Natal

Conheceram-se num seminário que a empresa organizou em Búzios.
– O que você está achando?
– De só ver a praia pela janela?

Casaram-se logo em seguida. Primeiro, cada um voltou para sua cidade para buscar as malas. Daí tiveram que decidir onde morar.
– Se a gente ficar em Campinas, vai ser mais fácil para papai e mamãe nos visitarem.
– Por isso mesmo. O que você tem contra morar no Acre?

Depois de alguns meses, chegou o primeiro final de ano que passariam juntos.
– Querida, já que você está só procurando emprego e cuidando da casa, pode comprar todos os presentes?
– Vou te dar apenas uma chance para dizer que isso foi uma brincadeira de mau gosto.

E lá estava ela na loja com uma lista que batia no joelho.
– Isto não é uma família. É um bairro.

Todos os nomes divididos por categoria – “tias”, “tios”, “primas”, etc. – com a respectiva idade. Pelo menos tinha que reconhecer que ele era organizado. Para não dizer generoso. O problema era carregar a tralha toda.
– Por que ele acha que todos os cunhados querem um jogo de pneus?

É nessas horas difíceis que um casal aprende a fortalecer a relação.
– Querida, para te ajudar, fiz uma nova versão da lista com as cores preferidas das irmãs da minha avó Lurdinha.

E nenhuma dificuldade resiste a tamanha união.
– Onde nós vamos guardar tantos presentes?
– Eu falei que você tem sapatos demais. Depois reclama que o guarda-roupas tá cheio.

Depois de semanas de esforços, chegou finalmente o dia de visitar a família.
– Querida, o cara do frete falou que não tem mais espaço na Kombi.
– Não quero saber! Não vou ficar cinco dias sem meu secador!

A viagem foi cansativa, mas compensada pelo conforto de chegar ao lar e ser recebida no seio da família, reunida para a ceia.
– Como assim, não tem lugar pra ela na mesa?
– Também, você casa e nem avisa.

Todos partilhavam do espírito de fraternidade e compreensão…
– Faz tempo que a mulher do Jonas tá chorando no banheiro, né?
– A feinha? Deve estar grávida.

…da alegria das refeições em comum…
– Ih, todo mundo trouxe farofa?
– Cadê aquele folheto da pizzaria?

…do calor humano…
– O ventilador quebrou? De novo?

…do sentimento de gratidão.
– Já tive uma blusa igual a essa. Dei prum pobre.
– Pelo menos dá pra reaproveitar o papel de embrulho.

Era Natal! No ar, ficava aquela mensagem de renovação e otimismo.
– Não desanima, querida. No ano que vem vai ser mais fácil.
– Vai mesmo. Te mando um cartão de Búzios.

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1 Comentário on "Natal"

  • Verônica diz

    hahaha. Muito bom. Adorei. Parabéns!

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