A roça não é o bastante – Episódio 2

A terça-feira mal começou em São Paulo e o terminal rodoviário da Barra Funda está lotado. Cruzando a multidão com garbo e chapéu de palha, surge o internacionalmente desconhecido agente 00Zé, a desserviço de sua majestade Bete Rainha, que o mandou descobrir quem assassinou o renomado saxofonista Tavinho.

Porém, antes de pegar o assassino, nosso herói tem de pegar o metrô. Uma tarefa que não deve intimidar um espião experiente, que jamais tinha estado na cidade até este momento. Para sua surpresa, os paulistanos se mostram muito solícitos. Sem mesmo lhe dirigirem a palavra, o arrastam num fluxo humano compacto em direção à saída. Agarrado ao seu chapéu de palha, o agente secreto se deixa levar pela multidão até a beira da escada rolante, onde ele estanca, provocando a queda em dominó de nove office-boys e quinze sacoleiras. Os degraus da escada deslizam com velocidade. Como todo bom espião, 00Zé desconhece a palavra “medo”. Na falta dela, decide que “desespero” é um ótimo substituto. Porém, antes mesmo que ele consiga gritar por socorro, a turba sempre atenciosa o arrasta consigo escada abaixo. Nem lhe deixam tempo para se assustar com a porta do metrô, que abre e fecha rápido, e logo ele e seus quinhentos mil novos amigos celebram sua cumplicidade silenciosa comprimidos no espaço exíguo do vagão.

Sufocado por tal demonstração de calor humano, o agente fica aliviado que seu trajeto seja curto. Verifica os bolsos para certificar-se de que ninguém roubou sua carteira e para achar o endereço de sua base de operações. A indicação lacônica diz apenas para descer na próxima estação e procurar pela sigla do desserviço secreto de espionagem. “MI ferrei”, exclama 00Zé ao chegar na avenida General Olímpio da Silveira. “MI dei mal” lança ele, ao se deparar com uma pensão debaixo do Elevado Costa e Silva, vulgo Minhocão. “MI lasquei”, lamenta, ao rodar a maçaneta engordurada. “MI estrepei”, ao ver a cama pulguenta. “MI encrenquei”, as baratas no banheiro. “MI danei”, a goteira. MI 6, o lugar é esse mesmo.

Sua perspicácia fora do comum lhe sugere que não vale a pena perguntar se a pensão tem ofurô. Na falta de comodidades hoteleiras, ele sai para passear. De novo, conta com a ajuda da população acolhedora para empurrá-lo para baixo da escada rolante e para dentro do metrô. Após emergir do subsolo e pedir informação a um camelô, vai até a rua Santa Ifigênia comprar um celular. Uma vez cumprido o dever, decide fazer um reconhecimento de terreno antes de começar a investigação. Sem pensar dezoito vezes, esse bandeirante às avessas parte desbravar o maior pólo cultural do Brasil, a maior megalópole da América do Sul, o maior centro financeiro da América Latina, o maior labirinto do mundo para um turista desavisado.

Lusco-fusco. Depois de muito perambular, 00Zé chega na Avenida Paulista. Fica impressionado com a altura dos prédios envidraçados que refletem os raios do sol que se põe e as luzes dos postes que se acendem. Conforme seu queixo vai caindo para baixo, ele vai erguendo a cabeça para cima, e começa a contar os andares.

– Com licença, o senhor está a par do regulamento?
– A parrr, não. Tô sozinho memo.

É um transeunte vestido de modo peculiar que o aborda. Diz ser fiscal municipal de edifícios e o manda pagar por cada andar que contou. Relutante, nosso herói pondera por alguns segundos sob qual rubrica justificará esse gasto junto ao MI 6. Decide, finalmente, que a verba para a missão cobre casos imprevistos de regulamentação imobiliária metropolitana, e que, afinal, é melhor se conformar às normas locais para ganhar a confiança da população. Segue seu caminho com a consciência leve e a carteira ainda mais leve.

Mais tarde, 00Zé liga para M, que reclama da despesa e pede uma descrição do indivíduo.

– Ocê deve tê sido enganado. Como era esse tarrr de fiscarrr?
– Um tipo esquisito, chefe, muito alto, magro qui nem o cão, todo de preto, com sobretudo, chapéu e óculos escuros. Isso purrrque era di noite.
– Tá na cara que é o assassino! Ocê num reparô não, pelas rôpa? Assassino sempre usa sobretudo, chapéu e óculos escuros à noite!
– Mas como qui eu ia sabê, se aqui todo mundo se veste estranho? Tem uns até com uns ferro atravessado na cara, coisa feia que só. Até agora, a única pessoa que eu tinha visto com anel nas narina era a Mimosa.
– Ocê vai tê qui se adaptá rápido, 00Zé. A cidade grande é uma selva de pedra.
– Taí, falô bonito.
– Gostô? Vi numa novela.
– Mas chefe, não se procupa não, que eu já tô intendeno bem como funciona as coisa porrr aqui. Na verrrdade, fui eu que enganei o fiscarrr. Paguei oito andarrr, mas já tinha contado pra lá de quinze!

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2 Comentários on "A roça não é o bastante – Episódio 2"

  • Anônimo diz

    Cada vez melhor, Ducaralh……..

  • rafa diz

    esqueci de por o meu próprio nome e por um instante não sabia mais quem eu era ……

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