A roça não é o bastante – Episódio 3

Quarta-feira de horizonte verde em São Paulo. Mais um dia de inversão térmica. 00Zé começa sua investigação pela terceira ex-mulher de Tavinho, Daniéli, que teve um comportamento suspeito no funeral. Afinal, conforme ensina o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região (circulação interna do MI 6, assinaturas para oficiais das forças armadas, membros do governo e escoteiros) em seu art. 28, o culpado é sempre o mordomo (parágrafo 1), se não for ele é a ex-mulher (parágrafo 2). E quanto mais ex, mais suspeita.

00Zé consegue o telefone de Daniéli junto à PF (Patrulha da Fofoca). Ele justifica sua ligação dando alguma desculpa furada (o Manual fornece várias no Anexo IV) e marca um encontro para o fim da tarde. Como tem algumas horas livres, decide incrementar sua cultura visitando o Museu do Ipiranga, não sem antes parar num PF (prato feito) para reabastecer a pança. Após um virado à paulista e um novo périplo pelo metrô, chega ao Parque da Independência.

– Que mal lhe perrrgunte, cadê as marrrgens plácidas?

Lamentando que o riacho nacional tenha sido canalizado, nosso agente contenta-se em admirar a beleza do laguinho. Caminha pelas alamedas do jardim, escolhe um gramado macio sob uma árvore frondosa e tira uma régia soneca, da qual só é retirado pelo brado retumbante de seu estômago.

– De novo? Viajar dá uma fome…

Mais uma refeição leve (nove x-tudo) e nosso herói se põe a caminho. Daniéli mora numa cobertura em Moema. O elevador panorâmico é uma emocionante descoberta para 00Zé. Ele se encolhe junto à parede para não ver o chão que se afasta, enquanto os andares aumentam no contador. Ao chegar no décimo-sétimo, rasteja para fora da cabine com a destreza de um caramujo. Com suas últimas forças, aperta a campainha. Uma loirinha magrela abre a porta, não encontra o visitante diante de si, e enxerga um ser trêmulo ajoelhado no capacho.

– Nossa! Cê tá bem?
– A senhora não tem verrrtige de morar num lugarrr desses?
– Sempre gostei de cobertura, você não?
– Até agora, eu só conhecia coberrrtura de sorrrvete. Mas ela num mi dava dorrr di barriga tão rápido.
– Cê deve ser o cara que pediu pra me ver, né?
– Divinhô! A senhora também é agente secreta?
– Não, reconheci pelo sotaque. Quer entrar?

O som dos passos de 00Zé é absorvido por um tapete branco suave e felpudo. Suas botinas nunca tinham deixado marcas de lama tão bonitas. Na sala, um terraço todo de vidro dá vista para a cidade. Sem se fazer rogar, Daniéli começa a contar sua história.

– Aquelas tribufus têm é inveja de mim, só porque eu sou vinte anos mais nova. Queriam gorar o meu casamento com o Tavinho. Até ameaçaram mostrar pro juiz minha carteira de identidade verdadeira, onde eu era menor. Mas não adiantou nada. Quem acabou com nosso casamento fui eu mesma, não gosto de gente se metendo nesses assuntos. É que o Tavinho me prometeu muita coisa, tá ligado? Aquela história de ser mulher de artista, freqüentar sala VIP, uísque de graça e o escambau. Tudo bem que ele andava num Escort velho caindo aos pedaços, mas ele dizia que era pra não chamar a atenção, fugir da imprensa, despistar ladrão, eticétera. Demorou um pouquinho para eu perceber que ele era só aquilo que parecia mesmo, pé-rapado, e ainda por cima não usava desodorante. Também, eu era tão novinha, até comecei a gostar dele… Mas não era tonta, não. Não ia ficar perdendo os melhores anos da minha vida junto de um fracassado que não me dava nada do que me prometeu. Preferi sair por cima, com a minha dignidade. Chega uma hora em que a gente tem que aprender a ser independente, sabe? Fiz as malas, falei um monte de verdades para ele e fui embora.

As últimas palavras da jovem são engolidas por soluços de choro. Nosso agente, dando mostras da gentileza impecável que o distingue, saca do bolso o lenço com o qual costuma limpar as botas e o oferece para enxugar as lágrimas de Daniéli.

– O pior de tudo, ela continua, com a fala entrecortada por choro convulsivo, é que ele nem me ouviu!
– Marrrvadeza… Tem hómi que é insensível memo.
– Nada, ele tava é surdo.
– Lascô! Mas ele não era músico?
– Aí é que tá a desgraça. Peguei ele na fase decadente. Sorte teve a Soraia, da época em que ele acompanhava o Sérgio Mendes, ou a Marlete, que o conheceu quando ele gravava pra Atlantic. Quando eu encontrei o Tavinho, ele não conseguia mais tocar uma música até o final. Era o produtor dele, o Carvalhosa, que editava todos os takes no Pro Tools, costurando vinte segundos ali, dez aqui, mais cinco lá… Em troca, obrigava o Tavinho a jogar pôquer com ele, e sempre ganhava.
– Credo, além de surrrdo, jogava mal?
– Que nada, o Tavinho era um ás do baralho. Deixava o Carvalhosa ganhar porque precisava cobrir os contratos com ele. E ainda morreu devendo.

Toca “I will survive”. É o celular dela. Daniéli olha o número e atende. Graças a sua audição apurada (e ao fato de Daniéli ter esquecido o telefone no viva voz), nosso agente ouve, do outro lado da linha, uma voz de poucos amigos e muitos decibéis.

– Daniéli? Que voz de choro é essa?
– Nada não, amor, tava cortando cebola.
– Que cebola? Você não sabe cozinhar!
– Foi modo de dizer.
– A Berivalda não está fazendo o jantar?
– Tá sim.
– Vou fechar uns negócios aqui na produtora e já chego em casa. Você vai ter que me explicar direito essa história.

Ela desliga com um sorriso triste, e pergunta a 00Zé:

– Não quer ficar para jantar? O Carvalhosa ia gostar de conhecer você.
– Carece não, dona, é que de repente mi deu uma vontade danada di não comê…
– Pena. Eu fiquei tão aliviada de poder desabafar com você… Não queria que você me achasse uma ingrata. Posso tentar ajudar? Eu achei isso aqui nas coisas dele depois que ele morreu.

Ela entrega ao espião uma caderneta onde estão inscritas várias despesas seguidas da sigla TT. “Pode ser mais alguém para quem ele estava devendo”, sugere Daniéli. 00Zé agradece com seu conhecido cavalheirismo caboclo (um sonoro tapa nas costas) e toma o caminho da roça, perdão, da cidade, descendo, desta vez, pela escada.

– M? Ocê num vai acreditá, chefinho: o Tavinho tava ficano surrrdo e devia dinheiro pruma pá di gente, inclusive um tarrr de TT.
– Ara… E agora, o qui ocê vai fazê?
– Agora vô di novo no banheiro, que aquela coberrrtura mi deu um enjôo danado…

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