ai, num tem como ti dizê, Deiz Merréis, ocê qui é moça di famia qui eu respeito tanto. As palavra mi farrrta.
– Isso eu sei, tonto, é a emoção di mi vê! Mais pode pedi qui eu sei qui vô respondê “sim”!
– Num é procê não, é pro M.
– Pro “Meu pai”?
– Não, o M “Meu patrão”, memo.
– Credo, ocê vai pedi ele também em casório?
– Não, sua xucra, ixpricá como acabô a missão. Ocê num tem como mi arranjá um dicionário, não?

Ela atende seu pedido e o observa desapontada enquanto ele folheia as páginas do pai dos burros (o que nos leva a concluir que todos no MI 6 são filhos ou do Aurélio ou do Houaiss). Deiz Merréis fica puxando cada trança com uma mão, como se fossem penduricalhos de cortina, e murmura desenxabida: “Ocê tem cerrrteza qui num qué pedi mais nada pra mim, não?”. Acabrunhado, nosso agente deixa a secretária sem resposta (mas não sem um beliscão na bunda), e entra na sala do chefe.

Fazendo valer ao máximo a auto-confiança que o notabiliza, ele se senta na borda da cadeira de balanço, olhando para o chão ao mesmo tempo em que rói as unhas e torce os pés. Depois de quinze minutos nessa posição altiva, atrai a atenção do clarividente M, que compreende rapidamente o que está acontecendo:

– Veio aqui di novo pra usá o meu mictório, 00Zé?
– Nada, patrão, tô é mi torrrceno di nerrrvoso, memo!
– Nerrrvoso di que, hómi?
– A bomba, patrão!

Do alto de sua experiência, M percebe que a situação é grave e exige uma resposta ponderada:

– Afagá muié casada dá nisso, 00Zé, agora vô tê qui descê chumbo em mais um corrrno!
– Não, patrão, dessa veiz foi a bomba di verrrdade!
– Vixe! Foi a muié do prefeito?
– Não, aquela di Minas.
– Tá quereno arranjá intriga internacional pra nóis, 00Zé? Nóis num ti paga viage procê ir forrrnicá nos ôtro Estado!
– Patrão, mi ôve pelamordedeus, foi a bomba di verrrdade, Golden-UAI, qui veio di Minas, qui ia ixprudi co nóis tudo, e eu disarrrmei.

M abre um sorriso de satisfação, levanta-se e chacoalha a mão direita de 00Zé com veemência: “Esse é o meu minino! Num sabe ixpricá as coisa direito, mais trabaia quié uma belezura! Pur isso quieu falo qui ocê é meu agente preferido, 00Zé!”. Encabulado, nosso espião tenta segurar suas calças com a mão esquerda, para evitar que elas caiam enquanto M sacode sua mão direita. “Mas, patrão, quem disarrmô mesmo a bomba foi o flato”.

Ao sair da sala do chefe, 00Zé coloca o dicionário na mesa de Deiz Merréis, olha para ela triunfante e exclama:

– O qui seria de mim sem ocê, minha forrrmosura! O seu dicionário sarrrvô a minha vida!
– Ai, Zé, qui assim ocê mi deixa toda enverrrgonhada! Quiqui foi quieu fiz?
– O M acabô di mi promovê, meu bijuzinho! Disse qui eu sô o agente preferido dele, qui resorrrvi um pobrema pra lá di cabeludo, qui mostrei muita iniciativa i competência montano minha própria equipe, i qui daqui pra frente posso chamá o agente F sempre qui quisé!

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1 Comentário on "Golden-UAI"

  • Van diz

    Zé, vc me mata de rir! Como é que vc consegue 00Zé consegue ser tão um caipira tão legirtimu??? beijo :)

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