A roça não é o bastante – Episódio 1

Segunda-feira em Piracicaba. O agente Zero-Zero-Zé está tirando férias merecidas em sua residência de campo – por sinal, a única que ele tem. Uma hora e meia depois de abrir os olhos, ele finalmente acorda quando escuta o locutor da rádio Difusora ler o seguinte epitáfio:

“Otávio Assis Moura deixou ontem o mundo da arte. Não voltará, porque morreu. Tavinho, como era conhecido, foi vítima de complicações decorrentes de embolia, diabetes, câncer de pulmão, cirrose e dois tiros na testa. Para os amantes da música instrumental brasileira, o lendário saxofonista foi o maior de todos. Seu colega de noite e de profissão Zeca do Trombone havia dito dele: ‘Tem o que todo mundo faz. Tem o que ninguém faz. E tem o que o Tavinho faz’. Venerado no meio, também era apreciado à direita e à esquerda. O produtor de discos Carvalhosa, da tradicional casa Odeon, declarou que sentirá sua falta: ‘Nunca mais vou ganhar de alguém no pôquer com tanta facilidade’. Foi um enterro de caixão lacrado para aquele que tocava de olhos fechados – um mortal que será lembrado pelos sucessos que eternizou. Enquanto a banda tocava ‘Fim de noite’, muitas pessoas acompanharam os derradeiros compassos de Tavinho na Terra. A primeira ex-mulher, Soraia, e a segunda, Marlete, permaneceram caladas e impassíveis durante toda a cerimônia e se recusaram a dar entrevistas. A terceira, Daniéli, chegou na hora em que o caixão ia começar a ser baixado. Estava em prantos, vestida com roupas claras como quem vai à feira, e jogou na cova um buquê já murcho há muito tempo, deixando o local tão rápido quanto entrou. Um golpe de teatro final para concluir a trajetória de um homem que viveu e morreu no palco. Agora, é só uma pausa com fermata.”

Abalado com a notícia, 00Zé se lembra de que precisa regar sua samambaia. Vai para a varanda, espreguiça-se e contempla os pés de goiaba. Pega a mangueira e começa a encher o regador. Nisso, toca o telefone. “Alô”, faz o espião. “Blblblblblbl”, faz a mangueira na sua orelha. “Trimmm!”, insiste a campainha. Ele bota então a mangueira de lado, enxuga-se com a camisa do pijama e retorna à sala para procurar o telefone.

– 00Zé, aqui é M.
– Emengarrrdo?
– Não, coió, M de “Meu patrão”.
– E quem quié o seu patrão, chefe?
– Não, seu tonto, o seu “meu”, não o meu “meu”. Eu qui sô o patrão docê. Ouviu a notícia no rádio? Vai tê missão procê.
– Mai chefe, eu nem sô famoso, i além do que nem morri. Quem deve merecê uma baita duma missa é o tarrr de Tavinho.
– “Missão” de missão, não “missão” de missa, hómi. Nóis vamo te mandá pra Sum Paulo.
– Pra vê o enterro do sanfonista?
– Sacofonista, criatura. Fala cerrrto, sinão ocê fica pareceno matuto. Intão, acontece que a Bete Rainha era fã do Tavinho, e ocê vai tê qui discubri quem qui matô o defunto.
– Co todo respeito porrr voismecê, Meu patrão, mai num era mió tê discuberrrto isso antes do dito cujo virá presunto? Agora já foi pras cucuia.
– Num questiona, 00Zé, é orrrde superiorrr. Vem logo pra cá pegá as passage.
– Passage de quê? Eu num vô ca Mimosa não?
– Craro qui não, fidedeus, onde qui ocê ia estacioná ela lá em Sum Paulo?
– Mai chefinho, o meu primo, que tem o sogro dele que já foi pras banda de lá, disse que na cidade tem vaga até pra demente.
– Demente é ocê, criatura! Tem vaga pra deficente. Pra deficente, não pra ruminante! I onde cê acha qui ela ia consegui pastá? Na carrrçada?
– É qui sem ela vô me senti sozinho pra daná. Nunca fui pra capitarrr.
– Purisso memo. Ninguém lá te conhece. É ocê o agente perfeito pra investigá o caso.
– Mai, chefinho, eu num sabia que o MI 6 também tinha que trabaiá na cidade. A roça não é o bastante?
– Eita, e ocê num sabe que Sum Paulo faz parte da Grande Itu? É quase a mema coisa que no interiorrr, só tem uns prédio a mais. Agora chega de enrolação e vem pro QG imediatamente!

Para 00Zé, imediatamente é imediatamente. Assim, depois de desligar o telefone, pentear os cabelos, fazer a barba, cortar as unhas, lustrar as botinas, provar uma caninha, saborear uma galinha assada, palitar os dentes e tirar um cochilo de cinco horas, nosso herói chega a Pirassununga no final do dia, montado no dorso da sua companheira de aventuras, a vaca Mimosa.

– Deiz Merréis, meu docinho, cadê o M?
– Cabô di sair pra sinuca. Pediu pra entregá isso aqui procê.

Deiz Merréis, a secretária de M, entrega ao nosso agente um envelope contendo os bilhetes para a viagem. 00Zé despede-se dela com o costumeiro beliscão na bunda (trejeito que fez sua fama de galanteador), e depois procura um lugar onde a Mimosa poderá aguardar seu retorno em segurança, aninhada num monte de capim.

– Que trem é esse?, exclama Q, o velho projetista, cuja inicial significa exatamente “Que trem é esse?”.
– Trem não, é a Mimosa, corrige 00Zé. O M disse qui ela num pode ir comigo pra capitarrr, então vô deixá ela abrigada aqui. Tem arrrgum pobrema, Q?
– Que isso não se torrrne um hábito, Zero-Zero. Dispois vem aqueles alucinado do Dábo-Dábo-Éfi falá qui nóis marrrtrata os animarrr de laboratório. Desta vez passa, até purrrque eu num vô tá aqui não, vô pra Carrrdas Novas.
– Que trem é esse?
– Trem não, férias. Vô aproveitá pra curá minhas junta nos tanque de água quente.
– E os meus apareio?
– Sabe cuméquié, vespra de férias, acabô qui num deu tempo de prepará nada. Mas o M disse qui era pra dizê procê qui ele mandô comprá um celularrr assim qui chegá na cidade, qui é procê carregá o baguio cocê pra todo lado, e ligá pro QG todo dia na mesma hora e fazê o relatório da missão. Agorrra, si ocê mi dá licença, tenho um ônibus pra pegá.

Ele não é o único. Naquela noite, um ônibus azul e prata da Viação Cometa carrega no seu bojo um outro astro, o internacionalmente desconhecido 00Zé, luminar da espionagem interiorana, partindo pela primeira vez em direção à capital.

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2 Comentários on "A roça não é o bastante – Episódio 1"

  • van diz

    Adorei o Dábo-Dábo-Éfi. Só faltou o grinpissi…

  • diz

    Acredita que na Suíça eu conheço uma fazenda que pendurou na entrada uma placa onde está escrito: “Proibida a entrada aos membros do WWF”?

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