Remembrança

Antes mesmo de encontrá-la, pareceu-me familiar. Uma velhinha inglesa, professora aposentada de literatura, de quem a Liliana já havia me falado: “Vou apresentá-la quando você for ao Genève-Plage”. Pequena, magrinha e enrugada, escondida numa imensa camiseta vermelha. A franja grisalha varria os óculos grandes de aro redondo. Dentro deles, os olhos estalavam com faíscas de uma mente ativa.

You are leaving the American sector”, entusiasmou-se a voz rouca com os dizeres da minha camiseta berlinense, e reparou imediatamente no que eu segurava. “Que é isso que você está lendo?”. Era Slackjaw, que eu tinha começado há pouco tempo. Ela não conhecia – nem eu, até pegá-lo na estante de doações da biblioteca do Pâquis. Da minha mão, passou para a dela, que logo o virou, expondo a foto no verso: Jim Knipfel, chapéu preto inseparável, cabelos compridos e camiseta heavy metal. Gostou dele na hora, “just by his looks”. Professora de literatura sempre curte o pessoal fora do esquadro.

Perguntou-me sobre o livro, recitei a quarta capa: autobiografia de um sujeito problemático, cego por causa de doença degenerativa, que realizou várias tentativas de suicídio e é meio louco. Ela me interrompeu com um sorriso: “Mas quem diz o que é loucura? E quem quer ser são quando o mundo está louco?”. Era assim, exatamente, que eu me lembrava das minhas professoras de literatura, mesmo inconformismo, mesma paixão. Tinha me esquecido de ver o mundo com essa flama; repeti, idiota, a resenha rotuladora que não valorizava o livro que estava adorando. É para isso que precisamos de professoras de literatura, para nos abrir os olhos e colocar de volta no caminho.

Depois, outra cumplicidade: ela quis saber o que eu estava lendo ultimamente. Pois os amantes da literatura estão sempre lendo, buscando um indefinível que se esconde entre as linhas. “I’m trying to catch up on my classics”, respondi, mencionando os últimos: Oliver Twist, Pride and Prejudice. O rosto dela se iluminou com mais força. Por mais que se ame os livros, algum autor, e não outro, será nosso alter ego. O dela, descobri, é Jane Austen. Celebrou a ironia da autora, capaz de transgredir o mundo onde vivia. Animou-se, prodigou conselhos. Não gosta muito de F. Scott Fitzgerald, mas entende que seja atraente, na idade certa. “E o Gênesis, você já leu?”. Acompanhando o movimento negativo de minha cabeça, continuou: “Leia os onze primeiros capítulos do livro do Gênesis. Sem isso, você não pode entender, por exemplo, a poesia de John Milton”.

Cedendo o passo novamente ao seu outro eu, perguntou-me se já tinha lido outros romances da Jane Austen. Quando eu disse que não, prometeu que os traria para mim. Ela estava juntando muitos livros, disse, desde que abandonara o cigarro sobrava dinheiro para comprá-los. Parou de fumar por causa de um câncer na garganta. Uma história de fraqueza, dor e superação, que ela conta com sinceridade assombrosa. Ciente de seus defeitos, alimentada por uma paixão, fortalecida pelo amor das letras – o que faltava para se apaixonar por ela? Que recitasse a frase de abertura de Cien años de soledad? “Só sei em inglês”, desculpou-se: “Many years later, as he faced the firing squad, Colonel Aureliano Buendía was to remember that distant afternoon when his father took him to discover ice”.

É assim que me lembro das minhas professoras de literatura, e agora percebo há quantos anos não conversava com elas, e recordo porque eram, de longe, minhas professoras favoritas: porque viviam o que ensinavam e ensinavam o que tinham vivido, porque eram seres humanos e se assumiam como tais, porque iam ao fundo das experiências, boas e más, e emergiam carregadas de sabedoria, que transmitiam com generosidade e entusiasmo. Obrigado, Elizabeth. Você estava me fazendo muita falta.

Compartilhe!

2 Comentários on "Remembrança"

  • Anônimo diz

    E lindo! Eu adorei!!!

  • Anônimo diz

    Lindo, seu texto é lindo!!! Como vc…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *