A roça não é o bastante – Episódio 4

A quinta-feira paulistana amanhece com cheiro de peixe e pastel. 00Zé atravessa uma feira livre enquanto lê a caderneta do finado Tavinho, na qual a misteriosa sigla TT aparece repetidas vezes. Além disso, Daniéli, a terceira ex-mulher do saxofonista, revelou que ele estava ficando surdo. Não leva mais do que dois mamões, uma pêra, seis bananas e vários pedaços de jaca para o astuto agente perceber que a surdez está provavelmente relacionada a outra anotação recorrente na caderneta: “consulta médico”, seguida de um endereço nas Perdizes.

Na sala de espera do consultório do otorrinolaringologista, 00Zé aguarda que a secretária acabe de fazer as unhas, falar ao telefone e pôr em dia a leitura para chamar o médico. Depois de muitas “Caras” e “Bundas”, ela anuncia ao agente que ele pode entrar na sala.

Nosso herói não perde tempo. Assim que se senta diante do médico, começa a observar discretamente tudo à sua volta, fazendo perguntas para que o outro não perceba que está sendo perscrutado.

– Dotô, o Tavinho tava ficando surrrdo memo?, indaga o espião, enquanto abre e fecha as mandíbulas do crânio posto sobre a mesa.
– O Tavinho não estava surdo, tinha heléxia.
– Sério? É uma doença?, pergunta 00Zé, enfiando o dedo na goela de uma maquete da laringe.
– Claro que não, só falei para saber se você estava prestando atenção. Tavinho estava acometido de surdez degenerativa. Tremenda aflição para um músico.
– Imagino. Deve sê duro num ouvi os aplauso.
– Fora o risco de não ouvir a buzina de um carro, e ser atropelado. Vida de músico não é fácil.
– É. O dotô parece que entende à beça do assunto.
– Claro. Sou o especialista mais procurado pelos cantores, e o mais competente, para não dizer o mais modesto. Veja só, na parede, os retratos autografados dos meus clientes: Cauby Peixoto, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Alaíde Costa, Tetê Espíndola. E outros. Todos me chamam pelo primeiro nome. Todos grandes artistas. Tirando o Nelson Ned, mas há sempre a exceção que confirma a regra.

00Zé pergunta se o médico, tão íntimo das estrelas, por acaso não conhece alguém cujas iniciais seriam TT.

– Claro, Tony Truante, o cantor. Operei as amídalas dele. Avisei que ele não devia exagerar no uísque on the rocks. A cirrose não é da minha conta, mas todas as inflamações levam a mim. Enfim, eles enchem a cara, eu encho o bolso. Ele e Tavinho eram amigos de longa data.
– O sinhorrr num sabe onde eu posso encontrá ele, porrr acaso?
– Você quer dizer, além da zona e da delegacia? Bom, talvez no lugar onde ele trabalha, na Nestor Pestana.

O médico se levanta e segreda ao ouvido do agente:

– Aliás, imagino que isto aqui possa lhe ser útil, diz ele, entregando a 00Zé um calendário do Conselho Regional de Fonoaudiologia. Tem o telefone deles aí, podem dar um jeito nesse seu sotaque. Eu ligaria.

00Zé dissimula o calendário no bolso, junto com uma borracha, dez clipes e três compressores de língua que subtraiu do consultório. Volta para pegar o celular, que esquecera na sala do médico, e toma um ônibus para retornar à pensão.

Chegando lá, telefona para M:

– Fui no consultório do médico do Tavinho, o seu Oto.
– Quem é esse?
– Seu Oto, Oto Rino. Depois tem mais uns ôtro nome qui num lembro.
– E o qui ele disse?
– Confirrrmô nossa suspeita.
– Arrá! Foi a desgraçada da ex-mulher memo?
– Não, ele confirrrmô que o Tavinho tava ficano surrrdo.
– E eu tô ficano possesso. Vô até fingi qui num ouvi.
– O sinhorrr pudia vê o seu Oto, intão, chefinho. Surrrdez é co ele memo.
– Surrrdo vai ficá ocê, dispois qui eu ti dé uns pé-d’ovido! Quatro dias na cidade e ainda num discubriu nada! Si ocê num achá o assassino, com qui cara vô aparecê pra Rainha?
– Cara de pau?

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