Sonhos do viajante sem rumo


dedicado a Winsor McKay

Estava finalmente na hora de voltar. Essas viagens, às vezes, começavam a ficar cansativas. Antes de ir embora, porém, ainda precisava providenciar uma encomenda para meu pai. Eu havia me esquecido do que era, mas tinha certeza que saberia encontrá-la. Era só descer na Estação Amendoim, lá deveriam ter o que procurava. Quatrocentos quilos seriam suficientes para alimentar o elefante, tinha dito meu pai, e se custassem caro demais eu poderia pagar fazendo uma careta. Para minha sorte, o metrô tinha uma saída do outro lado do Oceano, dentro da sala da casa onde moramos quando era criança. Eram dois elefantes, na verdade, a mãe e um filhote, e a mulher do meu pai me mostrava como era carinhoso o pequeno paquiderme, que estendia a tromba pedindo mais amendoins, e suas narinas úmidas abriam e fechavam num beijo pastoso, para agradecer salivadamente a mão, o pescoço e a face de quem o alimentava. A mãe, por sua vez, era temível quando se aproximava com toda sua corpulência para proteger o rebento daqueles reduzidos seres que o alimentavam sem sua permissão. Podíamos ouvir seus passos que ecoavam na cozinha, e o estrondo de sua tromba que nos alertava para que nos afastássemos, um ruído possante e persistente que só cessou quando apertei o botão do celular, e desliguei o despertador, ignorando-o. Ainda havia tempo para mais uma baldeação, pois na próxima estação, cujo nome eu havia esquecido, também era possível pegar a linha F, aquela que me levaria diretamente ao trabalho pelos caminhos mais absconsos, a menos que fossem as férias, e nesse caso ela conduziria à beira-mar, do outro lado da ilha, onde o vento insuportável descabelaria todos os cabelos da Terra, arrastando-os pela montanha russa mais antiga do Mundo, até que formassem uma massa de coral onde todas as baleias que restam viriam se reproduzir. Todavia, antes que eu pudesse compreender o que dizia o condutor do trem numa língua que eu sabia mas não compreendia mais, a sirene tocou com toda violência, obrigando-me a apertar o mesmo botão. Este provavelmente estava com defeito, pois assim que o pressionei o despertador tocou novamente, sem respeito algum pelos cinco minutos de silêncio aos quais eu tinha direito. O que me consolava era saber que a notícia do terremoto não passava de um pesadelo, e que meu irmão havia sobrevivido. Qual o quê. Juntando os pedaços de memória do dia anterior, lembrei-me finalmente, contra todas as aparências, de que era real, tão real quanto os paraquedistas que saltavam de uma torre metálica por puro prazer, quanto a colombina de pernas-de-pau que me cumprimentou numa esquina da Segunda Avenida. E para pôr um fim a tantas coisas estranhas, decidi tomar o desjejum costumeiro, uma fatia de pizza de abacaxi e aquele resto de suco de manga com cenoura.

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1 Comentário on "Sonhos do viajante sem rumo"

  • prima Vera de outrora diz

    não sei que apito toca o tal Winsor McKay, mas parece que tem a ver com narcóticos…principalmente o arremate-auto-destrutivo-conta-gotas alimentar
    pura viagem!
    feliz 31

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