Solteiro convicto

Nunca me senti inclinado ao casamento. Encontrar uma companheira, sim. Fazer promessas de frente para o padre e de costas para um monte de barrigas famintas, não. Muito menos enfrentar a interminável peregrinação para escolher igreja, salão, bufê, bolo, roupa, flores, convites, fotógrafo, cinegrafista e tudo mais que faço questão de esquecer. Sem falar no risco de ofender uma tia-avó, o chefe da minha mulher ou o porteiro do prédio da minha prima ao excluí-los da lista de convidados – ou de padrinhos.

No momento em que tudo está indo às mil maravilhas, por que um casal estragaria tudo organizando o casamento? Se vocês realmente não querem mais se separar, peguem esse dinheiro que iam jogar fora, comprem duas passagens de avião, ofereçam-se uma lua-de-mel inesquecível e mandem um postal para a família e os amigos.

O único motivo que me levaria a cumprir as formalidades do Subtítulo I do Título I do Livro IV da Parte Especial do Código Civil seria a obtenção de vantagens patrimoniais ou de proteção jurídica para as crianças (se houver, o que é outra história).

Hoje presenciei uma cena que reforçou minhas convicções.

O que faz o noivo numa loja de noivas? Não, ele não escolhe uma, pois já tem. Aliás, a loja não vende noivas, mas vestidos para elas (nada como uma metonímia para render uma piadinha infame). O coitado do noivo se senta na beirada da poltrona, cruza as mãos e as comprime entre os joelhos. Se for ousado, apóia-as na borda da mesa. E veste uma expressão facial da mais intensa agonia, enquanto tenta fingir que não está ligando para tudo aquilo. Afinal, não pega bem ele sentir as fazendas entre os dedos e debater com a vendedora se o tafetá é mais macio que o organdi. Nem avaliar o caimento da saia dupla sobre os quadris da eleita do seu coração, nem opinar sobre o comprimento da cauda. E, sob hipótese alguma, ele sentenciará se flores de laranjeira combinam com o véu de tule de seda. Simplesmente, na cabeça dele, não pega bem.

Portanto, a ele só resta sofrer enquanto sua doce metade folheia os álbuns com entusiasmo. A cada foto, quando ela pergunta o que ele acha, ele responde apenas: “bom”. Quando ele pensa que ela finalmente se decidiu, concorda dizendo: “esse é bom mesmo”. Obviamente, não adianta e ela continua. O apocalipse acontece quando ela resolve compor um modelo que não está no catálogo, e ele se desespera: “Não pode ser um que já está pronto?”. Moças, não insistam. Nessa hora, seria mais útil o parecer de um babuíno.

Vi esse desastre perto de casa, numa lojinha furreca que também vende abajures e tira fotocópia. Imaginem se fosse na Rebouças ou no Bom Retiro, o infeliz teria que ser carregado para fora de maca.

Eu jamais passei por nada disso, mas pode ser que, um dia, pague minha boca e vocês venham todos esfregar essa crônica na minha cara – ou me obrigar a lê-la durante a cerimônia, registrada em DVD. Pode ser. Por enquanto as probabilidades me favorecem. Porém, se não for mais o caso, posso garantir uma coisa: não vou ficar quieto na loja de noivas, nem em nenhum outro lugar. Eu vou dizer, sim, o que penso do corpete acetinado. Se é para ser ridículo, tem que participar!

P.S.: Murilo, pode mandar meu misto-quente pelo correio.

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6 Comentários on "Solteiro convicto"

  • Rafael diz

    tsc…tsc…tsc…incrédulos! Eu mesmo registrarei tal dia, pode deixar!

    PS: seu texto só melhora, impressionante. “Vai si catá”!

  • Murilo Moyses diz

    Caro José

    Enviarei o misto com pingado!

    Enjoy

  • Murilo Moyses diz

    José,

    O noivo nunca deve ver o vestido da noiva antes da cerimônia do casamento.

    Que catso.

  • Anônimo diz

    Conheço este texto… lembro de ter feito uma proposta…

  • Droga de metonímia! Bem que podiam vender noivas por lá … Muito bom, Zé!

  • Betto diz

    Caro Ze, porque nao escreceu essa cronica a 25 anos atraz???????, mas como dizem tudo tem seu tempo nao eh mesmo!

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