A roça não é o bastante – Episódio Final

O domingo paulistano amanhece pesado sob efeito do mormaço. 00Zé coça o queixo pensando que acabou o creme de barbear, assim como acabaram as pistas. Sua passagem de volta está marcada só para a noite. Na falta do que fazer, nosso agente vai conhecer o Bixiga. Visita a igreja da Achiropita, passa em frente ao teatro Sérgio Cardoso, compra um provolone e segue andando a esmo pela rua Major Diogo. Macambúzio, abatido e acabrunhado, está tentando imaginar a maneira menos pior de relatar o fracasso da missão, quando se depara com rostos familiares num cartaz colado num poste.

O cartaz diz que, mais tarde naquele mesmo dia, Tonico e Tinoco vão cantar numa churrascaria do Largo do Arouche. 00Zé se enche de ânimo. Vai saborear o boi no espeto e ouvir música caipira para matar a saudade de casa. Volta para a pensão, faz a toalete refinada que lhe dá todo seu charme (sem esquecer a banha de porco no cabelo), e sai para uma noite de gastronomia e moda de viola.

Ao chegar no Espeto de Ouro, escolhe uma mesa em posição estratégica: de costas para a parede (como ensina o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região, capítulo nono), próxima ao palco (como convém a um apreciador da música de raiz) e mais próxima ainda do bufê (como comanda seu apetite). O humor do espião aumenta à medida que vão circulando as carnes do rodízio: picanha, maminha, fraldinha, coração de galinha. E mussarela! Abacaxi tostado! Enfim, para cúmulo das delícias, o tecladista da casa é dispensado, o mestre de cerimônias anuncia no microfone a atração especial, e a famosa dupla entra em cena: “Fiz uma casinha branca / Lá no pé de serra / Pra nós dois morar”. Nem mesmo todo o treinamento do nosso herói é suficiente para resistir a tamanha emoção. A nostalgia interiorana o acerta em cheio, sem falar nas quatorze caipirinhas. Enquanto a água jorra dos olhos, 00Zé corre para tirar água do joelho.

Quando vai entrar no banheiro, um sujeito muito alto, magro que nem o cão, todo de preto, com sobretudo, chapéu e óculos escuros, empurra a porta basculante com força e quase o derruba. “Pô, meu, olha onde anda!” O indivíduo segue seu caminho apressado. Recompondo-se como pode, nosso agente corre em direção ao mictório. Contudo, antes de alcançar o WC, uma suspeita o retém. Onde já viu aquele sujeito? Ele tinha algo a ver com alguma coisa, mas o que? Indagação tanto mais premente que as quatorze caipirinhas procuram com urgência uma rota de saída. Nosso herói sabe que deveria se lembrar de algo importante com relação ao homem de preto, mas nesse momento sua memória falha. Seu cérebro está muito ocupado travando uma luta de morte com sua bexiga pelo comando de suas pernas. Mas a dúvida não quer calar. Para qual lado ir? Para o sanitário? Para o salão?

Não é à toa que 00Zé é um agente secreto. Sua inteligência acima de média lhe permite concluir que a melhor maneira de se lembrar quem é o sujeito é perguntar ao dito cujo. Se ainda conseguir andar em linha reta, satisfará a curiosidade a tempo de satisfazer a necessidade. Juntando suas forças, segue o homem de preto, que se dirige para o salão e se posiciona de frente para o palco. Antes que 00Zé chegue perto o suficiente para lhe dirigir a palavra, percebe que o homem vai sacar algo do bolso. A carteira? Um lenço? Um palito de dentes? Não, uma pistola! E ele a aponta para a dupla de cantores!

Nosso herói é tomado por uma aguda sensação de urgência. Precisa agir rápido antes que molhe as calças. E agora vem essa tentativa de homicídio impedir que desafogue a bexiga. Tantas possibilidades contraditórias percorrem sua mente nesse segundo. O homem de preto está longe demais. O banheiro está longe demais. Deve ficar ou deve partir? Bater ou correr, mijar ou morrer? Ir, vir ou permanecer? Gritar não adianta, fugir não adianta. Jogar o celular na cabeça do assassino adianta. O aparelho zune através do salão. O corpo vestido de preto desaba com um baque. Que alívio. Agora 00Zé pode se precipitar em direção ao banheiro.

