A roça não é o bastante – Episódio 6

Sábado. Então, TT não é Tony Truante, e sim a tal de Tetê, a mulher de três tetas. A ex-amante de Tavinho é dançarina da noite. 00Zé vai à procura dela num bordel da avenida São João. Na calçada, ele desvia com dificuldade dos ajudantes de proxeneta que tentam atrair os passantes incautos: “Aê, jovem, vamos ver as moças?”, “Tenho duas irmãs aqui dentro, pode tirar foto se quiser.”

Ele chega no número correspondente, onde o letreiro de neon diz “Styllu’s”. Oculto pela nuvem de fumaça espessa, ele atravessa o salão lotado de mulheres seminuas e homens vestidos pela metade até chegar a uma entrada reservada, coberta por uma cortina carmesim e guardada por uma parelha de brutamontes. “A festa junina já passou, caipira”. “HAHAHAHA!” Ignorando os dois seres obtusos, 00Zé tira de baixo de seu chapéu de palha o pacote de camisinhas sabor menta que lhe foi dado por Tony Truante, aquele cuja embalagem traz impresso o convite para ver Tetê. Os leões-de-chácara se calam subitamente e a expressão de ambos se congela num misto de incredulidade e subserviência. Cabisbaixos, abrem a cortina e destrancam a porta que estava oculta, dando passagem ao agente. Nosso herói avança por um corredor estreito, recoberto de carpete preto e papel de parede em forma de losangos brancos e pretos, iluminado à meia-luz e pontuado por fotografias eróticas em preto e branco. No final do corredor, depara-se com uma porta dourada. E entra.

Tetê está sentada de costas para a porta, penteando seus cabelos longos, negros e lisos diante do espelho, vestida com um peignoir de seda prateado, decorado com motivos chineses. Ao ouvir entrar o visitante, ela pergunta quem é, sem se virar. “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda. Eu vim…”. Ela faz girar a poltrona, fica de frente para ele e se levanta com vagar. O peignoir desliza discretamente sobre seus ombros. 00Zé esquece o que ia dizer.

Olha para ela uma primeira vez, uma segunda vez.

– Vixe! Cadê a terceira?
– A terceira o que, fofo?, lança a dançarina, inclinando a cabeça de lado com um olhar lânguido.
– É que… eu achei que a senhora… o nome da senhora diz que…
– Ah, bobinho, isso é nome artístico. Do jeito que tá a concorrência, a gente tem que oferecer cada vez mais para atrair os clientes.
– Clientes de que…?

Nosso agente engasga quando compreende, com sua proverbial sagacidade, a verdadeira profissão de Tetê.

– A senhora é mulherrr da vida?
– Morta é que eu não tô, né, meu bem?
– Ara, sô, que foi isso mesmo que eu vim fazê aqui e tinha esquecido!
– Fazer o que, me matar?, ela provoca, aproximando-se lentamente dele.
– Não, ia perguntar pra senhora se a senhora tinha…
– Se eu tinha o que, benzinho?, sussurra Tetê, enquanto puxa 00Zé pelo colarinho e encosta os seios no peito dele.
– Se a senhora sabia…
– Eu sei muitas coisas, querido, ela retruca, esmagando os seios enormes contra ele.
– Mas eu esqueci por causa das… do tamanho das…
– Das o que?, ela indaga sem esperar confirmação, já abrindo o decote e pondo os seios à mostra.
– É que, até agora, as maiores que eu já tinha visto eram as da Mimosa.
– Que nome carinhoso! Você sempre dá apelidos assim para as suas amantes?
– Não, Mimosa é uma vaca.
– Que pena, vocês brigaram?
– Não, ela…
– É uma vaca, é? E eu, sou o que? Uma vadia? Uma vagabunda?

Agarrando-o com fúria, ela tira o palito da boca de 00Zé com sua própria boca, cospe-o de lado, e enterra o rosto do agente entre seus seios imensos, soltando um gemido de êxtase.

Nesse momento, o narrador pára para tomar um café e, quando volta, Tetê e nosso espião estão imersos num ninho de almofadas cor-de-rosa em forma de coração.

– Ai, meu lindão, assim você me mata mesmo…
– Aliás, a senhora num matô o Tavinho, porrr acaso?
– Bem que ele merecia, do jeito que era ruim de cama. Mas eu não tive nada a ver com essa história horrorosa. Minha relação com ele era estritamente profissional. Ele me prometeu que me arranjaria um lugar de dançarina num espetáculo que o produtor dele ia organizar, no Palace, sabe, lugar distinto, bem melhor que este pulgueiro. Em troca, eu dava um pouco de atenção para ele. Era o único lugar onde ele podia escapar daquelas megeras das ex-mulheres dele, bando de invejosas… Mas aí, sabe como é, o sujeito chega todo bonzinho, conquista uma moça inocente assim como eu, se aproveita da minha ingenuidade… Ficou me enrolando e, do espetáculo, nada. Até que eu me cansei, botei ele pra fora, mandei nunca mais voltar aqui. Agora realmente não volta mais…

00Zé não consegue identificar se a última frase continha tristeza ou alívio. Tetê se despede dele com um beijo nos lábios e um abraço demorado. “Não esquece seu celular, querido”.

Depois de sair da Styllu’s, nosso herói caminha sob a luz amarelada dos postes da avenida São João, dobra à esquerda na avenida Ipiranga e liga para M.

– Chefinho, descobri o segredo do tal de TT. Não era hómi, era muié, e ela fala que tem três, mas na verdade só tem duas.
– Duas o que, Zé?
– Tetas, chefe. Mas valem por quatro!

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