A roça não é o bastante – Episódio 5

Sexta-feira, dia de descuido, deboche e diversão. Contudo, o lazer de uns é o trabalho de outros. 00Zé percorre um dos bairros quentes de São Paulo, mas não à caça de excitações fugazes. Ele procura o cantor Tony Truante, que se apresenta numa boate da rua Nestor Pestana.

O agente internacionalmente desconhecido entra na padaria Estrela d’Alva para perguntar o caminho. Detrás do balcão, o Manoel ajeita o lápis atrás da orelha e lhe responde:

– Ora poich, sabes a rua Frei Caneca? Então, não é lá. Entras na paralela, a rua Augusta. Vais em frente até chegar ao cruzamento com a rua Caio Prado, onde há uma estação de serviço. Não é lá. Desces mais um bocadinho, e verás um cabaré com uma torre falsa a imitar um relógio, que se chama Big Ben. Poich, não é lá. Aí, atravessas o viaduto e dobras à esquerda.
– E não é lá?, completa o astuto espião, acompanhando o raciocínio do padeiro.
– Não, então chegaste, cáspita!

Seguindo as indicações, 00Zé caminha enquanto mastiga um sonho, uma paçoca e uma rapadura, até que encontra a rua e a boate. A porta está entreaberta, um funcionário está lavando a calçada, lá dentro outro está desempilhando cadeiras. Sofás pretos e lustres dourados refletem nas paredes cobertas de espelhos. Tony Truante está ensaiando no palco, junto ao pianista, enquanto técnicos ajustam as luzes. Ao avistar o chapéu de palha, reconhece o tira que ligou para ele. Decreta quinze minutos de intervalo e vai falar com 00Zé num canto do bar.

– O Tavinho andava vacilando, tava malzaço. Mas não merecia um fim escroto desses. Quando morreu, tava tocando numa casa noturna do Largo do Arouche, fim da linha, ele que já tinha lotado o Tom Brasil, feito temporada no Rio, se apresentado em Montreux e tudo mais. Como sempre, tava de olhos fechados, era a onda dele, entrega total, não precisava nem queria ver nada. A música era o refúgio dele, saca? Também, com aquelas bruxas pegando no pé dele pra pagar pensão, e aquele produtor espremendo ele pra pagar as dívidas de jogo, tudo contrato leonino, topava tudo que era trampo e não sobrava nada pra ele, isso vai corroendo o cara. Até arranjou uma amante para agüentar a barra, mas nem isso mais adiantava. Ele tava se acabando aos poucos, o desgraçado só fez dar o empurrão final.
– Ele caiu do palco?
– Não, tava lá solando, viajando, a banda só na cola dele, quando entrou o condenado, pela porta da frente, sem se incomodar. Naquela escuridão, naquele fumacê, ninguém viu o otário, todo de preto, parecia urubu. Muito menos o Tavinho, olho fechadão, só no groove. Problema é que ele também não ouviu quando a galera gritou feito doida, vendo o animal sacar a arma e apontar pra ele. Músico surdo é foda. Ele nem soube se os gritos da platéia eram de pânico ou se estavam mais é curtindo o som dele. Cara, fazia tanto tempo que ele não levava uma ovação dessas. Deve ter mais é morrido feliz. Deve ter pensado que eram os dias de glória de novo, que estava mandando bem pacas, que aquele era o solo da virada. Caprichou e tocou o melhor solo da vida dele. Pena que o único que ouviu até o fim foi o boçal que apagou ele.
– Sério?, indaga nosso agente, comovido.
– Claro que não, capiau, o Tavinho tava surdo, tocando tudo errado. Só falei assim porque fica mais bonito. O sujeito entrou, atirou nele e deu no pé. Tinha tanto sangue no chão que os donos da casa acharam mais fácil tingir o resto do carpete de vermelho do que mandar limpar a mancha.
– Vige, que coisa horrível!
– Sinistro, né? Nem Vapo-Clean adiantou.
– E ocê num sabe quem foi?
– Ah, se eu soubesse, se eu soubesse… Olha, eu juro que, se eu soubesse, eu… eu…
– Ocê o quê?
– Prefiro nem saber, porque se eu soubesse, nem sei o que eu faria.
– Então não foi ocê não, né?
– Tá me estranhando, seu jeca? O Tavinho era meu chapa, começamos a carreira juntos, nós e o César Mariano, o Hermeto, a turma toda. Era da família. Por falar nisso, tem uns cinco reconhecimentos de paternidade me esperando em casa. Se você me dá licença, preciso trabalhar pra alimentar a galera.

Já de saída, 00Zé lembra-se que Tony mencionou a amante de Tavinho.

– Ah, você quer ver a Tetê?, pergunta o cantor, com um sorriso ao mesmo tempo maroto e incrédulo. Melhor você ir armado, ele adverte.
– Arrrmado?
– É, nunca se sabe quando pode precisar. HAHAHA!

Soltando a célebre risada tonitruante que lhe deu o nome artístico, o cantor faz estalar na palma da mão de 00Zé um pacote de camisinhas sabor menta, e retorna ao seu ensaio. Nosso espião vê na embalagem um desenho sensual e os seguintes dizeres: “Tetê, a mulher de três tetas, espera você”, acompanhados de um endereço.

Ainda com os olhos arregalados depois dessa descoberta biológica inusitada, 00Zé liga para M e relata o encontro com o cantor.

– Então, Zero-Zero? Já descobriu alguma coisa?
– Já, o sinhorrr num vai acreditá, chefe. Existe uma mulher que tem três… três…
– Três o que, hómi?
– Três… vezes mais chance de ser culpada do que o cantor!
– Ah, é? Não foi ele, então?
– Não, quando eu perrrguntei, ele disse “Tá me estranhando, seu jeca?”.
– Ainda bem que ele confundiu ocê co nosso ôtro agente, Jeca Tatu. Tá preserrrvando a sua identidade. Bom trabalho, Zero-Zero.

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