De volta ao salão, o agente vê a freguesia aglomerada em torno do bandido desmaiado. Os mais afoitos o desmascaram, tiram o chapéu e os óculos escuros, revelando um rosto que ninguém conhece. E esse não é o único mistério da noite. Quem impediu o crime? Quem avistou o facínora? Quem o acertou na cabeça com um celular? Aproveitando a comoção geral, 00Zé vai abrindo caminho discretamente entre os curiosos para recolher o projétil improvisado e descobrir quem ele nocauteou. “Ara, é o fiscarrr de prédio do segundo episódio!”, ele exclama. Ao ouvir sua voz, um cliente volta-se para ele e o reconhece: “Foi esse, o do chapéu de palha!”. “Vixe, lascô!”, murmura o agente para si mesmo. “Discobriro qui eu num dei discarrrga.”

Enquanto isso, os donos da churrascaria haviam ligado para a polícia. Os agentes da lei chegam ao Espeto de Ouro e se encarregam de algemar o meliante e colocá-lo na viatura. As forças da ordem indagam dos presentes quem foi o responsável pela captura. A clientela encoraja 00Zé, com um empurrão, a se apresentar. “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda”, balbucia o espião, percebendo aos poucos o sucesso de sua missão. Feita a troca de credenciais, a polícia paulistana agradece o agente internacionalmente desconhecido, do qual nunca tinham ouvido falar. “Aliás, sua braguilha está aberta”, avisa o capitão. Nem esse detalhe constrangedor, nem a presença das autoridades inibem o movimento espontâneo de gratidão popular. Proprietários, garçons, gulosos e gourmets, todos avançam para cumprimentar o espião. Os cantores, que lhe devem a vida, são os mais efusivos. Tonico e Tinoco oferecem a 00Zé um guardanapo autografado e prometem fazer uma música em sua homenagem. “Salve Nossa Senhora Aparecida”, entoa um, e o outro completa: “Fio, ocê chegou na hora cerrrta.” Ao lembrar-se da hora, o agente olha para o relógio e sobressalta. Está atrasado para apanhar a condução. Ele se despede com mostras da urbanidade típica da roça, dizendo “Discurrrpe quarrrqué coisa”. A multidão se abre em duas fileiras para deixá-lo passar e o aplaude enquanto ele sai da churrascaria numa carreira desatada rumo a novas aventuras. Tonico e Tinoco puxam o coro: “Toda vez que eu viajava, / pela estrada de Ourofino, / lá de longe eu avistava / a figura de um menino”. Se fosse um filme, subiria o letreiro com os créditos finais. Como não é, 00Zé ainda tem de se apressar para pegar o ônibus de volta a Piracicaba.

Do terminal rodoviário da Barra Funda, 00Zé telefona para M para contar que solucionou o caso.

– Os pulícia daqui acham qui era um sírio quílerrr.
– Que trem é esse?
– Parece qui em porrrtuguês chama assassino de cereal.
– Ainda bem que só tem essas coisa aí na cidade, qui nem grama tem. Imagine si fosse aqui no campo, o estrago que num ia fazê.
– Pois é. O estranho era que o tarrr assassino de cereal também matava pessoa. Mas pelo meno foi uma só.
– Graças a ocê, Zé, que impediu que ele matasse mais.
– Quié isso, chefe. Assim, eu fico inté enverrrgonhado. Mas sabe, na verrrdade, eu acho qui discubri ôtra coisa que os guarrrda daqui não perrrceberam.
– O que?
– O assassino de cereal que matô o Tavinho morava em cima da boate onde ele tocava. Acho qui num güentava mais aquei sacofonista desafinado. Também, o danado tava surrrdo. Devia sê um saco memo! E a churrascaria onde ele tentô matá o Tonico e Tinoco fica do lado da boate. Eita hómi pra num gostá di música!
– O que imporrrta é que agora nóis pegamo ele. Zero-Zero, sua perrrforrrmance nessa missão foi ixtrorrrdinária. Vô inforrrmá pessoarrrmente a Bete Rainha. Acho até qui ocê vai podê pedi um prêmio.
– Ma isso é danado de bom, sô!
– Nada, ocê merece, fio. Aliás, falando em prêmio, Deiz Merréis pediu procê trazê uns parrr de sapato pra ela, viu? E uma borrrsa imitando couro de jacaré, quié pr’ela causá quando forrr no bingo em Ituverava.
– Pode deixá, chefe. Óia, agora preciso ir porrrque tem gente na fila.
– Eu sei, fila de autógrafos. Aproveita a fama, rapaz!
– Nénão, é fila do oreião memo. Viu, chefinho, e já que o sinhorrr mencionô o prêmio, da próxima vez vô querê um daqueles telefoninho di carregá na mão, inguarrr que o povo daqui da cidade usa, porrrque ficá ligando da rua é muita complicação.
– Ara, criatura, e o celularrr qui eu ti mandei comprá?
– Virrrge santa, o sinhô num imagina como pesa na mala esse rotorrr pra tubo de cultivo celularrr!

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